Cuba tem 'mais tambor do que mente', diz Zoe Valdés em novo livro

Em Cuba "há mais tambor do que mente" e uma transição política não parece possível a curto prazo, acredita a escritora Zoe Valdés, que deixou a ilha para viver no exílio há quase três décadas e aborda seu país natal como eterno objeto de dor e desejo em seu novo livro, "La intensa vida" (sem tradução para o português) .

Como um diário que conta suas memórias, sua nova obra começa com uma foto de Valdés jovem em um parque em Havana e uma declaração contundente: "eu venho daqui".

"Eu venho daqui, dali e do além, para que você saiba; e o resto é solidão e leitura", conta a romancista e poeta, que mora nos arredores de Paris.

- Memórias da infância -

Valdés relembra a infância com a avó e a mãe, mudando de casas devido ao mau estado de conservação das construções, e vários aspectos que marcaram sua vida como a superlotação, a fome, os cheiros (sobretudo os enjoativos) e os sabores.

E, posteriormente, o aroma da liberdade, o frio do desenraizamento e o doce abrigo da literatura.

"Cuba é um país de muita leveza. Muito tambor, mais tambor do que mente. Esse é o nosso grande problema. Cuba tinha grandes figuras. Mas foi metafórica e denotativamente as matando", diz a autora de "O Nada Cotidiano", grande sucesso de 1995 que lhe rendeu, diz ela, a eterna inimizade do governo.

Segundo Valdés, a publicação a "colocou no caminho da verdade. E nesse caminho você perde muito. Mas individualmente você ganha muito”, relembrou.

Seu novo livro, por sua vez, acerta contas com escritores de sucesso, como Leonardo Padura e até com figuras da oposição, como a blogueira Yoani Sánchez.

Aos 63 anos, a romancista olha para o passado com nostalgia, desde os que lutaram pela independência da ilha aos que tentaram derrubar o governo de Fidel Castro após 1959.

"A solução, lamento dizer, fica cada vez mais complicada e não vejo saída. Mas não devemos desistir”, acrescenta, dizendo que "nunca vi o meu país livre, porque pelo menos viviam um tempo livre, mas nasci em 1959”, ano “fatídico” da Revolução Cubana, diz a autora que vive na França há quase três décadas.

- A vida no exílio -

"La intensa vida" é também um exercício de reflexão literária, de agradecimento a uma longa lista de autores e artistas a quem Valdés atribui a decisão de ter se tornado escritora.

“Eu, como Guillermo (Cabrera Infante), também acredito que a melhor literatura cubana do Castrismo foi feita no exílio”, explica, citando o exemplo da grande figura nacional, o poeta José Martí.

“Da mesma forma que o povo cubano não é única e exclusivamente quem vive em Cuba. Quando eu morava em Cuba, já vivia no exílio”, relembra, dizendo que viver exilada também lhe proporcionou entendimentos.

"O pior de ser uma exilada é que nenhum lugar do mundo parece certo. O melhor é que o lugar certo é você mesmo", diz a introdução do livro.

A autora estudou Filosofia em Havana, mas não completou a graduação por decisão própria. Trabalhou na Unesco, em Paris, entre 1983 e 1989, e, por um breve período, na seção cultural da embaixada. Posteriormente voltou para Cuba, mas deixou o país de vez em 1995.

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