Cultura workaholic: como sair do ciclo de excesso de trabalho

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E a cultura do trabalhar demais? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)
E a cultura do trabalhar demais? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)

Neste texto, você encontra:

  • A cultura do trabalhar demais, potencializada pela pandemia;

  • O resultado da vida workaholic: síndrome de burnout;

  • Como buscar uma saída no dia a dia para o foco no trabalho.

O termo workaholic já foi muito utilizado por aí - e talvez você já o tenha escutado em uma conversa ou outra de trabalho. "Ah, eu sou workaholic", diriam alguns sobre si mesmos, numa tentativa de explicar que o trabalho é a sua prioridade. No entanto, o termo em inglês tem uma tradução precisa e não muito amigável: vício em trabalho. Ou seja, o workaholic é aquele que trabalha compulsivamente, quase que incapacitado de viver algo diferente das atividades profissionais.

Muitos insistem em falar que, durante a pandemia de coronavírus, parte dos trabalhadores vivem em esquema de home office - o que é uma falácia por si só. O trabalhar de casa é uma escolha que engloba uma vida ampla e um equilíbrio entre trabalho e lazer, como para alguém que trabalha em um escritório, por exemplo. O que muitos de nós vivemos agora é isolamento social, uma necessidade por conta de fatores muito maiores do que o nosso poder de escolha sobre trabalhar ou não fora de casa.

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Onde as duas coisas se encontram? A vida de workaholic e o "home office"? Na intersecção da produtividade, na esquina do medo do desemprego próximo à ansiedade e ao estresse por conta de fatores externos que, sim, poderiam ter sido evitados.

Segundo uma pesquisa desenvolvida pela Faculdade Getúlio Vargas de São Paulo com 464 trabalhadores em esquema de escritório em casa, 56% dos participantes disseram ter dificuldade ou dificuldade moderada para equilibrar o profissional e o pessoal dentro de casa. Para aqueles com 25 anos ou menos, o número assusta: ele salta para mais de 82%.

Não estamos falando aqui do excesso de trabalho por necessidade do contexto, como é o caso dos profissionais de saúde na linha de frente contra o COVID-19. De acordo com um estudo feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a pandemia mudou em 95% a vida de médicos e enfermeiros - foram mais de 25 mil pessoas entrevistadas, em mais de 2 mil municípios brasileiros. E, sim, quase metade alegou excesso de trabalho, com jornadas longuíssimas, acima das 40 horas estipuladas por lei.

O boom da Síndrome do Burnout

Estamos vivendo ou só sobrevivendo? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)
Estamos vivendo ou só sobrevivendo? (Arte: Fer Ilustra/Yahoo Brazil)

O que muitas empresas observaram, assim como os seus próprios funcionários, é que o excesso de trabalho ganhou corpo na pandemia muito motivado pelo medo do desemprego. É claro que esse gás para trabalhar o máximo possível tem data de expiração: a síndrome de burnout, que virou uma das grandes protagonistas do período de quarentena e isolamento social. O transtorno psíquico se caracteriza por um esgotamento físico e mental atribuídos ao excesso de horas trabalhadas. Foi incluída na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde em 2019, em uma lista que entrará em vigor só no ano que vem - o que não significa que não vemos o seu efeito por aí.

Outro estudo, desenvolvido pela International Stress Management Association (ISMA-BR), diz que o Brasil é o segundo país com o maior número de pessoas afetadas pela Síndrome de Burnout e, se a pandemia tem servido de amostra, é possível que os índices por aqui aumentem nas próximas pesquisas.

A ode à produtividade, a cultura do fazer mais em menos tempo, vamos combinar, também não ajuda. Os textos, posts e Stories no Instagram incentivando as pessoas a terem uma "quarentena produtiva" deixaram claro um problema estrutural da sociedade: o quanto o valor de alguém está associado ao trabalho e o quanto trabalhar demais é visto como algo positivo - por isso o "sou workaholic", muitas vezes, aparece com ares de auto-elogio. Mas trabalhar demais está deixando a população do mundo doente, e o estar em casa enquanto o mundo desaba do lado de fora, a insegurança econômica, o medo e a instabilidade política se tornaram amostras da necessidade latente do brasileiro de desacelerar.

Existe vida fora do trabalho?

Com mais de um milhão de inscritos no YouTube, Cátia Simonato explora a espiritualidade e o desenvolvimento pessoal em vídeos que buscam levar os seus expectadores de encontro a felicidade, que ela considera o estado natural de todos. Para ela, a mente possui um jeito de funcionar simples de explicar: ela cria pensamentos. Uma pessoa, por exemplo, se torna workaholic quando a sua consciência passa a ficar totalmente ocupada com o pensamento de trabalhar, pelo motivo que seja: financeiro, ideológico ou até mesmo de status.

"Eu compreendo o ser humano como um ser e um humano", explica ela. "O humano compreende um corpo físico, a vida que anima este corpo, as nossas emoções e os nossos pensamentos. E o ser, do 'ser' humano, é a consciência que habita isso. Se essa consciência está totalmente focada no mental e dedicando toda a energia vital que ela tem a preencher essa atividade mental, o que acontece com o corpo e com as emoções? Essas áreas da vida ficam desfalcadas."

