'Cursed' muda perspectiva sobre o que é normal em tramas de fantasia, diz intérprete de Arthur

BEATRIZ VILANOVA
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Diz a lenda que Nimue, filha de Lancelot, cresceu com a missão de seduzir Merlin e enfeitiça-lo, para vingar sua antiga religião. A jovem, porém, se apaixona por ele e, após completar sua missão, se joga nas águas de um lago e morre, tornando-se a Dama do Lago. Do mesmo ciclo literário do rei Arthur, a história foi repaginada na adaptação da Netflix, "Cursed - A Lenda do Lago", que estreia nesta sexta-feira (17), com dez episódios. Baseada no best-seller homônimo de Tom Wheeler e Frank Miller -também criadores da série-, a adolescente Nimue (interpretada por Katherine Langford, de "13 Reasons Why") se une a Arthur (Devon Terrell) para encontrar o mago Merlin (Gustaf Skarsgård) e entregar uma espada ancestral. A história é contada pelo olhar da jovem corajosa e de dom misterioso, o que acaba por introduzir novos conceitos e visões sobre tramas medievais. É o que acredita Devon Terrell, que não conhecia a lenda de Nimue até o momento das audições, mas acabou se interessando mais pela história da jovem do que pela do próprio Arthur, seu personagem. "Muitas vezes, nas histórias de fantasia, nós percebemos esse olhar masculino. Isso é notado em coisas que são hiper-sexualizadas, ou hiper-violentas por causa da masculinidade, o que é bastante tóxico. [Essas histórias] Não fazem declarações de verdade. Muitas vezes é só violência e sexo", afirma o ator, em entrevista via videoconferência com a reportagem. Terrell diz ainda que "Cursed" não é "uma simples história fantasiosa de uma líder mulher", ou uma série apenas para falar sobre diversidade. E, sim, uma tentativa de mostrar uma história interessante, que muita gente ainda não conhece. "Você pode conhecer os personagens, mas essa história não tem sido o centro [entre as demais]. E deveria ser, porque é uma história fascinante. A conexão dela com a espada... Eu não percebia o quão integrada ela estava [à história], porque cresci escutando somente sobre como a espada saiu da pedra. E foi assim que sempre pensei nos contos do rei Arthur", diz ele, acrescentando que achou curiosa a semelhança de Nimue com a personagem Ofélia, da peça "Hamlet", de William Shakespeare. Para Terrell, a série se diferencia das demais por focar na trama, com personagens bem equilibrados rodeando-a. Enquanto Nimue tem momentos de "coração partido", seu espírito de guerreira se sobressai, de uma forma que a história se relaciona com as crianças, jovens e adultos de diferentes gêneros e raças. "É ótimo que os meninos vejam esses personagens retratados dessa forma. É sobre quebrar estereótipos; até o fato de interpretar Arthur como um jovem negro. É muito emocionante, porque as pessoas de cores sempre estiveram de fora da história principal", diz o ator. "Eu nunca me vi em 'Harry Potter', 'Senhor dos Anéis' ou 'Game of Thrones'. Ser do elenco principal, com a Katherine ao longo dessa jornada, muda a perspectiva das pessoas sobre muitas coisas, e cria reflexões sobre o que é considerado 'normal' na fantasia", acrescenta o ator, que diz que há muito tempo queria trabalhar em um projeto com a amiga Katherine Langford. Por acreditar que as séries, assim como a música e o cinema, são parte importante da cultura de formação, Terrell afirma que adoraria que produções como essa tivessem sido lançadas anos atrás, uma vez que elas promovem conversas importantes e fazem com que minorias se reconheçam em personagens. "Não compararia a série ao que tem acontecido nas ruas atualmente, porque o que acontece hoje é real e algo que todos estão comentando com seus amigos e familiares", diz o ator, em referência aos protestos anti-racismo ao redor do mundo. "Subconscientemente, [a série] nos faz questionar 'por que eu posso acreditar em uma espada mágica, mas não posso acreditar em um Arthur negro?'. Se você não pode responder a isso, é com você. Mas é uma coisa que fiquei pensando quando fiz o teste, e a verdade é que tenho orgulho de ser um homem negro." Além da representatividade, a série aborda temas atuais como a destruição da natureza, o terror religioso e as guerras políticas. Terrell diz que já era interessado em questões sociais, mas que a série o fez querer se engajar mais nesses assuntos, especialmente os políticos. "Às vezes, você tem que questionar a informação que é dada para você. Os paladinos vermelhos falam sobre uma história de fé, por exemplo, que é controversa", afirma ele, citando as cenas de rebelião contra os temidos paladinos e o rei Uther (Sebastian Armesto). "Há muitas decisões conscientes feitas na série, e muitas subconscientes, que a depender da sua vida ou de onde você vive, é possível ver a sua história retratada. Fala sobre supressão religiosa, sobre nossa ideia de sexualidade, e como vemos as coisas e tomamos decisões baseada em coisas que sentimos", continua. "Não quero dizer que a série está fazendo uma relação direta ao que acontece no mundo, porque há pessoas morrendo e sofrendo de verdade por causa da opressão religiosa, então não tem como compará-las a uma série de fantasia, mas acho que gera reflexões."