Coronavírus: quais são os 'estragos' da doença na economia global

(Foto: Getty Images)

por Jaqueline Falcão

Todo país precisa de alguma matéria-prima que está na China. Assim, os impactos do Coronavírus vão muito além do território chinês. Há diversas repercussões que a queda e a interrupção dos fluxos econômicos chineses provocam ou ainda vão provocar ao redor do mundo.

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A China deve observar uma redução na taxa de crescimento no primeiro trimestre de 2020 de 6% para 4,5%. Para especialistas, o efeito sobre o PIB em 2020 poderá ser minimizado se houver rápida recuperação das atividades, quando o surto for contido, da mesma forma que ocorreu na ocasião do vírus SARS, no início da década passada. Mas a economia já começa a ser afetada.

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“Não dá para prever quanto o coronavírus deve levar do PIB mundial. No entanto, estimativas entre 0,1 ponto percentual e 0,5 ponto percentual  de queda no crescimento são números factíveis de serem projetados hoje. O estrago na economia internacional já foi feito”, afirma o especialista em economia mundial Ricardo Balistiero, coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia.

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A China é grande provedora de componentes e produtora de bens finais em muitas cadeias produtivas globais, como celulares, tablets, televisores, brinquedos, setores de informática, eletrônica, além de peças e partes para o setor automotivo e de insumos para a indústria farmacêutica.

Muitas companhias estavam estocadas com insumos e componentes provenientes da China por conta do feriado no Ano Novo Lunar, que normalmente representa uma parada de uma ou duas semanas na produção. Mas a continuidade forçada das “férias coletivas” do trabalho, da quarentena de Wuhan e outras cidades na província de Hubei, epicentro da contaminação, já causa muitos desabastecimentos.

“Assim, diversas empresas estão paralisando suas atividades na China, como a Foxconn, parceiro de produção da Apple, que não reabriu seu complexo. A Apple adiou o lançamento de seu novo Iphone e a produção de smartphones na China caiu 12% nesse trimestre”, descreve o economista Wilhelm Meiners,  professor de macroeconomia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

O coronavírus tem efeito devastador nas montadoras. “Também unidades produtivas fora da China estão parando, como as montadoras Nissan e Hyundai”, conta Meiners. A epidemia respinga ainda na indústria farmacêutica, que pouco a pouco sente o impacto.

“O estrago já foi feito, muitas empresas não conseguem cumprir meta de produção. Há carência de peças... E lá na China, sabemos que a volta do funcionamento das fábricas será de maneira escalonada. Isso pode demorar meses para regularizar, o que afeta a economia global como um todo”, diz o também economista Alessandro Azzoni.

Ele lembra que mesmo em empresas chinesas com mercadorias em estoque, a epidemia dificulta a realização de negócios que dependem de reuniões e viagens. “Não podemos mandar um representante comercial para fazer compras. Ele vai ficar em quarentena quando voltar. Assim como eles não podem vir para cá”, pontua Azzoni.

“A China é o motor do mundo. O FMI fez um cálculo preliminar do quanto o vírus pode afetar a economia global, só que ainda é superficial. Isso leva a um temor nos países emergentes de que os volumes de exportações diminuem. Enquanto isso, o dólar se fortalece frente às moedas desses países”, analisa o economista Cassiano Konig, assessor de investimentos da GT Capital.

Commodities

A China é a maior importadora mundial de diversas commodities energéticas, agrícolas e minerais. Assim, a diminuição das atividades na China e até fechamento de alguns fluxos comerciais repercutem na queda da demanda mundial. Por exemplo, pela primeira vez desde a crise de 2008, a demanda trimestral de petróleo deve cair 435 mil barris por dia no primeiro trimestre de 2020, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia.

“Isso repercute em queda de produção, serviços de transporte e preços internacionais, repercutindo em todas as regiões produtoras e exportadoras para a China. O preço no mercado internacional do Petróleo recuou perto de 15%, da soja em grão cerca de 5% e do minério de ferro pouco mais de 14%”, descreve Wilhelm Meiners.