É a partir desse movimento de foco total em uma atividade mental - trabalhar - que o corpo começa a dar sinais, por exemplo, de que está casado demais, o sono passa a ser inquieto, a fome aumenta (ou desaparece por completo), e a ansiedade corre solta. O resultado disso pode chegar a extremos, as chamadas crises: depressiva, de ansiedade, de pânico, até mesmo física, quando um órgão para de funcionar de maneira adequada como forma de resposta a esse foco mental.

No entanto, por mais que pareça impossível, dá para reverter os efeitos de uma vida concentrada em trabalho, que começa com a tomada da consciência do que está acontecendo no momento. A crise, aliás, pode ser vista como um alarme, um sinal de que algo não está indo bem e que mudanças são necessárias: "É como se você tivesse colocado o seu telefone para tocar e ele toca, é um alarme", continua a professora de meditação. "Quanto mais cedo a pessoa colocar a sua atenção na direção de onde o alarme está tocando, mais facilmente ela vai conseguir reestabelecer o equilíbrio."

Entender esses sinais como dignos de atenção não é simples para a pessoa preocupada com a situação financeira individual ou da família e sofrendo os efeitos de uma pandemia pelo viés das notícias e do caos político. Mas é necessário, principalmente para que a relação com o trabalho deixe de ser uma centrada no vício e passe a ser prazerosa. Sempre lembrando que é, infelizmente, ainda uma visão privilegiada dessa relação com a profissão.

Asian woman student or businesswoman work late at night. Concentrated and feel sleepy at the desk in dark room with laptop or notebook.Concept of people workhard and burnout syndrome.
O foco no mental gera efeitos físicos que podem ser revertidos a partir de uma busca por atender às necessidades básicas do corpo (Foto: Getty Creative)

"Quem faz o melhor trabalho? Uma pessoa que está com a atenção completamente no mental, gerando uma sobrecarga no organismo físico, um desequilíbrio emocional e estresse ou uma pessoa que tem todos esses itens equilibrados? Se a pessoa refletir sobre isso, ela vai saber que é melhor para ela, para sociedade, para o mundo, que ela busque esse equilíbrio, inclusive para vida profissional dela", continua Cátia.

Para isso, a professora aponta para um caminho que dá a largada nesse processo. Ao se ver em uma situação extrema ou de crise, com um foco totalmente no mental, o ideal é concentrar-se no ponto mais distante da mente, ou seja, o corpo. Como? Seguindo cinco pontos essenciais:

  1. Nutrição: você está bem alimentado, comendo direito, em quantidades adequadas para o seu tipo físico, peso e idade?

  2. Hidratação: é comprovado que uma série de doenças e questões físicas, incluindo dores de cabeça, acontecem por falta de hidratação adequada. Você tem tomado o bastante?

  3. Descanso: você tem dormido bem, tido momentos de pausa ao longo da semana e durante o final de semana?

  4. Movimento: exercícios físicos são importantíssimos para a saúde mental e do corpo. Que tal uma pequena caminhada na hora do almoço ou adotar um exercício que você curte?

  5. Higiene: como andam os seus hábitos básicos, como tomar banho, escovar os dentes e até lavar o cabelo?

Essa atenção ao físico não exclui, no entanto, a possibilidade de buscar ajuda profissional, com psicólogos e terapeutas, por exemplo, caso você encontre dificuldades de desfocar do trabalho e concentrar-se em outras atividades. Mas a mudança de rotina e, ainda mais, construir e manter uma rotina bem estruturada, com horários de pausa e descanso, até mesmo com rituais para indicar o fim do expediente (por exemplo, fechar o laptop ou arrumar a mesa de trabalho), ajudam, muito, a criar esses limites e barreiras.

Por fim, há a questão da identificação que também pode ser trabalhada na terapia. Mas é um fato que o ser humano trabalha com a identificação com papéis, principalmente os sociais. Quando se fala em carreiras, é fácil acreditar que você é o seu trabalho e que o seu trabalho define quem você é.

"A pergunta é: quem sou eu?", continua Cátia. "Você pode fazer um exercício muito bacana que é escrever uma página em que você se apresenta. 'Eu sou Cátia, sou mulher, tenho 50 anos, sou mãe de três filhas, sou casada, brasileira, sou professora de meditação'. Você escreve isso, e, depois, você, em cada item, se faz a pergunta: é isso que eu sou? Como se fosse uma meditação. Eu sou mulher? Eu sou esse corpo que é mulher? Eu sou mãe? Isso me define? E com o tempo, esse exercício, a gente se percebe que é muito mais que tudo isso, e tudo isso que a gente fala que é são funções que a gente tem na vida, enquanto a vida durar. Mas é isso o que você é, de verdade? Quem é esse ser que acredita que isso? Quem é esse eu que acredita que é esse profissional."

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