Covid-19: nas periferias de São Paulo, novo coronavírus é 10x mais letal

Moradores de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo com cerca de 120 mil habitantes, localizada na Zona Sul da cidade. (Foto: Victor Moriyama/Getty Images)

A letalidade do novo coronavírus chega a ser dez vezes maior nas periferias de São Paulo se comparado com os bairros de classe média-alta. É o que apontam os dados do último boletim quinzenal da Covid-19, balanço mais atualizado da gestão Bruno Covas (PSDB), publicado no dia 30 de abril pela Secretaria Municipal de Saúde.

Na avaliação de especialista ouvido pelo Yahoo Notícias, três fatores sócio-econômicos explicam essa diferença na relação entre número de casos e óbitos confirmados: maior aglomeração da população; vulnerabilidade econômica; e histórico do sucateamento dos equipamentos de saúde.

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Combinados, eles fazem das periferias de São Paulo verdadeiras estufas de incubação do Sars-Cov-2.

“Essa situação de desigualdade não é nova. A doença não nos colocou diante de um quadro novo. O que temos é o vírus expondo claramente essa situação de desigualdade e punindo com morte os menos favorecidos”, classificou César Simoni, professor do departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo) e vinculado ao laboratório de Geografia Urbana da faculdade.

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No estado de São Paulo, são 37.853 casos confirmados e 3.045 mortes pela Covid-19. Só na capital, até esta quarta-feira (6) eram 23.187 casos e 1.910 óbitos.

Os subúrbios, segundo os dados da prefeitura, não são as regiões administrativas onde se encontram os maiores números de casos confirmados. No entanto, são os que mais concentram as mortes por Covid-19. Lideram esse índice os bairros da Brasilândia, na Zona Norte, Sapopemba e São Matheus, ambos na Zona Leste.

Já a concentração de casos confirmados ocorre em regiões de classe média-alta, como no Morumbi, na Zona Sul, Jardim Paulista e Vila Mariana, os dois no Centro. Apesar de terem o maior número de pacientes infectados, esses bairros apresentam uma letalidade baixa para o novo coronavírus, algumas vezes menor do que a média apresentada pela média nacional e estadual da doença.

Confira o gráfico abaixo:

(Arte: João Conrado Kneipp/Yahoo Notícias)

LETALIDADE MAIOR NAS PERIFERIAS

Esse maior poder de morte do novo coronavírus nas periferias pode ser explicado por três fatores sócio-econômicos característicos da população e da disposição urbanística desses bairros, segundo César Simoni.

Por tratar-se de um vírus respiratório, a aglomeração de pessoas é um dos motores da transmissão da Covid-19. Nesse aspecto, tanto o agrupamento de pessoas na mesma casa como o ajuntamento de residências muito próximas às outras contribui para espalhar o vírus.

“Temos um histórico de adensamento da população nas periferias, com muitas pessoas compartilhando um mesmo espaço de moradia. Isso vale tanto para o interior das residências quanto para o a configuração urbanística das periferias, com ruas estreitas e casas próximas”, detalha o professor de geografia.

Outro fator que faz aumentar essa letalidade é a necessidade da população de garantir o sustento, quebrando assim a regra do isolamento social, medida apontada pelas autoridades de saúde como a mais eficaz até agora.

“A baixíssima remuneração dessa população, vinculada ao estado de urgência no qual estamos, torna impossível que elas possam cumprir as orientações de confinamento e resguardo em casa”, explica Simoni. A dependência maior dos transportes coletivos urbanos, como ônibus, trens e metrôs, para se deslocar também ajudou, avalia Simoni.

Segundo ele, até mesmo a forma como foi implementada a medida do auxílio emergencial de R$ 600, criado pelo governo federal para socorrer as famílias de baixa renda durante a pandemia, não contribuiu para diminuir essa letalidade do vírus.

Moradores da favela da Capadócia, na região da Brasilândia, recebem doações de alimentos de ONG Instituto Kapadocia. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

“Foi uma série de tropeços. Dificuldade no acesso (digital), falta de informações, demora para implementar, longas filas nas Caixas. Era uma medida para fazer com que as pessoas não saíssem de casa, mas o que vimos foram pessoas nas filas por horas, dormindo e passando a noite fora de casa, aumentando a exposição delas. Tudo isso funcionou como um catalisador do vírus”.

Por fim, o mestre em Geografia Humana pela USP aponta o histórico de sucateamento do SUS (Sistema Único de Saúde) como uma outra razão para esses índice. “A única resposta que essa população pode ter agora é do SUS. Se olharmos em retrospectiva, a gente vem de uma tradição de sucateamento desse complexo e imenso sistema”.

FALTA DE LEITOS DE UTI

A localização e distribuição dos leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) também privilegiam os bairros mais ricos e próximos ao centro, enquanto as periferias padecem com a ausência desses equipamentos de saúde.

Um mapeamento da Rede Nossa São Paulo divulgado em abril e publicado pelo Alma Preta revela que 60% dos leitos de UTI do SUS estão concentrados nas regiões das subprefeituras da Sé, Pinheiros e Vila Mariana, localizadas nas regiões mais ricas e centrais da cidade, onde vive 9,3% da população.

Na outra ponta, em áreas periféricas das subprefeituras de Aricanduva, Jaçanã, Lapa, Parelheiros, Perus, Campo Limpo e Cidade Ademar não há nenhum leito. Essas regiões concentram 20% da população da cidade, o mesmo que 2,3 milhões de pessoas.

O levantamento expõe, por exemplo, que a região da subprefeitura de Pinheiros, bairro de classe média alta da Zona Oeste, dispõe de 365 leitos de UTI públicos para sua população de 294 mil pessoas. Com a mesma população, a Vila Maria, na Zona Norte, possui 10. 

O QUE DIZEM PREFEITURA E GOVERNO?

Durante as coletivas de atualização da situação do novo coronavírus no estado, tanto o governador João Doria (PSDB) quanto o prefeito Bruno Covas (PSDB) têm sido questionados a respeito da letalidade maior da doença nas periferias.

Em resposta, Covas justificou que as ações de bloqueio do trânsito - já suspensas um dia depois da declaração - ocorrem especialmente nas periferias. O prefeito também citou a doação de 100 mil cestas básicas para atender a população vulnerável e afirmou que a ampliação de leitos da rede pública de saúde visa atender justamente as pessoas que dependem do SUS.

Já o secretário de Saúde do Estado, José Henrique Germann, reconheceu que, ao recomendarem que as pessoas fiquem em casa, criou a possibilidade de aglomeração em residências com vários moradores compartilhando o teto.

“Precisa usar máscara, enfim, fazer todos os procedimentos para prevenir a transmissão do vírus. Na parte assistência à saúde, que é o que nos compete, estamos criando a disponibilidade e reposição desses leitos do SUS conforme os pacientes vem chegando”, disse ele.

O coordenador do Centro de Contingência do Novo Coronavírus, o infectologista David Uip, ressaltou na mesma ocasião que há uma preocupação diária com essas populações. “A prefeitura e o estado vem inaugurando novos leitos de UTI e leitos gerais. Há uma preocupação sim com a população vulnerável”, complementou.