Coronavírus na comitiva: Bolsonaro estava brigando com os fatos

O secretário da Secom, Fabio Wajngarten. Foto: Adriano Machado/Reuters

Jair Bolsonaro disse nos EUA que havia “muito mais fantasia” do que realidade nos diversos alertas de organismos internacionais sobre o coronavírus. Culpou, como sempre, a “grande mídia”, que “propala ou propaga pelo mundo todo” algo que “não é tudo isso”.

Um dia depois, Donald Trump decidiu proibir a entrada no país de todos os voos vindos da Europa, numa ação tão efetiva quanto estancar uma enchente com a ajuda de um graveto.

Mal sabia que o risco era outro.

Acompanhante de Bolsonaro na viagem, o chefe da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, voltou para casa com coronavírus. Esteve muito próximo dos dois chefes de Estado enquanto eles brigavam com a realidade durante a viagem. Em uma foto, aparece sorridente, com o boné escrito “Make Brazil great again”, ao lado de Trump. 

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Por causa do resultado, Bolsonaro passou a ser monitorado pela equipe médica da Presidência e cancelou uma viagem que faria a Mossoró (RN). O ato foi cancelado.

A infecção de um auxiliar direto seria cômica se não fosse trágica (em tempo: a ele estimamos melhoras).

Diante do mundo, Bolsonaro mostrou que não sabia o que falava quando decidiu minimizar a crise. Poderia, ele e o ídolo americano, ao menos ter ouvido outro auxiliar direto, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, um dos raros integrantes de sua equipe que não foi picado pelo vírus ideológico do bolsonarismo.

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Mandetta até aqui parece ser um dos poucos auxiliares do presidente que sabe o que fala. Enquanto o mundo se assustava com o anúncio da pandemia, ele criticava a demora da Organização Mundial da Saúde em reconhecer a situaç]ao. “Desde a semana passada o Brasil já trata como pandemia. Porque era óbvio. Se você tem uma transmissão sustentada em tantos países, como vou ficar procurando país por país, quem veio de onde? Isso pelo menos três semanas atrás já era impraticável para os sistemas de saúde”, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo. 

Ao longo da crise, Mandetta mostrou que um dos remédios para conter a proliferação é segurar a ansiedade -- algo que seus colegas de ministério também precisam entender.

Na quarta-feira, o ministro da Educação, Abraham Weitraub sugeriu que as escolas devem se preparar para um “cenário de contingência”. Suspensão das aulas, em outras palavras -- isso embora as universidades tenham autonomia e a maioria das escolas respondam ao governos estaduais, municipais ou mantenedores privados.

Mandetta ponderou: a suspensão das aulas pode agravar os riscos, já que quem teria de cuidar das crianças, em muitos casos, são pessoas idosas, justamente o grupo vítima preferencial.

“Quando se fazem férias escolares ou suspensão de aula, essas crianças vão ficar com quem? Se mandarem para os avós, como é o hábito das famílias brasileiras, eu vou estar expondo, porque 30% são assintomáticas, um tanto dessas crianças e adolescentes têm formas leves. Se for para colocar com os avós, vou contaminar aqueles que mais quero proteger, que são os idosos e os doentes crônicos”, disse o ministro.

Antes, Mandetta já havia adiantado que o Brasil deveria preparar a infraestrutura necessária para a produção e distribuição das vacinas e remédios para o coronavírus, mas não participar da sua criação. Isso porque, segundo ele, há uma disputa geopolítica para desenvolver e produzir um retroviral, e nessa corrida o país está em desvatntagem. “O Banco Mundial liberou US$ 12 bilhões, os Estados Unidos liberaram US$ 9 bilhões, a comunidade europeia mais alguns bilhões de dólares. Nós temos que estar prontos e fazer pesquisa para saber: qual é o vírus, qual é a cepa que está andando aqui, mapear geneticamente, organizar o perfil biológico do brasileiro para saber como nós respondemos a isso, fazer as pesquisas de fundo e preparar o nosso parque tecnológico para que, na hora que você identificar que existe a possibilidade de vacina, termos a capacidade de produzir”, disse em outra entrevista, ao Valor Econômico.

Na ocasião, ele lembrou que o Instituto Butantan pretende entregar 72 milhões de vacina da gripe para a campanha de 2020 e está no processo final para a criação de vacina contra a dengue -- outra prioridade em um país de clima tropical.

Médico formado pela Universidade Gama Filho, do Rio, com pós-Graduação em Ortopedia Pediátrica, Mandetta é deputado licenciado e já exerceu o cargo de secretário municipal da Saúde em Campo Grande (MS).

É, portanto, político e especialista em sua área-- duas espécies estranhas ao bolsonarismo.

É bom se cuidar. Em terra (plana) de cegos que brigam com a ciência e se abrigam em movimentos do tipo antivacina, quem arregaça as mangas e foge de polêmica vazia é alvo, não rei.