Coronavírus: como convencer idoso a ficar em casa?

Idosos precisam sentir que estão em uma rotina. Foto: Pixabay

Em meio à crise do coronavírus, muitas pessoas aderiram ao isolamento total dentro de suas casas para ajudar no combate à doença. No entanto, muitos idosos ainda estão relutantes em seguir a recomendação da quarentena. Mesmo sendo parte do grupo de risco, alguns deles parecem não ouvir os pedidos dos filhos e netos para que não saiam às ruas.

Porém, qual é a melhor forma de convencer uma pessoa idosa a ficar em casa? Segundo a psicóloga Maristela Spera, profissional especializada em clínica de geriatria, brigar com aqueles que estão no grupo de risco não ajuda. De acordo com ela, é preciso que as pessoas mais jovens da família passem as recomendações de forma tranquila e clara.

Para a psicóloga, grande parte dessa “negação” dos idosos de que podem pegar o vírus está ligada à sensação de que eles não vão mais ter controle do que irá acontecer com suas vidas. De acordo com a especialista, as pessoas que fazem parte do grupo de risco gostam de ter alguma autonomia na vida e, por isso, não costumam ouvir recomendações dos mais jovens.

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“Depois que o idoso se aposenta, ele não tem mais tantas atividades como as que tinha antes. Por isso, ele se sente melhor quando estabelece uma rotina para si mesmo. Assim, ele tem a sensação de que tem algum controle da própria vida. Quando ele é impedido de manter essa rotina, isso causa muita angústia e aumenta a sensação de descontrole”, diz.

Além disso, Maristela também lembra que muitos desses idosos moram sozinhos e não têm companhia dentro de casa. Sendo assim, buscam ir para a rua para conversar com pessoas diferentes e ter algum tipo de intenção com outros seres humanos. “Nós vemos casos de que ele sai para o mercado ou para a farmácia e nem precisa comprar nada. Mas ele vai mesmo assim para encontrar pessoas. Ele quer uma sensação de companhia”, afirma.

Sendo assim, a psicóloga explica que a família não conseguirá convencer o idoso de ficar em casa na base da imposição e da “bronca”. “Isso vai só potencializar a sensação de descontrole e de falta de autonomia. A gente tem o costume de olhar para o idoso como se ele fosse uma criança. Mas a gente precisa lembrar que o idoso é um adulto mais velho e que tem capacidade de entendimento”, explica.

A melhor forma de explicar para o idoso que ele não pode sair de casa, segundo Maristela, é informar. “As pessoas ficam com muito receio de explicar as coisas para os idosos. Mas é preciso explicar que ele é grupo de risco, que ele já tem doenças pré-existentes e que isso causa uma baixa na imunidade. É preciso dizer que a doença é desconhecida, mas nunca dando bronca ou diminuindo a pessoa como se ela não pudesse entender”, argumenta.

Outra orientação da especialista é que os mais jovens da família ajudem os idosos a programar uma rotina dentro de casa. “Para o idoso, é muito preciosa essa sensação de controle do tempo. Pode ser programada uma rotina de telefonemas, por exemplo, de vídeo chamadas com os outros membros da família”, sugere.

Dentro dessa nova rotina, Maristela afirma que é importante que também sejam incluídos exercícios físicos como alongamentos. “Um animal de estimação é outra forma de ajudar nesse período. Assim, ele se sente responsável por algum outro ser. Depois que os filhos crescem, os idosos querem sentir que podem cuidar de alguém e, nesse sentido, um pet pode ajudar bastante”, afirma.

Além disso, a psicóloga diz que é fundamental que o idoso sinta que a quarentena é um cuidado com ele e não uma restrição sem motivo. “É bom que os filhos garantam que os idosos estejam abastecidos, que se ofereçam para ir ao mercado e pergunte o que ele quer comer, quais as coisas que ele gosta. Mas tem que oferecer mesmo. Se não, eles não vão pedir”, diz.

Maristela lembra que muitos idosos podem desenvolver quadros de ansiedade e depressão durante esse período caso não sejam cuidados da melhor forma possível. Por isso, ela dá a sugestão de que os mais jovens da família proponham fazer uma lista de coisas que o idoso quer fazer quando tudo isso acabar. “Pode ser um passeio, uma viagem… isso vai dar uma esperança para ele e vai garantir que todo mundo está junto nessa situação”, recomenda.

Para também ajudar nesse momento difícil, Maristela sugere acompanhamento psicológico. Pensando nisso, ela e outros profissionais estão oferecendo um espaço de escuta para qualquer pessoa que queira conversar com um profissional nesse momento. Entrando no site https://www.relacoessimplificadas.com.br/escuta, a pessoa pode agendar uma conversa de 30 minutos com especialistas e desabafar quando quiser sem gastar nada.