Critique "Versions of Me", mas não ignore o fato de que Anitta chegou lá

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Anitta em divulgação do Coachella. Foto: Reprodução/Instagram
Anitta em divulgação do Coachella. Foto: Reprodução/Instagram

Resumo da notícia:

  • Critique "Versions of Me", mas não ignore o fato de que Anitta chegou lá

  • Novo álbum chegou ao público na última terça-feira (12) em fase internacional da brasileira

  • Forma como a cantora tem trabalhado para alcançar o mundo não anula sua representatividade

Temos um novo álbum e uma nova onda de críticas! Anitta volta a ser assunto na mídia brasileira por não agradar parte do público de seu país com o lançamento de "Versions of Me". Isso porque a cantora passa por uma fase de entrega ao mercado internacional que requer renúncias de suas raízes e rende o sentimento saudosista de uma legião de admiradores nativos. Mas precisamos de um freio na ideia de insistir em tirar o mérito de brasileira que alcançou o topo do mundo e só mostra que pode cada vez mais.

Você pode não gostar da forma como o novo disco foi produzido, já que conta com 15 faixas marcadas por letras em inglês em espanhol, com apenas uma música em português. Mas não deveria tentar chutar a coroa de uma cabeça criada na favela carioca que tem levado o nome do Brasil aos quatro cantos. Inclusive, Anitta não é a precursora em investir num disco em outros idiomas, já que veteranos como Caetano e João Gilberto desbravaram esse espaço antes, mas parece ser a estreante como alvo de machismo por motivos óbvios. Isso porque as críticas jornalísticas que condenam sua falta de brasilidade partiram de homens em maioria.

Você pode não concordar com o comportamento dela nas entrevistas internacionais, como as falas polêmicas sobre sexo em conversa com Andy Cohen. Mas não deveria esquecer que, para ser criticada pela postura que assumiu na poltrona de um talk show norte-americano, ela precisou chegar até lá, onde muitos jamais pensaram em tentar. Coloque passagens pelo "The Late Late Show With James Corden" e "The Tonight Show Starring Jimmy Fallon" na conta.

"A estratégia por trás do álbum é eu ter o que falar nas entrevistas. É eu conseguir ter assunto sobre o álbum, que mantenha o lado engraçado, que tenha polêmica, que viralize, que renda e também que passe uma mensagem para as pessoas não se levarem tão a sério"Anitta

Você pode reprovar a forma como ela resolve fazer festas e colecionar relações. Mas já deveria saber que julgar seu caráter ou capacidade profissional a partir de sua vida badalada deixou de fazer sentido há muito tempo. Inclusive, suas companhias têm sido cada vez mais célebres e influentes. Já imaginou que um nome como Miley Cyrus exaltaria sua amizade no palco do Lollapalooza?

Você pode não aceitar vê-la virar matéria no gigante "The New York Times", que traçou um perfil completo da trajetória da artista desde os tempos de Larissa com entrevistas de Caetano Veloso e Ryan Tedder. Mas deveria reconhecer que ser assunto em um dos maiores jornais do mundo por conta de sua carreira é um feito extremamente respeitável independente de gosto.

"Tem gente que fala inglês desde que nasceu e só chega [ao sucesso] depois de 12 anos de tentativa e eu já estou conseguindo isso em só um ano"Anitta

Você pode não aprovar a sonoridade de "Envolver" e o fato da faixa ser em espanhol ao cogitar que não seria a faixa ideal para nos representar mundialmente. Mas não deveria tentar puxar o tapete de uma história que foi construída por mais de 10 anos e marca a estreia de uma brasileira no topo global das paradas.

Isso poderia ser uma crítica ao repertório escolhido para compor um disco que já não focou no público brasileiro desde a divulgação da capa, mas Anitta nunca cantou gospel, nunca se mostrou como "recatada e do lar", nunca foi de esconder opiniões e muito menos suas cirurgias. Não lembra da carioca no palco do Faustão com um curativo no nariz?

Com a ideia de mostrar as "versões" de uma artista repleta de personalidade, o álbum pode sugerir a busca por uma identidade perdida dentre várias feições. O que penso é que ela quer ser encontrada na interpretação que o gringo queira dar. Para isso, até o funk com Mr. Catra ganhou uma versão mais americanizada, com versos do rapper norte-americano YG. E está tudo bem!

Sou essa pessoa de várias personalidades, que gosta de cantar todos os ritmos. Essa sou eu e só quem sabe disso é o Brasil. Não faz sentido, em uma obra internacional, eu querer contar outra história se as pessoas nem ouviram a primeira históriaAnitta

Querer detonar a forma como a brasileira está tentando despontar no mundo é ignorar uma história de afirmação desde os tempos de Poderosa. Sua intenção nunca foi a unanimidade e agora é a vez do mundo ter acesso à explosão de acontecimentos que é a brasileira na mídia.

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