Crítica: 'O Roubo da Taça' é comédia de espírito pop como o Brasil quer se acostumar a fazer

A situação real na qual se baseia ’O Roubo da Taça’, que estreia nesta quinta (8), é tão absurda que é impossível não se divertir com esta autêntica comédia de erros, calcada no espírito da década de 80.

Foi em dezembro de 1983 que uma dupla de ladrões invadiu a sede da CBF e colocou as mãos no Troféu Jules Rimet, a maior conquista do nosso futebol até então, deixado no Brasil após as conquistas das Copas do Mundo de 58, 62 e 70. Desde então, a história virou uma espécie de lenda urbana, com a versão mais conhecida contando que a taça foi derretida para ter seu ouro comercializado.

O longa de Caito Ortiz acerta logo de cara ao escalar o ótimo Paulo Tiefenthaler como o protagonista, Peralta. Uma escolha pela qual o diretor teve que insistir durante a gestação do projeto, segundo contou em entrevista exclusiva ao Yahoo!, pois alguns parceiros não achavam o ator famoso o suficiente. A produtora pulou fora, veio a Netflix, que injetou dinheiro sem dar palpites na parte criativa, e Tiefenthaler ficou.

Seu personagem, Peralta, é a personificação do tipo conhecido no folcore nacional como ‘malandro carioca’: bom de lábia e de copo, e sempre atrás de um jeitinho para melhorar sua vida, mesmo que às vezes por meio de atos ilícitos. É heróico e patético ao mesmo tempo, o que funciona muito bem na tela.

Tanto que seu intérprete levou o Kikito de melhor ator no Festival de Gramado, de onde o filme ainda saiu com os prêmios de roteiro, fotografia e direção de arte - esta bastante competente na recriação do Rio de Janeiro de 33 anos atrás, mesmo filmando boa parte em Santos, litoral paulista.

Tiefenthaler teve ainda o mérito indireto de atrair outro nome de peso para o elenco. O cantor Mr. Catra aceitou fazer a participação ao saber que contracenaria com o ator, de quem era fã desde a época do programa 'Larica Total’, do Canal Brasil.

Em sua ânsia por recriar o clima da cultura pop da época, porém, o filme derrapa um pouco na construção de Dolores, namorada de Peralta, vivida por Taís Araújo. Apresentada com um close em sua cintura rebolando enquanto anda pela rua e usando trajes mínimos e/ou justíssimos em quase todas as cenas, 'O Roubo da Taça’ acaba transformando a personagem em mero item decorativo, embora tente reverter um pouco esta sensação no desfecho.

Ainda que tenha seus erros e acertos, a produção é uma tentativa bastante válida. É cinema com cara inegavelmente nacional, ao mesmo tempo em que dialoga com as comédias dos irmãos Coen, repleta de figuras tão bizarras como fascinantes em cena, e com mestres italianos do anos 60 e 70, como Mario Monicelli, inspirações declaradas de Ortiz.

Já pelas referências, percebe-se que em termos de qualidade está um passo além das comédias de linguagem televisiva que costumam encher as salas nacionais, sem deixar de ter apelo pop. É uma tendência que, se encontrar seu público, tem tudo para evoluir.