#Verificamos: Suspeita de infecção por novo coronavírus através de encomendas não tem nenhum embasamento científico

(Foto: Reprodução)

por Nathália Afonso

Circula nas redes sociais um texto que alerta a população sobre a possibilidade de o novo coronavírus estar presente em encomendas da China e, com isso, contaminar uma pessoa. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da ​Lupa​:

(Foto: Reprodução)

“Alerta do coronavírus em encomendas da China‼ Diariamente, centenas ou até milhares de brasileiros esperam pacientemente suas compras de sites como AliExpress, Wish e Lightinthebox. Um médico infectologista confirma que estudos mostram que o vírus pode ser encontrado em materiais inorgânicos como papel e tecido. Fica o Alerta‼”
Texto publicado no Facebook que, até às 16h do dia 5 de fevereiro de 2020, já tinha mais de 300 compartilhamentos 

INSUSTENTÁVEL

Embora não seja possível garantir com absoluta certeza que a transmissão do novo coronavírus não possa acontecer através de uma encomenda comprada na China, não há nenhuma evidência ou estudo que aponte essa possibilidade. Pelo que se sabe a respeito de outros organismos da mesma família, essa chance é praticamente inexistente. Em epidemias envolvendo outros coronavírus, como o da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, da sigla em inglês), nenhuma transmissão desse tipo foi verificada. É mínima a chance de que o vírus sobreviva sobre materiais secos, ou mesmo líquidos, por vários dias ou semanas, durante todo o trajeto percorrido por um pacote.

A infectologista Nancy Bellei, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), informa que, em geral, vírus não sobrevivem na superfície de objetos ou no ar em temperatura ambiente. “A gente não teve nunca essa preocupação dessa contaminação ambiental a distância [em outras experiências com coronavírus]”, disse a infectologista. 

Nancy Bellei cita como exemplo a SARS, que contaminou mais de 8 mil pessoas e matou mais de 900 entre 2002 e 2003. Ela lembra que não houve relatos de uma pessoa ter sido contaminada por meio de uma embalagem vinda de outro país. 

A Fiocruz destacou que ainda não se sabe o tempo de sobrevivência desse novo coronavírus fora de um corpo. Contudo, a fundação informa que o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos já disse que é “pouco provável que ele [o vírus] seja capaz de sobreviver acima de um período de vários dias ou semanas, que é tempo destinado ao transporte de mercadorias da China”. 

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que “não há evidência, até o momento, que isso possa ocorrer”. O órgão ressaltou que um vírus não costuma sobreviver fora do corpo de um ser vivo por muito tempo. Não é provável, portanto, que ele ainda esteja ativo após uma viagem de barco, ou mesmo de avião, entre a China e o Brasil.

No final de janeiro, essa mesma informação circulou pela França e foi verificada pelos checadores do Francetvinfo. Eles consultaram órgãos e entidades do país e classificaram a informação como falsa.

Segundo especialistas consultados pela Francetvinfo, os vírus em superfícies secas se degradam em “algumas horas”, e dependem de uma determinada taxa de umidade e uma determinada temperatura para sobreviver. Mesmo em líquidos, é improvável que sobrevivam mais do que alguns dias. Para um dos infectologistas citados, o risco de transmissão é zero. Outro disse que essa suspeita é “absolutamente sem fundamento” e contribui para a “histeria coletiva”.

O relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostra que o novo coronavírus atingiu 20.630 pessoas e matou mais de 400 em 24 países até o dia 4 de fevereiro deste ano – a maior parte dos casos foram registrados na China. O vírus foi descoberto no dia 7 de janeiro e, nas últimas semanas, as redes sociais vêm sendo inundadas com informações falsas. 

Lupa vem acompanhando as informações publicadas nas redes sociais sobre o assunto. Todas as checagens realizadas pela agência podem ser conferidas clicando aqui.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.