Dá para voltar a ser criativo e ter a mente clara em tempos de pandemia?

Marcela De Mingo
·7 minuto de leitura
Como anda a sua criatividade depois de um ano de pandemia - o tema do
Como anda a sua criatividade depois de um ano de pandemia - o tema do "Segurando a Onda" desta semana (Arte: Ferilustra/Yahoo )

Em um dia típico de pandemia no Brasil (se é que se pode dizer assim), Priscila Jolie passa, pelo menos, 10 horas na frente de uma tela. Jornalista por formação, ela trabalha com foco na área de redes sociais - ou seja, estar numa tela é pré-requisito -, mas também faz aulas de um curso pelo menos três vezes por semana, exercícios físicos e até conversas com amigos pela internet.

Nada de novo por aí, afinal, estudos já confirmam que o tempo de tela do brasileiro durante o período de isolamento social e pandemia aumentou muito desde o ano passado, quando a quarentena foi decreta pela primeira vez em cidades como São Paulo - os números, principalmente em relação às crianças, chegam a até 50% do tempo gasto em devices. No entanto, assim como outras pessoas, Priscila começou a perceber um cansaço além do comum, muito ligado ao fato de ficar em estado de alerta e foco o tempo inteiro, uma exigência ao passar até 14 horas no computador, entre trabalho, reuniões e atividades consideradas de lazer ou educacionais.

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"Eu não tinha tempo de absorver tudo o que eu tinha passado no meu dia", diz ela. "Então, eu comecei a perceber, depois de mais de um ano de pandemia nesse ritmo, em que o meu trabalho aumentou demais, que eu fui ficando sem tempo de absorver as coisas e de descansar, pensar em outra coisa que não fosse relacionada a trabalho ou estudo."

Segurando a Onda, vamos juntos (Arte: Ferilustra/Yahoo)
Segurando a Onda, vamos juntos (Arte: Ferilustra/Yahoo)

Priscila percebeu que precisava mesmo de descanso. No dia a dia, as coisas aconteciam como normalmente, uma rotina já estabelecida após tanto tempo em casa, mas pequenos detalhes começaram a se tornar mais aparentes e se transformaram em um sinal de alerta de que algo não ia bem. "Eu comecei a comer mais do que eu estava comendo, a comer com uma sensação ruim e não necessariamente para me alimentar… a minha expressão estava sempre tensa, e a gota de água foi um dia em que eu acordei de madrugada e perdi o sono. Até então, eu não tinha tido problemas para dormir. Nesse dia, eu falei 'tem alguma coisa muito errada'. Eu percebi que tudo isso estava me fazendo muito mal, fisicamente", continua ela.

A carga de trabalho alta sobre um tema complexo do ponto de vista do governo atual (meio-ambiente), fora o estado de atenção constante para se manter saudável e bem, fez com que Priscila desenvolvesse, no final do ano passado, uma alergia na pele. Com o Ano Novo, ela se comprometeu a fazer uma mudança de ritmo, mas a conta chegou, mais uma vez. Resultado: ela decidiu tirar férias de tudo, tanto do trabalho, quanto dos treinos físicos que tem feito online, e optou por diminuir o número de aulas assistidas semanalmente para reduzir a carga horária na frente de uma tela.

Asian woman student or businesswoman work late at night. Concentrated and feel sleepy at the desk in dark room with laptop or notebook.Concept of people workhard and burnout syndrome.
Dá para voltar a ser criativo e ter a mente clara em tempos de pandemia? (

Na semana em que a conversa com Priscila aconteceu, ela ainda estava nos preparativos para o detox - mas o alívio pela decisão já surtiu alguns efeitos. "Eu estou me permitindo sentir a cada dia o que vai acontecer. Eu vou pensar se cada coisa que eu quero, eu quero mesmo fazer, se tenho mesmo que fazer ou não, e tomar uma decisão com isso. O que eu estou procurando é fazer silêncio, momentos de contemplação. Eu estou sempre com uma mente muito ativa, ou para prestar atenção em alguma coisa, oferecer alguma coisa no trabalho… e eu sinto que quero só receber".

Confusão mental e criatividade em baixa

O cansaço de Priscila tem tido efeitos muito notáveis no bem-estar e no dia a de muita gente, porque, como ela mesmo coloca, por mais que ferramentas como o Zoom e o Google Meets surgiram com um viés de solucionar uma necessidade do mundo moderno, elas têm sido utilizadas exageradamente. "O home office virou um esquema de plantão e não um horário de trabalho. Ainda mais porque as pessoas sabem que, a princípio, você está em casa e elas acham que têm que ser atendidas a todo momento. O que eu pretendo rever é a minha relação com isso e como me posicionar para que isso mude."

