Daniela Mercury compara bolsonarismo a 'coisa ruim' que 'tira o ar' em nova canção

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.07.2015, 17H03: DANIELA MERCURY - Retrato da cantora baiana Daniela Mercury, em São Paulo. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 16.07.2015, 17H03: DANIELA MERCURY - Retrato da cantora baiana Daniela Mercury, em São Paulo. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A cantora Daniela Mercury lançará nas plataformas digitais, na madrugada desta sexta (26), o single "O Samba Não Pode Esperar", música escrita por ela em protesto contra o autoritarismo, o negacionismo e discursos de ódio.

O nome do atual presidente Jair Bolsonaro (PL) não é citado, mas a cantora afirma que a letra da canção faz referência também ao bolsonarismo. "Você é como erva daninha/ Mata aos poucos, tira o ar/ Ameaça a democracia/ Sua tirania quer nos calar", diz trecho da composição.

À coluna, Daniela diz que o Brasil vive um momento crucial e que a música é a sua forma de alertar a população sobre o que está em jogo no pleito de outubro. "Nunca vi o país em uma situação tão delicada. O Brasil não suporta mais quatro anos de um governo que não tem apreço pela democracia, que ataca a cultura, que ataca os artistas, que ataca a natureza", afirma.

Por isso, diz ela, "O Samba Não Pode Esperar" é uma canção mais dura que outras músicas suas. "Dessa vez, eu achei que tinha que chamar a atenção para o perigo que estamos correndo", enfatiza.

Em outro trecho da canção, Daniela canta: "Coisa ruim, destruiu nossa casa, causou tanto estrago, tristeza e horror/ Sua maldade matou tanta gente que indignado o tempo parou."

As pessoas que defendem o atual governo também não são poupadas na letra. "Quem apoia seu mal é cruel/ Desumano, fascista e sem coração/ Quem não sente a dor do seu povo/ É uma gente egoísta/ Que não vale um tostão."

A cantora diz que tentou traduzir na composição o que seria "esse fascismo moderno" que, em sua opinião, está tentando se instalar no país. E que, prossegue ela, é formado por elementos como as fake news, a violência e a intolerância.

"É a mentira tentando se tornar verdade e que foi muito presente nesse período da pandemia, em que vimos muita gente morrer por causa desse negacionismo", diz.

"A democracia abarca o diferente, o contraditório, e lida com isso continuamente. O autoritarismo quer destruir tudo como uma grande erva daninha, tentando determinar que só existe uma única verdade", acrescenta.

Apesar de ser uma letra mais dura, Daniela afirma que é uma pacifista e que a proposta de "O Samba Não Pode Esperar" é trazer "amor, consciência, reflexão e discernimento". "Nós sofremos muito durante a pandemia. A tendência agora é que a gente relaxe um pouco, descanse um pouco o coração, mas ainda não dá, ainda temos 40 dias para o primeiro turno", diz ela.

No refrão da letra, ela canta: "O sonho não pode esperar / O samba não pode parar/ O amor não pode esperar".

Composta há sete meses, a música foi apresentada pela primeira vez no protesto realizado no dia 11 de agosto, na Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, quando foram lidas duas cartas em prol da democracia.

"O Samba Não Pode Esperar" fará parte do álbum que Daniela deverá lançar ainda neste ano. O novo trabalho revisitará a história da cantora e celebrará os 30 anos do álbum "O Canto da Cidade", o seu primeiro grande sucesso.

LEIA A LETRA DE "O SAMBA NÃO PODE ESPERAR"

O dia a dia do povo tem sido um calvário, um sufoco

Você é como erva daninha

mata aos poucos, tira o ar

Ameaça a democracia

Sua tirania quer nos calar

Mas as ruas são da liberdade

A expressão da vontade

que não pode esperar

Você animal traiçoeiro que anda em matilha e ataca por trás

Faz piada e gargalha da morte

Como um bando de hienas sobre restos mortais

Quem apoia seu mal é cruel

desumano, fascista e sem coração

Quem não sente a dor do seu povo

É uma gente egoísta

Que não vale um tostão

Coisa ruim destruiu nossa casa, causou tanto estrago, tristeza e horror

Sua maldade matou tanta gente que indignado o tempo parou

Mas o amor é a força da vida

Que explode no peito dessa multidão

É a insurreição colorida

brotando na avenida

Como flor do sertão

O sonho não pode esperar

O samba não pode parar

O amor não pode esperar

O verso e a rima

O futuro não pode esperar

O povo não pode calar

A liberdade não pode esperar

Dar a volta por cima.