De influencers a craques da Copa, a dança é a porta para a periferia sem estigmas

Raphael Vicente e Aline Maia nas redes sociais. Foto: Reprodução/Youtube
Raphael Vicente e Aline Maia nas redes sociais. Foto: Reprodução/Youtube

Resumo da notícia:

  • Raphael Vicente e Aline Maia representam uma imensidão de moradores da periferia

  • Em entrevista ao Yahoo, influenciadores refletem sobre a importância da arte para as comunidades

  • Passinhos em campo representam a cultura da favela para o mundo

A dancinha dos craques brasileiros na Copa do Mundo pode ter incomodado o ex-jogador irlandês Roy Keane e o presidente da Croácia, Zoran Milanovic, mas representa muito mais do que o "inapropriado", definido pelo governante. Com a visibilidade do evento mundial, é de extrema relevância a forma como as coreografias de nomes como Neymar Jr., Vini Jr. e Paquetá levam a cultura da periferia a outro nível de reconhecimento. “Eu lastimo muito e não vou ficar fazendo comentários sobre quem não conhece a história brasileira, a cultura do Brasil, a forma, o jeito de ser”, afirmou o técnico Tite em coletiva de imprensa.

Isso porque o gênero que mais abrange os passinhos, que têm estourado no TikTok nos últimos tempos, é o funk. E como o ritmo se populariza até hoje? Pelas vozes de artistas das comunidades, que disseminam a arte da favela na intenção de quebrar estereótipos marcados por violência e crime. Mas qual a importância da dança para essa população?

Para Aline Maia, moradora do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, a dança é uma forma de expressão que representa seu lugar, sua história, sua cultura e seu grupo. "Dançar é uma via de socialização. Além de trazer sensação de bem-estar, prazer e mexer com autoestima de muitas pessoas que se exercitam e praticam a dança, traz a sensação de pertencimento", explica ao Yahoo.

Com 135 mil seguidores no Instagram, a carioca exerce a prática na sua vida desde criança e viu seu potencial alavancado como aluna de um projeto social na adolescência. Hoje, Aline é professora e oferece cursos de dança com seu alcance nas redes sociais. "Na internet, comecei quando entrei na faculdade e fazia rádio e televisão. Comecei a gravar conteúdo audiovisual de dança para postar no YouTube, aí veio o Orkut, Facebook, Instagram e não parei mais", relata.

Para a cultura das comunidades, é muito importante ser visto, ser lembrado pela sua própria expressão".Aline Maia

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Questionada sobre a representatividade das coreografias feitas pelos craques do futebol, Aline ressalta o fator de identificação com o público. "Quando a gente vê os jogadores que vieram da mesma história de luta pela voz, pela expressão, luta para ser visto dentro de uma sociedade, a representatividade é muito grande. É maravilhoso ver isso, ainda mais num país como o Catar, cheio de regras. O Brasil está representando muito bem a nossa cultura", reflete.

Raphael Vicente, morador do Complexo da Maré, viu sua comunidade ser reconhecida internacionalmente ao recriar o clipe do hit "Waka Waka" e ser notado por Shakira, a voz da canção. Com a versão carioca da música da Copa do Mundo de 2010, o influenciador com 817 mil seguidores no Instagram colocou trechos de funk na faixa e fez os conterrâneos dançarem com a favela como cenário.

"A arte na favela é muito invisibilizada. A gente é muito excluído aqui dentro. Para aparecer, a gente tem que fazer o dobro de esforço que as pessoas que não moram em uma favela fazem", diz ao Yahoo ao celebrar a visibilidade na mídia para além da violência estigmatizada.

A arte é muito importante porque muda a vida. Já mudou a minha vida e de outras pessoas aqui dentro"Raphael Vicente

O jovem define a favela como um berço de "gente que faz tudo" e reforça como a cultura pode mudar a vida de pessoas que não têm outras perspectivas. "É o lugar que eu mais conheço no mundo com pessoas que fazem arte e sobrevivem disso e são mais felizes", declara. "A arte abre visibilidade para mudar realidades. Fiz o vídeo com o intuito de mostrar a favela em clima de Copa do Mundo e quebrar o estereótipo de que favela é violenta", conclui.

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