Segundo a psicóloga especialista em terapia cognitivo comportamental Fabiane Curvo de Faria, as sensações da jornalista são muito compreensíveis, principalmente porque o isolamento impede o contato com outras perspectivas, o que afeta o nosso estado de clareza mental: "A empatia, entender o outro, entender a história do outro, conviver com pessoas diferentes, tudo isso acaba sendo prejudicado. Essas vivências são canceladas da sua vida. Então, você passa a ver a vida só sobre o seu viés e sem essa integração social", explica.

Esse estado de visão fechada pode chegar a inverter completamente a ideia que tínhamos de atividades rotineiras e que, inclusive, pediam por interação social e contato com outras realidades. É o caso, por exemplo, de quem protela, posterga ou até evita afazeres que antes eram muito comuns, como ir ao banco ou aos correios. Se, no começo da pandemia, essas saídas eram vistas como "perigosas" por conta da exposição, agora, mais de um ano depois, esse medo é somado também a uma espécie de preguiça, uma falta de vontade de passar pelo esforço que ir até os correios gera.

O resultado disso, segundo Fabiana, é o boom nos casos de depressão, uma bola que foi levantada ainda no ano passado pela própria Organização Mundial de Saúde, já prevendo os efeitos de tanto tempo de isolamento social no mundo todo. O Brasil, claro, ainda passa por uma situação extremamente delicada em termos de pandemia e, considerando que é também o país mais ansioso do mundo, vamos precisar esperar para ver o que todo esse contexto vai gerar a longo prazo.

Momentos de confinamentos pode trazer confusão mental e criatividade baixa
Momentos de confinamentos pode trazer confusão mental e criatividade baixa

Como desanuviar a mente?

A mente confusa, cansada, quase burra, que esquece informações básicas, perde noção do tempo, que não consegue mais se concentrar para ler um texto pequeno na tela do celular parece permanente, mas não é. É importante considerar que esse é um estado reversível, mas que exige um pouco de dedicação.

"A melhor coisa a fazer é tentar, cada vez mais, interagir socialmente, mesmo que à distância. Interagir dentro de casa com as pessoas que estão na nossa família, marcar um Zoom com amigos, tentar escutar o outro, falar com ele e tentar, minimamente, manter as atividades que são permitidas. Fazer uma caminhada com máscara, manter atividades físicas e sociais dentro do permitido e do que é considerado seguro para a gente", diz a psicóloga.

A rotina mudou desde que a pandemia começou, isso é inegável. No entanto, é importante lembrar que porque ela mudou não significa que estamos condenados a essas sensações estranhas e incômodas, esse cansaço, para sempre. A psicóloga lembra que se estamos em um estado de estafa mental, com falta de clareza de ideias, o primeiro passo é buscar hábitos que ajudem a mudar isso - e não a mantê-los. Por exemplo, se você deixou de fazer exercícios físicos por causa da pandemia, pode retomá-los não só porque é importante para a saúde física, mas também mental. Se você não quer sair de casa, existem opções válidas e acessíveis, que vão de acompanhar profissionais no YouTube (os vídeos de ioga, por exemplo, estão em alta) até contratar um personal trainer para fazer treinos via videoconferência - sim, é usando uma tela, mas a descarga de endorfina pode ser essencial para tirar você desse estado (que já até ganhou um nome, nos Estados Unidos: languishing, ou "definhamento", em português).

Buscar momentos de desconexão, por mais clichê que isso soe, também é essencial para garantir um mínimo de separação entre o que é a vida online e a vida offline - você pode desenvolver um hobby, como um trabalho manual, ou só aproveitar pausas para ficar longe das telas, conversar com quem você mora e recarregar as energias entre uma reunião e outra. Vale até parar 15 minutos para brincar com o seu cachorro sem interrupções.

No mais, o ponto principal é buscar uma reabertura de perspectiva. Ou seja, tentar ao máximo se reconectar com visões de mundo que são diferentes da sua - o que ajuda, muito, com a sensação de mente confusa e até a falta de criatividade. Ninguém nunca imaginou que viveria uma pandemia, e os efeitos que isso teria (e tem) na vida cotidiana. O nosso papel é, então, buscar perceber as próprias sensações e movimentos mentais e procurar alternativas seguras para trabalhá-las. E, nisso, é importante lembrar que a terapia é sempre uma opção.