Daniel Craig se despede de '007' depois de mudar James Bond pelo resto da história

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 15 anos, quando Daniel Craig entrou debaixo de um chuveiro, vestindo um smoking, e abraçou Eva Green, que se debulhava em lágrimas, ele deixou bem claro que aquela sua primeira aparição como James Bond, em “007 - Cassino Royale”, seria o início de uma mudança radical para a franquia hexagenária e também para seu personagem, um dos mais icônicos da história do cinema.

Seu Bond não seria insensível, infalível e indestrutível como a mitologia que se criou em torno do personagem sugeria. O agente secreto de Craig, mesmo ocupado salvando o mundo, encontraria espaço enorme para ser humanizado, transformado também num homem comum, que ama, deseja, sofre e erra.

Nesta quinta-feira (30), o James Bond concebido pelo ator toma seu último martini —batido, não mexido— e aposenta sua pistola com “007 - Sem Tempo para Morrer”, último capítulo da era Daniel Craig na franquia. Foram meses de espera para a despedida, já que o filme, que deveria ter estreado em abril de 2020, foi adiado inúmeras vezes por causa da pandemia.

Um dos maiores blockbusters programados para o ano passado, o longa se tornou uma das principais faces cinematográficas da era do coronavírus. Foram várias novas datas, diversas discussões sobre streaming, muito material publicitário refeito e até sugestões de que o longa estaria amaldiçoado antes que ele enfim chegasse às salas de cinema, um ano e meio atrasado —a pontualidade britânica claramente deixou a desejar.

Na nova trama, James Bond, já aposentado, é recrutado novamente pelo MI6 para ajudar a nova agente 007 a encontrar um vilão em posse de uma tecnologia criada pela própria agência britânica, capaz de matar milhares de pessoas. Bônus –ele também é uma ameaça pessoal ao protagonista, por causa de seus laços escusos com a organização criminosa Spectre.

É em meio a esse enredo que Daniel Craig se despede da franquia, e de forma tranquila, tendo a certeza de que deixa uma marca profunda nela, talvez a mais significativa entre os sete intérpretes do personagem —com a óbvia exceção de Sean Connery.

“É difícil falar sobre isso”, diz Craig ao ser questionado sobre seu legado. “O que eu sei é que vai demorar um bom tempo para eu entender tudo o que aconteceu nesses últimos 15 anos. Eu espero encerrar a minha participação de um jeito bom e que a pessoa que assumir o papel possa ir ainda mais além.”

Segundo o ator, quando estreou no personagem, era importante mostrar o que ele realmente era para além dos ternos refinados e dos apetrechos tecnológicos —um assassino. Na esteira, vieram também relacionamentos complexos que guiaram sua trajetória e nos ajudaram a entender o personagem, diz.

Em “Cassino Royale”, de 2006, Craig estabeleceu algo relativamente inédito para a franquia —continuidade. Até ali, os filmes funcionavam de forma mais ou menos independente. Alguém que não tivesse visto a primeira aparição de Roger Moore como Bond nos anos 1970, por exemplo, não encontrava muita dificuldade para entender os filmes seguintes.

Com Craig as coisas foram diferentes. Suas noitadas com belas mulheres não eram só casuais —ele se permitiu se envolver de verdade com as "Bond girls", ter sentimentos por elas, e não só tratar todas como belos acessórios. Tanto que a enigmática Vesper Lynd, papel de Eva Green, meio que ditou a jornada pessoal deste Bond.

“O papel das mulheres em ‘007’ evoluiu muito. Antes tínhamos uma perspectiva masculina, mas agora temos papéis femininos interessantes, fortes, independentes, e elas também se tornaram mais confiáveis”, afirma a francesa Léa Seydoux, "Bond girl" introduzida em “007 Contra Spectre”, que diz que Craig é um James Bond feminista.

Ela retorna agora em “Sem Tempo para Morrer” e ganha a companhia da cubana Ana de Armas e de Lashana Lynch, que estreia como uma outra agente 00, também do serviço de inteligência britânico, no novo filme.

