Coronavírus: interesse sobre cloroquina disparou após vídeo de Bolsonaro


Tuíte de presidente sobre "possível cura" deu mais tração para assunto que já tinha força. Arte: Núcleo Jornalismo


Por Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico

Na tarde de sábado, 21 de março, o Jair Bolsonaro publicou um vídeo no Twitter no qual anuncia "possível cura dos pacientes com a COVID-19", sem fazer nenhum alerta, aviso ou menção de que os resultados do tratamento com cloroquina contra o coronavírus ainda são inconclusivos, de acordo com especialistas e autoridades sanitárias em todo o mundo. 

A cloroquina e a hidroxicloroquina já vinham ganhando notoriedade na última semana após a divulgação de pesquisas ainda preliminares com o medicamento.

Cloroquina no Twitter


No entanto, as buscas online e tuítes sobre o assunto cresceram ainda mais após o vídeo do presidente, de acordo com análise do Núcleo com dados do Twitter e do Google Trends. 

A média de tuítes por hora com os termos "cloroquina" ou "hidroxicloroquina" naturalmente disparou após notícias sobre o estudo, no dia 19. O vídeo de Bolsonaro serviu, então, para não apenas reacender como também impulsionar o interesse, que já era grande. 

O número de tuítes por hora no dia 21 (frente ao dia anterior) sobre o tema cresceu 66% após o vídeo, para 1.844 publicações.


Tweets cloroquina


Isso é significativo porque, por ter quase um endosso do presidente como "possível cura", sem nenhum alerta ou contraindicação, muitas pessoas podem correr para comprar o medicamento, acabando com estoques para aqueles que realmente precisam e se automedicando indevidamente. Segundo a agência de notícias Bloomberg, dois gramas de cloroquina podem ser letais. 


A procura pelo medicamento nas farmácias aumentou tanto, mesmo antes do vídeo de Bolsonaro, que a Anvisa determinou na última sexta-feira que os produtos sejam considerados de uso "controlado". No entanto, no Brasil, ainda é comum a compra de medicamentos controlados mesmo sem prescrição médica. 

"A medida é para evitar que pessoas que não precisem desses medicamentos provoquem um desabastecimento no mercado. A falta dos produtos pode deixar os pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide sem os tratamentos adequados", informou a Anvisa em nota.

O aumento do interesse depois do vídeo de Bolsonaro também ser visualizado a partir de buscas do Google, maior mecanismo de busca da internet. O pico de interesse acontece logo depois do tuíte de Bolsonaro com o vídeo.  


Cloroquina Google


METODOLOGIA

O Núcleo analisou 150 mil tuítes, de 15 a 23 de março de 2020, captados pela API gratuita do Twitter. O código da análise pode ser encontrado aqui

Os dados do Google são da plataforma do Google Trends e vão de 16 a 23 de março. Para melhorar a visualização, os dos primeiros e últimos dias não foram incluídos nos gráficos, o que não muda a análise. 

Essa reportagem foi publicada em parceria com o Núcleo Jornalismo