Cultura pop é política e Lovecraft Country é um dos melhores exemplos

Thiago Romariz
·3 minuto de leitura
Foto: HBO
Foto: HBO

Em 2019, a série Watchmen da HBO mudou a forma dos heróis lidarem com política em roteiros de entretenimento. Com base na HQ de Alan Moore e Dave Gibbons, Damon Lindelof expandiu o universo e falou sobre racismo com fatos históricos e fantasia heróica. A realidade se misturou com a ficção de uma forma inesperada por fãs e parece ter sido o primeiro passo na apresentação do conceito do que a emissora pensa para a cultura pop como um todo.

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Agora, com a chegada de Lovecraft Country, o caminho é pavimentado para além dos heróis, pois usa da literatura clássica, cinema contemporâneo e hip hop para, de uma vez por todas, comprovar quão ligados estão política, nerdice e entretenimento no geral.

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Essa mistura não vem por acaso, a começar pelo material de origem, escrito por Matt Ruff, que usa um dos mais proeminentes escritores do planeta para dar título à obra. Ao passo que usa criaturas do autor, Ruff explora o monstro do racismo que Lovecraft carregava consigo e faz do horror dos contos uma ponte para falar sobre a segregação racial que assola nossa sociedade há anos.

A premissa por si é interessante, mas não teria se materializado tão bem não fosse a mão de Misha Green, que expande os conceitos do livro e com a ajuda dos produtores JJ Abrams e Jordan Peele abraça o visual do cinema atual para fazer da série uma miscelânea audiovisual de referências contemporâneas.

O quarto episódio, intitulado "Uma História de Violência", coloca na trilha sonora "Bitch Better Have My Money", de Rihanna, ao mesmo tempo que evoca a Viagem ao Centro da Terra de Júlio Verne na biblioteca de Chicago, e ainda se monta em uma estrutura narrativa de uma aventura à lá Indiana Jones de Steven Spielberg. Tudo isso estruturado nos pilares políticos e raciais que o roteiro de Green não deixa desmoronar ou soar gratuito em nenhuma linha de fala.

E este é só um dos exemplos, já que desde o piloto (uma roadtrip de família) até os outros dois capítulos (uma fantasia com seita religiosa e uma história de casa mal assombrada), Lovecraft Country brinca de moldar sua proposta a gêneros clássicos sem medo algum de parecer uma cópia barata – pois, de fato, seu principal intuito é usar estas formas para divertir e abordar temas relevantes.

E mesmo que carregue tamanha força nas discussões de roteiro, nada teria valor se os personagens não levassem a série pra frente - e talvez aí esteja a grande força da história. Tic, Leti, George e todos os outros que ali aparecem tem, mesmo no meio dessas milhares de referências, espaço para se desenvolver e serem protagonistas da própria jornada.

O vilão do seriado é o nosso legado, a incapacidade dos seres humanos de se identificar como semelhantes, de evoluir perante as maldades instauradas por anos a pessoas devido a classe, gênero ou raça. Por isso, todo mundo é herói em Lovecraft Country, ainda que nenhum deles use máscaras.

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*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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