Crítica: Falsa normalidade coloca casal sob tensão no brilhante 'O Silêncio do Céu'

image

O Silêncio do Céu’ começa com o pé na porta. Logo na primeira cena, Diana, personagem de Carolina Dieckmann, é estuprada por dois sujeitos. Seu marido, Mario (Leonardo Sbaraglia), assiste por frestas na janela, mas fica paralisado, sem reação. Impotente.

O início brutal coloca os dois protagonistas do filme num estado de aflição que permanece suspenso por um fio durante boa parte da história dali para frente. Isso porque Mario nunca conta para sua esposa que sabe o que aconteceu, nem ela relata a ele. O segredo silencioso paira no ar enquanto ambos fingem que nada aconteceu e seguem se esforçando para manter a aparência de um relacionamento normal.

Por dentro, porém, a sensação de culpa por não ter sido capaz de agir vai consumindo Mario. Ele vai atrás dos homens que fizeram aquilo com Diana, na trama que leva a narrativa pelo caminho do thriller.

Abaixo deste verniz de história de perseguição, ‘Silêncio do Céu’, coprodução entre Brasil e Uruguai, fala mais profundamente e de forma metafórica sobre o distanciamento e a falta de comunicação entre o casal. É aquela velha imagem do elefante na sala que todo mundo vê, mas prefere ignorar, levada às últimas consequências.

Em seu terceiro longa-metragem, o diretor Marco Dutra atinge o ponto alto da carreira até o momento. Especialista em criar atmosferas sombrias, como já mostrara nos anteriores 'Trabalhar Cansa’ e 'Quando Eu Era Vivo’, ele é metódico na seleção dos tons azuis claros da direção de arte e figurinos, que remetem à falsa sensação de calmaria, em detalhes como a pedra que fica na sala desde o dia do incidente sem que ninguém mencione, e nos sons dos carros, decisivos para construir tensão em algumas cenas.

Merece destaque ainda o talento do protagonista, o argentino Sbaraglia (de 'Relatos Selvagens’). É impressionante como ele constrói este homem repleto de neuroses que tenta esconder, sem em nenhum momento cair no exagero, muitas vezes apenas com uma mudança no olhar. Corajosa, Carolina Dieckmann também vai bem em sua personagem introspectiva e melancólica, bastante diferente de qualquer coisa que já fez na TV.