Nem Trump nem Jacinda: Bolsonaro é a Pugliesi dos chefes de Estado

Jair Bolsonaro discursa para multidão aglomerada em meio à pandemia do coronavírus. Foto: Sergio Lima/AFP via Getty Images

Eu não sabia quem era Gabriela Pugliesi até explodir a pandemia do coronavírus.

Na semana passada, diante de uma polêmica que não entendia bulhufas, cheguei a imaginar que a modelo que fazia fotos em lugares devastados por um furacão nos EUA tinha voltado à cena. Fui devidamente corrigido pelos amigos entendidos sobre quem era, onde vivia e como se alimentava a famosa quem. Fiquei confuso. A descrição que me fizeram não era de uma influencer, mas do presidente da República.

A exemplo dela, Bolsonaro também falava em festinha quando a pandemia já avançava.

Ambos estiveram no centro (ou ao lado) de um dos principais focos de contaminação no país.

Ambos gravaram vídeos com subordinados ao fundo.

Ambos vivem de lives e se alimentam de uma realidade paralela.

Diante da “carentena”, nenhum dos dois se constrangeu em furar o isolamento para compartilhar abraços e perdigotos para ganhar Ibope mostrando que a vida é linda e são todos muito felizes.

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É triste constatar, mas se fosse criada hoje uma escala para medir a capacidade gerencial de chefes de Estado em tempos de crise, Bolsonaro estaria mais para Pugliesi do que para Winston Churchill. 

Na pandemia, o chefe de Estado brasileiro estaria numa linha diametralmente oposta de lideranças exemplares como Jacinda Ardern (Nova Zelândia), Angela Merkel (Alemanha) e Sanna Marin (Finlândia). Na escala, nem seu ídolo, Donald Trump, investiu tanto contra a realidade como o parça de Brasília.

O gráfico de declarações de Bolsonaro ao longo da crise começa com um “não tem que ter histeria”, diante da primeira morte confirmada, em 17 de março, e vai até o “talvez eu tenha pegado o vírus”, em 30 de abril, quando o coronavírus já havia ceifado 5,9 mil vidas registradas apenas nas estatísticas oficiais.

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Pressionado, seu governo até elaborou respostas após a articulação possível com estados e parlamentares. Não fosse o sistema de pesos e contra-pesos, com direito a vetos na Justiça, a ajuda governamental seria mínima e os esforços dos governadores para controlar a circulação do vírus já estavam desfeitos há muito tempo -- com consequências impensáveis e sem tempo de elaborar respostas mínimas na rede de atendimento antes de a coisa explodir.

A explosão veio depois de todos os prognósticos, em um momento de pressão pelo relaxamento da quarentena e sinais de colapso em cidades como Manaus, Belém e Fortaleza.

Mas, perto da sexta milésima morte pelo coronavírus, o presidente que boicotou todos os esforços para ao menos atrasar a explosão vem agora a público dizer que o isolamento determinado pelos governadores não valeu de nada.

Na famosa entrevista ao Fantástico que culminou na sua demissão, o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, alertou que, diante do bate-cabeça com o presidente, os índices inevitáveis de contaminação tirariam do armário os famosos engenheiros de obras prontas. São aqueles cínicos de sempre que não fazem nada para evitar o morticínio e depois aparecem dizendo que sabiam o que iria acontecer.

Bolsonaro é um desses.

Antes mesmo da primeira morte, a única estaca montada no seu projeto arquitetônico do nada para lugar algum foi uma vacina discursiva que tentou tirar do seu colo tanto o número de mortos quanto a hecatombe econômica.

Enquanto chamava de covarde quem ficava em casa para se proteger, jogou para a plateia que ainda não havia se dado conta da gravidade da situação, criou uma falsa dicotomia entre solução sanitária e solução econômica e ainda arrumou tempo para brigar pelo controle da Polícia Federal, brincar de paredão com seus ministros mais populares e espalhar teorias alucinógenas sobre masturbação e infância envolvendo a Organização Mundial da Saúde, que orienta a população a fazer exatamente o oposto de tudo o que defende o presidente brasileiro.

Diante das críticas e contestações inevitáveis pela sua postura, sem a opção de deletar as contas nas redes sociais e submergir na própria insignificância, Bolsonaro optou por minar a credibilidade do mensageiro, dos órgãos de imprensa profissional, do Congresso e do STF. Aos seguidores, o blogueirinho no centro da selfie jura que a preocupação de todos, no mundo inteiro, era apenas o seu cargo, e não a vida.

Estava preocupado com a sobrevivência. A sua.

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