Dalton Paula e Joseca Yanomami flutuam entre o místico e o concreto no Masp

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - De acordo com a cosmogonia yanomami, a floresta pertence aos "xapiri", ancestrais que se manifestam para os xamãs na forma de espíritos. As árvores seriam, então, espelhos de cristais, com luzes que brilham, mas não cegam. Para entrar em contato com os espíritos, o sacerdote deve inalar a "yãkoana", um pó alucinógeno extraído da árvore de mesmo nome.

Em seguida, o xamã, ele próprio com a alma enlevada, entoa cânticos floresta adentro, transmitindo à aldeia os dizeres dos espíritos. Foi assim que o artista Joseca Yanomami, de 51 anos, encontrou a fonte primária de seus desenhos, agora expostos no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, em sua primeira mostra individual.

Nascido no rio Uxi, Yanomami vive na comunidade Watoriki, na região do Demini, no Amazonas. Na década de 1990, ele fundou a primeira escola yanomami e, nos anos 2000, passou a trabalhar na área de saúde. Entre 2019 e 2021, participou da mostra "Árvores", realizada pela Fundação Cartier, em Paris, Lille, também na França, e Xangai. No Reino Unido, expôs na Wellcome Foundation, em Londres, e, no Brasil, já passou pelo Instituto Tomie Ohtake e pelo Museu de Arte Moderna, o MAM.

Ele não se lembra quando começou a desenhar, mas, antes de chegar ao papel, suas criações eram feitas com carvão nas árvores em que descascava. Representava, portanto, a natureza nela mesma e, até hoje, articula um pêndulo entre realismo e cosmogonia. Ora Yanomami desenha os elementos da natureza tal como se apresentam, ora os concebe da forma como os "xapiri" enxergam.

Na mostra do Masp, estão 93 desenhos, criados entre 2011 e 2013, com lápis de cor e caneta hidrográfica. Numa das obras, vemos uma espécie de planisfério, com pequenos círculos que lembram a pintura corporal dos indígenas. Ali, a floresta está representada sob a perspectiva de três espíritos, empertigados em meias-luas, delimitadas por cores específicas -laranja, amarelo e azul. O desenho funciona como um espelho da floresta, indicando a dimensão em que os espíritos habitam antes de estabelecer contato com os xamãs.

Ao mesmo tempo, Yanomami reproduz cenas de seu cotidiano, como as assembleias organizadas na aldeia ou o voo de seis araras vermelhas. Não há meios de se afirmar, porém, que a paisagem retratada corresponda a um evento real. "Para os nossos olhos, podem ser só animais dentro da floresta, mas, dentro da cosmogonia yanomami, isso remete aos espíritos dessas araras", afirma David Ribeiro, que organiza a mostra. "O próprio movimento de descida das araras pode ser o voo dos espíritos até os xamãs."

Dessa forma, "Nossa Terra-Floresta" é também um convite para que o visitante conheça a cultura yanomami, ainda pouco difundida entre a população não indígena. Nesse sistema, os espíritos ocupam um lugar central, porque são a síntese entre o humano e o não humano.

São eles que garantem o nascimento do sol no amanhã, sendo responsáveis por sustentar o céu acima de nossas cabeças. Os "xapiri" têm o poder de manter a natureza viva, mesmo que os não indígenas destruam a floresta. Ao que parece, os espíritos têm trabalhado bastante nos últimos quatro anos.

"O que está acontecendo é um crime", define Yanomami. "É uma maldade, fico muito preocupado com o crescimento dos invasores da minha aldeia, porque o agravamento dos impactos ambientais é muito ruim para a gente."

No ano em que se completam 30 anos da demarcação e homologação da terra indígena yanomami, um relatório da associação Hutukara apontou que, no ano passado, a devastação gerada pelo garimpo ilegal chegou a 3.272 hectares. Desde outubro de 2018, a área destruída quase dobrou de tamanho. Sem contar o aumento da poluição, violência e exploração sexual de menores, temas que Yanomami acompanha pelo noticiário.

