Sandman é a rara fantasia onde o herói é a própria história

Tom Sturridge na première de Sandman em Londres, em 03 de agosto de 2022 (Foto: Mike Marsland/WireImage )
Tom Sturridge na première de Sandman em Londres, em 03 de agosto de 2022 (Foto: Mike Marsland/WireImage )

Sandman não chega a ser antítese do gênero de super-herói, mas no contexto em que vivemos no entretenimento talvez ela seja o produto que chega mais perto disso. A série da Netflix, que adapta a obra de Neil Gaiman, não busca redenção ou pontualidade alguma na trajetória de seus personagens, e sim uma constante abordagem de temas mundanos com debates tão complexos quanto a existência humana - tudo isso na pele dos Perpétuos, seres que representam elementos como Desejo, Morte, Destino e Sonho, o protagonista.

Por anos, Gaiman bloqueou a adaptação das HQs, em parte, talvez, pela obsessão em transmitir essa amplitude que a história possui. E na série de 10 episódios, desnecessariamente lançados de uma vez, ele consegue transmitir isso, tamanho é o cuidado com o texto e a despreocupação com o heroísmo ou catarse tão atreladas ao gênero de cultura pop nos dias atuais.

No roteiro, Sandman é a entidade que cuida do Reino dos Sonhos e depois que ele é sequestrado por humanos em busca da vida eterna, o mundo cai em certa desgraça. Depois que ele se liberta, uma busca por vingança e, mais do que tudo, entendimento do próprio papel no mundo, começa a se desenrolar.

Diferente também de muitas séries, Sandman não é um filme de 10 horas. As histórias têm arcos específicos em grupos de 3 a 4 episódios e dentro de cada um deles há uma intenção clara de abordar certos temas. A escolha quase perfeita do elenco é outro fator que contribui para a execução de toda proposta de Gaiman, que não é só criador do texto, mas também produtor da série. Tom Sturridge vive Sonho e consegue, mesmo que com pouquíssimas expressões e uma atuação super internalizada, transmitir as nuances de uma entidade agoniada com seus dilemas milenares e ao mesmo tempo fugazes, tal qual os humanos que ele olha de cima.

Os efeitos visuais, acima da média para boa parte das séries Netflix, ajudam a compor o mundo de Sandman, e ainda que não sejam sublimes em execução, têm uma direção de arte condizente com o tom exotérico que a história necessita. Essa amálgama de elementos faz com que o universo proposto seja tão diferente de tudo que acompanhamos no gênero até hoje, e permite também que a série seja definida como uma fantasia mais adulta, porém nunca pedante ou apelativa, mas sim menos didática e mais aberta a interpretações do que textos como coisas da Marvel ou DC.

Ainda que esteja abraçada pela enfadonha estratégia de lançamento simultâneo de episódios da Netflix, algo que não permite a digestão da história ou mesmo aproveitamento para discussões pontuais dos episódios, Sandman mostra que adaptações podem trazer a essência da obra original e que há espaço, sim, para novas interpretações do que é o gênero de fantasia. Tal qual a HQ, pode ser que o impacto da serie em si não seja estrondoso agora, mas é de fato um feito exemplar para um mundo tão engolido por enlatados do gênero, seja no streaming, seja nos cinemas.