O James Bond de Craig se envolveu de forma intensa, veja só, até mesmo com seus vilões. Eles compartilharam memórias, traumas e conversas profundas —e, sempre que um era vencido, seu espírito continuava atormentando nosso truculento e musculoso mocinho.

Com o Blofeld de Christoph Waltz, descobrimos em “007 Contra Spectre”, Bond tinha uma relação fraternal. Já em “Operação Skyfall”, com o Silva de Javier Bardem, ele protagoniza uma cena quase homoerótica, que sugere mais versatilidade em seu passado mulherengo.

Segundo Cary Joji Fukunaga, que dirige “007 - Sem Tempo para Morrer”, no entanto, o Bond de Daniel Craig não foi exatamente uma novidade —mas uma volta ao passado. “Eu não acho que ele mudou a franquia, eu acho que ele voltou às origens literárias dela. Se você ler os livros de Ian Fleming, você percebe que há uma história por trás do personagem, ele não simplesmente saiu de uma academia de espiões”, diz.

Todas essas mudanças que Craig trouxe para o personagem, e, claro, também os cineastas que o dirigiram ao longo desses anos —Martin Campbell, Marc Forster, Sam Mendes e agora Fukunaga— deixam a escolha de quem será a próxima identidade do agente secreto ainda mais complicada.

Barbara Broccoli, produtora da franquia, já anunciou que as buscas pela nova identidade de 007 começam no ano que vem. Entre os nomes ventilados, há tanto escolhas mais tradicionais, como Richard Madden, Tom Hardy e Tom Hiddleston, quanto opções mais disruptivas para uma franquia que há seis décadas tem um rosto mais ou menos parecido —Dev Patel, Regé-Jean Page, Henry Golding e Idris Elba.

Craig comemora o fato de não ter qualquer envolvimento na decisão, que ele considera dificílima. “Por sorte não é um problema meu”, diz o ator. “O Daniel conseguiu criar um novo personagem com seu James Bond”, diz Léa Seydoux, ao seu lado. “Então eu torço apenas para que seja um Bond diferente, que seja inesperado”, ela acrescenta.

Mas nem tanto. “Qualquer pessoa pode assumir o papel, mas o que eu acho é que deveria haver papéis melhores para mulheres, para pessoas não brancas. Precisamos de roteiristas escrevendo para essas pessoas, criando personagens tão bons quanto James Bond. Nós precisamos de mais diversidade nessa indústria”, diz Craig, sobre os rumores de que um ator negro ou uma atriz assumiriam o outrora pálido machão.

A verdade, no entanto, é que, não fosse pelo ator e as mudanças —inicialmente vistas com resistência por alguns— que promoveu na franquia, a discussão sobre diversidade talvez nem existisse. James Bond talvez estivesse fadado a um público não tão jovem, masculino e saudosista das extravagâncias e bufonarias de Bonds do passado.

Seu 007 foi mais sério, mais calcado na realidade. De garotas mortas cobertas de ouro, passamos a lidar com vilões que coletam dados da população em nome da segurança, mas à custa da liberdade. Acenos aos delírios de antes, é claro, ainda existem —como bases vilanescas instaladas em ilhas despovoadas ou aviões que mergulham no mar em busca de passagens secretas—, mas de forma mais contida.

Fato é que a escolha do próximo protagonista, e a expectativa para saber qual será sua abordagem para Bond, prometem gerar burburinho em Hollywood nos próximos meses. Até que a identidade do novo 007 seja revelada, resta aos fãs imaginarem que sua ausência das telas se deve a uma merecida aposentadoria, com direito a paisagens exuberantes, drinques e passeios de Aston Martin.

007 - SEM TEMPO PARA MORRER

Quando Estreia nesta quinta (30), nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Daniel Craig, Léa Seydoux, Lashana Lynch e Rami Malek

Produção Reino Unido/EUA, 2021

Direção Cary Joji Fukunaga

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