Ele conta não sentir medo dos invasores, mas admite que seus parentes estão ameaçados e se diz revoltado. Seus desenhos, no entanto, parecem deixar entrever uma esperança, como na obra em que um menino se pinta todo, esperando que as árvores gerem frutos. "Se ele não demonstrasse alegria se pintando, como os espíritos iriam prover o alimento?", questiona o artista.

Para compor a programação dedicada às histórias brasileiras, o museu convidou Dalton Paula, artista que vem se tornando um dos mais respeitados de sua geração , a exibir 45 retratos, sendo 15 inéditos, de lideranças negras, que sofreram um apagamento histórico.

Paula, de 40 anos, nasceu em Brasília e vive em Goiânia. Suas obras usam diferentes suportes, como instalação, vídeo e performance. Em 2020, fez sua primeira exposição individual, "Dalton Paula: Um Sequestrador de Almas", na galeria Alexander Bonin, em Nova York. Três anos antes, foi convidado para integrar a mostra "The Atlantic Triangle", no Instituto Goethe, de Lagos, na Nigéria, e, em 2016, participou da 32ª Bienal de São Paulo.

A exposição atual, "Dalton Paula: Retratos Brasileiros", se inicia a partir da pesquisa do livro "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras", lançado no ano passado por Lilia Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano.

Na ocasião, Paula foi convidado a elaborar alguns retratos para as 416 personalidades documentadas nos verbetes da enciclopédia, que compreende o período colonial até os dias atuais. A maioria das pessoas ali não tinha nem sequer um registro pictórico, que pudesse servir de inspiração para o artista. Não por acaso, seu trabalho flutua entre ficção e realidade.

Paula prefere usar a palavra "fabulação" para definir o processo criativo de suas fotopinturas. A elaboração de um retrato, ele conta, começa com a pesquisa de documentos históricos sobre o personagem, reunidos ou não na enciclopédia. Depois, ele percorre quilombos do interior de Goiás, fotografando os líderes das comunidades. A fim de alcançar o personagem escolhido, ele edita os retratos com a pintura, entrelaçando figuras ancestrais e contemporâneas.

"É uma ficção, mas o retrato de Tiradentes também é, assim como boa parte da nossa historiografia", diz o artista. Em paralelo, ele acaba por dar rosto a figuras históricas antes desconhecidas, reconstituindo a trajetória de lideranças negras para as futuras gerações.

"Por que no futuro não podemos encontrar nos livros de história esses retratos?", pergunta Glaucea Britto, também organizadora da mostra. "Até hoje, os negros aparecem nos materiais didáticos sempre sob uma perspectiva negativa, dentro do estereótipo do negro escravizado."

No Masp, conhecemos a figura de Manuel Congo, que veste um terno branco e um chapéu preto. Em 1838, Congo liderou uma insurreição de escravizados no Rio de Janeiro. Centenas de cativos do capitão-mor Manuel Francisco Xavier fugiram das senzalas, invadindo algumas fazendas entre Paty de Alferes e Vassouras. Congo foi acusado de ser o líder da revolta e acabou sendo condenado à morte um ano depois.

Também somos apresentados à história de Assumano Mina do Brasil. Suas informações biográficas são esparsas. Algumas fontes o descrevem como um pai de santo, outras afirmam que ele era um líder islâmico, capaz de "trabalhar com os astros". Assim como nas demais fotopinturas, Paula enobrece seu personagem, conferindo prestígio social ao retratado.

Não por acaso, ele usa folhas de ouro de 22 quilates para adornar, fio a fio, os cabelos dos líderes presentes em suas obras. Os olhos, revela Paula, são o último passo de seu trabalho, porque neles reside toda a subjetividade da pessoa. Em comum, as obras também trazem ao fundo o azul-esverdeado, típico da fotopintura, e uma espécie de rachadura, que divide o retrato ao meio, provocada pelo uso de duas telas para compor cada obra.

A fissura nos revela alguns significados. Talvez um país dividido, ou mesmo espaços por onde a luz pode surgir. Afinal, o artista parece mesmo estar iluminado. Em 2020, seis retratos de Paula chegaram ao Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. Desde então, tudo mudou em sua carreira. "Essa sigla MoMa é poderosa", diz ele, rindo.

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