Dá mesmo para comparar os incêndios da Austrália com os da Amazônia?

Queimadas provocam maior tragédia ambiental na Austrália. Foto: Tracey Nearmy / Reuters

Com o respeito aos fatos e a seriedade que (não) têm marcado sua gestão no Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles foi ao Twitter, no último dia 3, dizer que os incêndios na Austrália produziram seis vezes mais estragos que os da Amazônia no passado e, ainda assim, “certas ONG’s e alguns jornalistas só se importam em falar mal de seu próprio país e, claro, sempre contra o Governo. Seletividade absoluta....”

Seu colega de Esplanada, o ministro Onyz Lorenzoni, foi além. Em suas redes, o ministro da Casa Civil afirmou que no episódio da Amazônia o presidente francês “e os verdes atacaram o Brasil com fakenews apenas porque o Presidente é Jair Bolsonaro, o líder que não se dobra à agenda esquerdista”.

Pela lógica, se fosse esquerdista, as queimadas na maior floresta tropical do país renderiam a Bolsonaro o título de guerreiro do povo brasileiro.

De duas uma.

Ou os ministros de Bolsonaro obedecem à risca a ordem do chefe de evitar jornais e revistas ou estão enrolando seus seguidores de maneira consciente. A ferramenta são as meias verdades.

O incêndio na Austrália colocou o Planeta inteiro em alerta, inclusive dois alvos preferenciais de bolsonaristas e terraplanistas do clima em geral: Greta Thunberg e o próprio Emmanuel Macron.

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A primeira, acusada de omissão, tem uma série de postagens batendo boca e criticando a inação das autoridades australianas. A ativista atacou quem se nega a ver conexão entre a crise climática e o aumento de eventos extremos e desastres da natureza como os incêndios na Austrália, ocorridos após recordes de calor.

O presidente da França, por sua vez, ofereceu ajuda operacional imediata ao primeiro-ministro australiano Scott Morrison, um político conservador que tem sido alvejado por todos os lados após passar a campanha minimizando os efeitos do aquecimento global em um país cuja agenda ecológica tem sido sequestrada pelo lobby do carvão e da mineração.

(Por aqui, mesmo a ajuda de países estrangeiros nos fundos para a preservação da floresta foi rechaçada pela arrogância de quem deveria zelar pelo meio ambiente e confunde parceria com ofensa à soberania).

Como no auge da crise dos incêndios na Amazônia, os líderes brasileiros agora usam a tragédia australiana para minimizar a responsabilidade de um governo que plantou a tragédia enquanto atacava índios, ONGs, órgãos ambientais e estimulava garimpo em áreas de preservação.

Uma crise que o governo tentou fingir que não existia até ser desmentido pelos céus das cidades do Sul onde os efeitos da queimada se manifestaram.

A tentativa de falsear a realidade, por aqui, tem sido a norma desde quando eram evidentes as ações de grupos criminosos que literalmente jogaram fogo na floresta para chamar a atenção do governo que diziam tê-los abandonado.

Como o governo respondeu? Aplaudindo a prisão de brigadistas que nada tinham com a história e trazendo até o Leonardo DiCaprio para o baile.

Vale lembrar que a tragédia australiana é resultado de um período de longa estiagem e altas temperaturas (algumas localidades registraram 48ºC), que o fogo naquele país pode acontecer naturalmente e faz parte do bioma local, mais parecido com o cerrado brasileiro do que com a floresta amazônica, onde os incêndios ocorrem por ação humana associada ao desmatamento.

Ainda assim, há quem se aproveite da situação usando o fogo alheio como cortina de fumaça para escamotear a própria incompetência.