De vermelho, Petra Costa faz protesto no Oscar: "Trabalhadores do mundo se unam"

Petra Costa (centro, à direita) com outros concorrentes do Oscar 2020. Foto: Rick Rowell via Getty Images

O filme brasileiro “Democracia em Vertigem”, indicado ao Oscar de melhor documentário, não conseguiu conquistar a estatueta.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

A categoria foi vencida por “Indústria Americana”, filme sobre o choque cultural de fábrica nos Estados Unidos administrada por chineses e que tem entre seus produtores o ex-presidente dos EUA, Barack Obana, e a ex-primeira dama, Michelle.

Leia também

“Que os trabalhadores do mundo se unam, como disse Karl e Julia Reichert por 'Indústria Americana'“, escreveu Petra Costa, a diretora de “Democracia em Vertigem”, em referência ao discurso da diretora do documentário vencedor que reproduziu uma frase de “Manifesto Comunista”, de Karl Marx.

A cineasta compareceu à cerimônia de entrega do prêmio com um vestido vermelho do estilista sul-africano Marc Bouwer e joias do designer Fernando Jorge, brasileiro radicado em Londres e um dos nomes mais pulsantes da nova joalheria mundial.

No tapete vermelho do Teatro Dolby, em Los Angeles, onde a cerimônia foi realizada, Petra e a equipe do filme fizeram protestos, exibindo cartazes que protestavam por causas como a invasão de terras indígenas e a demora na solução do assassinato da vereadora Marielle Franco, entre outras.

Petra também levou como convidada especial a líder indígena Sônia Guajajara, que foi vice-candidata a presidência em 2018 na chapa de Guilherme Boulos pelo PSOL.

Além disso, o montador do filme, Joaquim Castro, também levou um boné do MST para a premiação, com o qual tirou uma selfie e postou no Instagram via stories direto do tapete vermelho.

“Indústria Americana” também desbancou os sírios "For Sama" e "The Cave", além de "Honeyland", da Macedônia.

Polarizador desde o seu lançamento na Netflix, em junho do ano passado, a indicação do filme ao Oscar só fez acirrar a divisão entre seus apreciadores e detratores, em geral identificados com a esquerda e com a direita, respectivamente.

Assim que o título foi indicado oficialmente -ele havia sido pré-selecionado em dezembro passado-, os ex-presidentes Lula e Dilma, que aparecem em cena, elogiaram a escolha da Academia em comunicados concluídos com "a verdade vencerá".

Já o presidente Jair Bolsonaro (Aliança) embarcou na falas de seu ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, e ironizou a indicação, afirmando que o documentário deveria ter sido indicado na categoria de melhor filme de ficção.

"Para quem gosta do que o urubu come, é um bom filme", disse ao jornal Folha de S.Paulo em janeiro, admitindo depois que não havia assistido à produção pois não perderia tempo "com uma porcaria dessas". A diretora não deixou barato, e republicou a notícia do jornal no Twitter acompanhada da frase "É como ser nomeada uma segunda vez em menos de 24 horas".

Os ânimos se acirraram ainda mais à medida que a data da cerimônia se aproximava. Na segunda passada (3), a Secom, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, usou seu Twitter oficial para atacar Costa, chamando-a de "militante anti-Brasil".

As críticas foram motivadas por declarações que ela deu numa entrevista à PBS, emissora pública dos Estados Unidos. "É inacreditável que uma cineasta possa criar uma narrativa cheia de mentiras e de previsões absurdas para denegrir uma nação só porque ela não aceita o resultado das eleições", diz um dos posts, escrito em inglês.

Outro é um vídeo, este em português, em que a Secom classifica como fake news várias afirmações de Costa.

Segundo a advogada Mônica Sapucaia Machado, especialista em direito administrativo ouvida pela reportagem, os tuítes da Secom ferem a Constituição. Isso porque ela dita que administração pública deve ser orientada pelo princípio da impessoalidade, ou seja, não deve ser um instrumento de opinião sobre determinadas obras culturais.

Costa também se pronunciou, e qualificou a atitude da Secom de antipatriótica.

Para Machado, os posts da pasta avançam o sinal vermelho ao expor a artista, "a ofendendo, o que não está autorizado à administração pública em nenhuma hipótese". 

Até o jornalista Pedro Bial se envolveu numa controvérsia por causa do filme. Em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, ele afirmou que o filme era "uma ficção alucinante" que tinha provocado muitas risadas nele, e que a narração em primeira pessoa da documentarista era miada e insuportável.

Ele não pediu desculpas, mas disse que muitos de suas declarações foram tiradas de contexto num artigo publicado no jornal O Globo neste domingo (9).

Com informações da Folhapress