Dívida pública sobe e presidente do Banco Central cobra plano para 'conquistar' credibilidade

Gabriel Shinohara
·3 minuto de leitura
Pablo Jacob / Agência O Globo

BRASÍLIA — Diante do rápido aumento na dívida pública neste ano, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse nesta quarta-feira que os investidores internacionais aguardam por uma sinalização de responsabilidade fiscal do governo. De acordo com Campos Neto, há preocupações quanto à credibilidade do país.

Nesta quarta-feira, o Tesouro Nacional mostrou que a dívida pública federal do país subiu 9,2% entre janeiro e outubro, somando R$ 4,64 trilhões. Somente em outubro, o crescimento foi de R$ 112 bilhões, com o governo tendo de pegar mais recursos emprestados para fazer frente aos gastos com a pandemia.

O presidente do BC disse em um evento que o mercado começou a desconfiar da viabilidade do financiamento da dívida brasileira e que há uma percepção de que o governo não voltaria para a agenda de responsabilidade fiscal.

— Há uma percepção de que nós não retornaríamos para uma disciplina fiscal, uma percepção de que não estaríamos dentro do teto de gastos, uma percepção de que não cuidaríamos da trajetória da dívida. Esse é o ponto que fica. Talvez o ponto chave da parte macroeconômica do Brasil, hoje, é ganhar credibilidade, conquistar credibilidade com a continuação das reformas e com um plano que indique e dê clara percepção para os investidores de que o país está preocupado com a trajetória da dívida.

Parte dessa preocupação vem pela pressão de diferentes frentes para a continuidade do auxílio emergencial em 2021, o que vem obrigando o ministro da Economia, Paulo Guedes, a falar sobre o assunto quase diariamente. O ministro já disse que uma segunda onda de contaminações pelo coronavírus poderia causar uma prorrogação do auxílio, mas, 10 dias depois, disse que “'Do ponto de vista do governo, não existe prorrogação'.

O nível da dívida pública renova sucessivos recordes nos últimos meses e chegou a superar o patamar de 90% em setembro. Campos Neto costuma dizer que o Brasil tem uma das dívidas mais altas entre os países emergentes, perdendo apenas da Líbia e de Angola.

No entanto, o presidente do BC disse que está otimista com o retorno da agenda de equilíbrio fiscal e que o governo se empenha em fazer o ajuste. De acordo com Campos Neto, com o pouco espaço fiscal disponível, o crescimento do país terá que ser via iniciativa privada, que precisa de credibilidade para fazer os investimentos. Credibilidade que será conquistada com reformas e o ajuste fiscal.

— Hoje a credibilidade está ligada a dois fatores: convergência fiscal e uma continuação das reformas. Entendo que se isso for feito tem muito dinheiro barato no mundo, o Brasil tem muito projetos para serem feitos, agenda ampla de infraestrutura. O único caminho que vai gerar o desenvolvimento sustentável é esse. Entendemos que o governo está empenhado e está negociando com o Legislativo o que é possível passar no curto prazo, mas nós estamos otimistas com que vai sair dessa negociação.

Questionado sobre um programa para substituir o auxílio emergencial no próximo ano, Campos Neto disse que o governo precisa escolher suas prioridades. No caso de aumentar um programa de transferência de renda, teria de fazer um “ajuste” em outro tipo de gasto.

O presidente do BC alerta que somente um aumento nas despesas pode trazer um efeito indesejado, de contração econômica, porque afeta a credibilidade do país.

— Se o governo faz um gasto fiscal, coloca dinheiro na economia, você tem de um lado o benefício do dinheiro circulando na economia e de outro um fator negativo que se você tem uma fragilidade fiscal e aquilo vai exacerbar sua fragilidade, você gera um movimento de falta de credibilidade que vai inibir o crescimento futuro. Credibilidade é mais importante que gasto fiscal de curto prazo.