Cotado para ganhar o Oscar, o satírico 'Três Anúncios Para um Crime' já está em cartaz

(Imagem: divulgação Fox)

Em 1993, o pai de Kathy Page – que aos 34 anos foi morta e estuprada na cidade de Vidor, no Texas – comprou o espaço em outdoors espalhados em lugares estratégicos do município e colocou mensagens para chamar atenção da população para o fato do crime, acontecido dois anos antes, não ter sido solucionado.

O caso continua em aberto e até hoje James Fulton, atualmente com 88 anos, continua trocando regularmente os anúncios, em busca de respostas. “Essa é a cidade de Vidor, onde você pode sair impune de assassinar brutalmente uma mulher”, dizia um dos outdoors.

Essa história real serviu de inspiração para a premissa principal do roteiro de ‘Três Anúncios Para um Crime’, em cartaz nos cinemas brasileiros a partir deste final de semana. O longa recebeu 7 indicações ao Oscar: filme, atriz (Frances McDormand), Ator coadjuvante (onde concorre duas vezes, com Sam Rockwell e Woody Harrelson), roteiro original, trilha sonora e edição. É considerado, ao lado de ‘A Forma da Água’, o principal favorito ao prêmio mais importante da noite.

Frances vive Mildred, mãe solteira atormentada pelo assassinato da filha, um crime para o qual, em sua visão, a polícia não está fazendo tudo que pode para resolver. Assim como James Fulton na vida real, ela utiliza três outdoors para chamar a atenção do povo da pequena cidade onde mora e exigir que o culpado seja encontrado e punido.

O problema é que o Xerife Willoughby (Harrelson) é extremamente querido pela comunidade e passa por um momento pessoal difícil, o que faz com que a maioria da população local se volte contra Frances. Para complicar, ela bate de frente com o esquentado policial Dixon (Rockwell), que toma as dores do chefe e é capaz das atitudes mais imprevisíveis. Forma-se então uma espiral de hostilidade, como um furacão que leva todos os personagens.

Vale lembrar que não há nenhum herói nesta história. Mesmo Mildred, a personagem central, toma algumas atitudes que podem ser consideradas condenáveis, e é secretamente também consumida pela culpa a cerca do relacionamento difícil que tinha com a filha, marcada por uma briga pesada entre elas horas antes da morte da jovem.

Um dos filmes que melhor traduz o chamado “espírito do seu tempo”, ‘Três Anúncios Para um Crime’ satiriza a cultura do justiçamento, assim como arma um intrincada, mas verossímil, reação em cadeia quando uma quantidade excessiva de raiva e ódio se acumula dentro de uma sociedade.

Para isso, é fundamental que o trio de protagonistas (todos em ótimas atuações) tenham suas motivações e personalidades expostas. Longe de ser politicamente correto, o filme ao menos dá um contexto no qual preconceitos dos mais variados tipos são sintomas de um ambiente contagiado, quase doentio.

Brutal e denso, o filme consegue a proeza de ser ainda muito engraçado. Os diálogos irônicos, cáusticos e que muitas vezes viram discussões acaloradas – traços típicos do diretor Martin McDonagh (do incrível ‘Na Mira do Chefe’ e acostumado também a escrever peças teatrais) – estão aqui em plena forma. E vale um destaque para a cena final, que consegue ainda extrair um pouco de otimismo, mesmo diante de tamanha violência.