Coronavírus: o que faria Bolsonaro se não tivesse Congresso e STF como freios?

O presidente Jair Bolsonaro durante coletiva. Foto: Andressa Anholete/Getty Images


Imagine que, no último dia 15, um surto de desobediência civil e racional tivesse pautado mentes e corações, e não só de meia dúzia de gatos tresloucados, em defesa dos atos contra Congresso e Supremo Tribunal Federal. Em massa, a população inteira, e não a maioria simples das urnas, gritaria que apenas Jair Bolsonaro, mais ninguém, nem cientistas, juristas, analistas políticos ou parlamentares escolhidos na mesma eleição, saberia o que é bom para nossa tosse, inclusive na condução do coronavírus e na escolha para embaixadores em Washington.

Um consenso uniria o país: só ele sabe o que faz. Só ele sabe conduzir sem ser conduzido. Se ele diz está certo. Confiem em seu dedo indicador. Amém.

No dia seguinte, os presidentes da Câmara e do Senado estariam interditados. Ambas as Casas entrariam em reformas até se tornarem um anexo do Executivo, compostas apenas de aliados fiéis e patrióticos.

Siga o Yahoo Notícias no Google News

Os integrantes do Supremo seriam convidados a se retirar da sala por um cabo e um soldado. Seriam substituídos por ministros terrivelmente alguma coisa.

Leia também:

E então, no dia seguinte, dois cenários estariam desenhados. 

Ou o presidente seguiria com seu terraplanismo sanitário a respeito da gripezinha ou cairia na real sobre o perigo do coronavírus.

No primeiro caso, governadores que tomassem medidas para a população ficar em casa, seguindo o exemplo internacional sem se preocupar com o enfraquecimento do governo do presidente, seriam chamados de lunáticos estraçalhados um a um. O ministro da Saúde precisaria se cuidar: ninguém neste novo país, livre das amarras democráticas citadas pelo 02, pode chamar mais atenção do que o líder supremo da coisa toda.

A ordem era sair na chuva e se molhar até que o Brasil se tornasse uma nação de sobreviventes de anticorpos patrióticos. Os mais aptos seguiriam; os demais, bem, se não suportassem uma gripezinha, que dirá de uma guerra contra ameaças reais como o Foro de São Paulo, não é mesmo? Darwinismo bolsonarista na veia.

Se optasse pela segunda via, o internauta amigo que por acaso foi às ruas defender plenos poderes ao presidente descobriria em menos de dez dias que, por ordem do mito agora desacorrentado, seu contrato de trabalho estaria quatro meses suspenso. Ele poderia ficar em casa protegido da pandemia sem direito a um centavo. (Na Medida Provisória sobre o tema, simplesmente sumiu um trecho em que o governo se comprometia a assumir parte desses pagamentos). 

Quem se opusesse deveria se virar e negociar diretamente com o patrão, que saberia assim quem estava disposto a vestir a camisa da empresa na volta ou não. Vai encarar?

Com ameaças nem mais tão veladas a todo empresário que anunciasse em veículos indispostos a curvar a espinha para o superpresidente, aos poucos as informações com contrapontos às decisões imperiais deixariam de circular. Quase ninguém saberia, assim, que nos dias que antecederam a apresentação da medida provisória, Paulo Guedes, superministro da Economia, conversou com ao menos dez representantes do setor privado e nenhum dos trabalhadores, conforme registrou a coluna Painel, da tão atacada “Folha de S.Paulo”.

Pouca gente viria a público reclamar da suspensão dos salários, como fizeram parlamentares e ministros do STF, entre eles Dias Toffoli, que enviou mensagem a Bolsonaro avisando que, se a MP não fosse revogada, como foi, ela seria derrubada. Assim Bolsonaro voltou atrás.

E o amigo internauta que por acaso está na lista dos detentores de contrato trabalhista pôde respirar aliviado diante da possibilidade de ficar em casa à míngua durante quatro meses.

Antes disso, coube a outro ministro do Supremo, Marco Aurélio, suspender os cortes do governo no Bolsa Família para estados do Nordeste enquanto durar a calamidade pública.

Quem está na informalidade ainda tem as panelas a mostrar na varanda de casa. Elas ainda não podem ser apreendidas e podem forçar um governo acuado e olhar para este potencial explosivo de revolta popular, lembrando assim quem trabalha para quem.

E o presidente que em público se queixa da perseguição da mídia e do crédito dos institutos de pesquisa tem ainda o livre arbítrio de decidir se vai ouvir ou não os sinais de descontentamento das janelas e das pesquisas de opinião como o Datafolha, que já aponta um fosso em relação a outros líderes políticos, inclusive potenciais adversários em 2022. A tão malfadada política move montanhas, e faz até o presidente aparentemente inerte tomar tino e se reunir com governadores do Nordeste, por videoconferência, e discutir uma ação coordenada e comum. Ganhou até elogios de opositores, vejam só. Como diria nossa avó: parecia um mocinho de tão bem comportado.

No sistema de freios e contrapesos, sem superpoderes ou medidas imperiais, todo mundo que cede pode ganhar um pouco sem tentar se sabotar. Até mesmo o presidente que fatalmente não saberá o que fazer se herdar na queda-de-braço o cenário de uma terra arrasada onde um dia existiu um país.

Siga o Yahoo Notícias no Instagram, Facebook e Twitter e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.