Criador do Clube das Mulheres: "Me acho um expert nelas"

Todas diante da passarela em que os dançarinos realizam a performance fetichista e tiram a roupa (Divulgação / Clube das Mulheres)

Focca Barreto não finge ser um cara modesto. Em 1990, ele inaugurou o Clube das Mulheres, uma casa noturna com shows de strip tease masculino. “Foi um marco do empoderamento feminino”, acredita. “Eu criei uma nova mulher”. Dois anos mais tarde, seu modelo de negócio inspirou a autora Glória Perez na novela “De Corpo & Alma” (TV Globo). A repercussão midiática rendeu, segundo Focca, 29 apresentações por mês em todas as capitais do país. “Fomos no programa da Silvia Popovic, na Hebe, no Raul Gil…”, diz sobre aqueles tempos.

Focca Barreto, criador da famosa casa de strip tease masculino (Divulgação / Clube das Mulheres)

Nesta entrevista, o empresário também conta que atualmente suas principais frequentadoras são jovens em grupos de despedida de solteira e festas de aniversário. A presença de homens, com exceção dos dançarinos, continua proibida. Elas se acomodam em cadeiras que margeiam a longa passarela, bebendo e tirando selfies a cada personagem despido. São convidadas a subir no palco enquanto as amigas gritam coisas como “Uhuuuul, enche a mão nele!”. Se comparado às casas de strip tease feminino, o Clube tem muito mais bom-humor do que ~sacanagem~. Fica em São Paulo e funciona apenas às quintas-feiras.

– O público feminino que vai ao Clube das Mulheres mudou nesses 27 anos?

FOCCA – No início, as mulheres iam com um lenço na cabeça para não serem reconhecidas, tinham vergonha do julgamento das pessoas. Criei uma nova mulher em 1990. Elas entenderam que tinham direitos como assistir a um show de strip tease, apreciar o corpo masculino, ter sonhos eróticos, dar vazão às suas fantasias sexuais. Foi um marco do empoderamento feminino.

–  Naquela época, o local era visto como uma casa de garotos de programa?

FOCCA – Sofri muitos tipos de preconceitos e eles existem até hoje. Nunca houve prostituição. Só que os homens, além de terem inveja e ciúme dos dançarinos, não sabem o que acontece lá dentro. Dizem também que os dançarinos são todos homossexuais. Enxergam o Clube como um inimigo, então tentam menosprezar.

– Então você acha que os namorados / maridos dessas mulheres deveriam considerar o Clube como um aliado?

FOCCA – Claro! Já ouvi vários me agradecerem: “Cara, obrigado, minha mulher voltou enlouquecida e virou outra na cama”. Outros dizem que passaram a usar fantasias de vez em quando para satisfazê-las.

– O Clube impõe, digamos, limites pro comportamento dos dançarinos e das mulheres?

FOCCA – Ah, sim. Isso é avisado antes de o show começar. Os dançarinos não podem beijar na boca das mulheres nem passar a mão nelas. Podem brincar de pegar no colo e tal. Elas podem pegar no braços e pernas deles, na barriga, na bunda… Não vale no genital. E os dançarinos nunca ficam pelados, sempre terminam de sunga.

– Como você define quais personagens farão parte dos shows?

FOCCA – Sem falsa modéstia, eu me acho um expert em mulher porque passei a vida perguntando o que elas gostam. E desde o início fazemos pesquisas: “Qual personagem você mais gostou? Qual gostaria que tivesse? Que parte do corpo que mais te atrai?”.  Três anos atrás, eu fui o primeiro cara NO MUNDO a personificar o Christian Grey [de “Cinquenta Tons de Cinza]! Era um sonho erótico delas. E isso foi antes de escolherem o ator do filme…

Bruno Camargo, o “Christian Grey brasileiro”, ainda com roupa durante apresentação (Divulgação / Cláudia Miori)
Bruno Camargo, o “Christian Grey brasileiro”, já bastante à vontade (Divulgação / Claudia Midori)

– Que outros fazem sucesso? Alguns estão “em cartaz” desde o início?

FOCCA – Além do Grey, atualmente o Bombeiro e o Magic Mike [stripper do filme de mesmo nome]. Teve o Swat [unidade policial no estilo Tropa de Elite] também. Mas os que nunca saíram foram o Cowboy e o Rapaz da Manutenção – aquele cara bobinho e lindo que vai na sua casa arrumar um encanamento e você se aproveita dele…

– Os dançarinos têm outras profissões?

FOCCA – Eu criei essa profissão em 1990. Então todos trabalhavam com outras coisas. Tinha dono de loja de roupas, mecânico, policial, bancário etc. Poucos sabiam dançar, mas gostavam de mostrar seus corpos esculturais. Tem que ser narcisista, né? A maioria dos que contratamos hoje já são go go boys. Existem exceções, como o Bruno, que ganhou o concurso de Mister Fitness. Mas teve de tudo, já passaram mais de 200 dançarinos no Clube.

– Eles recebem muitos convites ao final do show?

FOCCA – O Clube fez da bunda masculina um fetiche. Muitas mulheres já morderam e enfiaram a unha na bunda dos dançarinos. Um deles tem uma cicatriz até hoje. Eles são proibidos de sair com elas, mas é muito difícil esse controle. Elas mandam bilhetinhos com o telefone… Vários acabaram namorando e até casando com mulheres que conheceram lá. Já aconteceu comigo mesmo.

– Você foi dançarino no Clube também?

FOCCA – Eu era o executivo. Como sempre fui o chefe, sempre fiz o que quis. Às vezes eu dava um engordadinha e não queria dançar. Às vezes fazia dieta, meu corpo ficava perfeito e eu voltava… Ah, quase me esqueci: fiz o Papai Noel durante muitos anos.

*Nathalia Ziemkiewicz, autora desta coluna, é jornalista pós-graduada em educação sexual e idealizadora do blog Pimentaria.