'A Crônica Francesa' é Wes Anderson em uma paródia fria de si mesmo

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FOLHAPRESS - "Faça parecer que você escreveu isso de propósito", diz o personagem de Bill Murray, o editor da fictícia publicação literária que intitula "A Crônica Francesa", para cada um dos seus jornalistas. A ordem sintetiza as pretensões do novo filme do diretor de "O Grande Hotel Budapeste" e "Os Excêntricos Tenenbaums", Wes Anderson, no pior e no melhor que ele tem a oferecer.

No melhor, ao deixar muito claro o amor que o realizador sente por um tipo específico de jornalismo impresso —a publicação dentro do filme não passa de um avatar "andersoniano" para a americana New Yorker—, e no pior ao sintetizar como o excesso de esmero estético cada vez mais esteriliza os seus filmes.

A Crônica Francesa é uma revista literária de uma pequena cidade. Sua redação é composta por brilhantes jornalistas americanos expatriados e seu editor, Arthur Howitzer Jr., que acaba de morrer, vítima de um infarto. Respeitando seu testamento, a revista deixará de ser publicada e sua última edição deve circular contendo três celebrados artigos publicados anteriormente juntamente do seu obituário.

O que se segue é uma história contada através de episódios, cada um deles referenciando uma das peças de jornalismo literário presente na última edição. Conforme assistimos ao filme, lemos a revista. Temos a história do genial artista encarcerado apaixonado pela sua carcereira; temos a sátira sobre a revolução cultural juvenil nos moldes de Maio de 68, e temos o thriller envolvendo o sequestro do filho do comissário de polícia local durante um dos seus famosos jantares.

As matérias são narradas pelos respectivos jornalistas que as conceberam em momentos diferentes do tempo —uma jornalista escreve um diário, a outra dá uma palestra, enquanto o terceiro está na televisão concedendo uma entrevista.

O filme deixa claro que é sobre o ato narrativo, sobre personagens atrás de histórias, atrás da melhor forma de contá-las e, sobretudo, sobre o efeito que a busca e manuseio de tremendo ativo causa naqueles que o perseguem. Mas a redundância de perspectivas garante muito pouco além da superfície dramática. O mal que assombra a maior parte dos filmes de antologia faz mais uma vítima aqui —em favor de ideias, se suprime o humano.

Esse desconforto se adensa conforme notamos que estamos diante de um filme excessivamente inchado. Ele é empanturrado de verborragia, referências literárias e uso diverso da linguagem cinematográfica —animação, tela dividida, passagens em cor e preto e branco, miniaturas e computação gráfica. Na mesma sequência podemos ver empregados o uso de todas essas técnicas em um espaço de minutos ou sentenças.

Mas o esmero visual dificilmente encontra contrapartida na construção e relação entre personagens. Eles estão ali atrás de contato, amor, pertencimento e afeto, mas essas tensões parecem notas sendo tocadas de forma artificial e mecânica no fundo de uma melodia.

O cartunesco não precisa ser necessariamente caricato. O próprio diretor já provou isso antes.

Os filmes da primeira metade da sua filmografia pareciam emular máquinas de Goldberg, o mecanismo que executa uma tarefa simples através de uma reação em cadeia complicadíssima e exagerada. Eles tiravam proveito da cadência espalhafatosa com que o seu sistema estético evoluía, acumulando detalhes e idiossincrasias, mas, invariavelmente, chegavam a um ponto simples de ternura e humanidade. "Três é Demais", de 1998, e "A Vida Marinha com Steve Zissou", de 2005, mostram muito bem isso.

Hoje, seus filmes se assemelham mais a displays animatrônicos, meticulosamente concebidos e friamente dispostos. Conforme seus anseios visuais foram lapidados, parte da inocência e da ternura se perdeu.

É comum escutar que a cada novo filme, Wes Anderson faz o seu filme mais "andersoniano", mas parece que ele há muito ultrapassou a linha onde essa máxima começou a descrever uma paródia —e não a evolução de um projeto.

A CRÔNICA FRANCESA

Avaliação Regular

Quando Estreia nesta quinta (18)

Onde Nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Timothée Chalamet, Bill Murray, Tilda Swinton

Produção Reino Unido/França/Alemanha, 2021

Direção Wes Anderson

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