Segundo a Associação  de Comércio Exterior do Brasil (AEB), 65% de tudo o que o país exporta são commodities. ”Se a atividade econômica do maior exportador mundial se contrai, o consumo de matéria-prima também se contrai. Se você tem uma demanda menor que a oferta, os preços caem. Devemos ter uma queda de preços e possivelmente de quantidade”, afirma o presidente da entidade, José Augusto de Castro.

Pedestres passam em frente ao painel eletrônico da Bolsa de Tóquio, no Japão, mostrando sucessivas quedas nas ações em decorrência do Coronavírus. (Foto: KAZUHIRO NOGI/AFP via Getty Images)

Os efeitos também serão sentidos sobre o turismo e a aviação civil. Segundo dados da Organização da Aviação Civil Internacional, o cancelamento de voos no primeiro trimestre deve reduzir o faturamento do setor em US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões, com perdas para o turismo que podem chegar a US$ 1,3 bilhão no Japão e US$ 1,15 bilhão na Tailândia. Impactos importantes também ocorrem nos Estados Unidos e em toda Europa. A venda de artigos de luxo na França despencou por conta da queda do turismo chinês a Paris.

Brasil

“O Brasil não vai passar ileso por isso, a economia será afetada. O coronavírus mexe com o mercado industrial. É uma crise grande que parece que está controlada, mas o estrago ainda está sendo processado”, pontua o economista Ricardo Balistiero, da Mauá.

As exportações de commodities do Brasil têm na China o principal cliente e serão afetadas pela queda da demanda chinesa e dos preços internacionais, como a soja, petróleo e minério de ferro. Em 2019, esses produtos responderam por 78% das vendas do país ao exterior.

“A China representou, neste ano, 21,8% das exportações brasileiras. Mas, especificamente, na composição da pauta de exportações do Brasil para a China, a soja representa 32,2%, petróleo 24,4%, e os minérios 22,7%, além das carnes - 7,1% - e papel & celulose, com 5,1%. Somente em janeiro de 2020, as exportações brasileiras para a China já haviam caído de US$ 3,8 para US$ 3,5 bilhões, comparado com o mesmo mês do ano passado”, detalha Wilhelm Meiners.

Observando o movimento médio diário das exportações brasileira nas duas semanas iniciais de fevereiro de 2020, contra a média diária de fevereiro de 2019, observa-se queda de 25,5% nas exportações de soja, 7,1% nas exportações de minérios, 5,7% nas exportações de papel e celulose.

“A China não consegue produzir nem circular as mercadorias”, diz Meiners. Segundo ele, Pequim e  Xangai, os principais “motores” da China estão quase parando e o efeito dominó de estagnação nas outras cidades será uma questão de tempo. Provavelmente, a China reduzirá o ritmo de compras dos produtos brasileiros, essencialmente commodities, pois não terá como escoar estes produtos. Por outro lado, também reduzirá as vendas de produtos manufaturados para o Brasil.

Importações brasileiras

Mas é a China também uma fonte de suprimentos e produtos manufaturados para diferentes setores da economia brasileira, representando 19,8% das importações do Brasil.

“Destacam-se equipamentos elétricos e eletrônicos (30,3%), máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos (14%), automóveis e autopeças (3,1%) e instrumentos óticos e de precisão (2,1%). 

Somente considerando os componentes utilizados pela indústria de componentes elétricos e eletrônicos, o Brasil importou da China US$ 7,5 bilhões, o que representa 42% das importações desses componentes pelo país. Nas duas primeiras semanas de fevereiro, o volume de importação desses produtos registrou queda de 13,6%, enquanto autopeças registrou recuo de 6,4%.

“Geralmente, a indústria brasileira que adquire produtos chineses possui uma média de estoque de 15 dias. Com a parada do Ano Novo Lunar, este estoque é preventivamente elevado. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica Eletrônica (ABINEE), com base em um levantamento junto ao setor, no início de fevereiro, indica que 52% das empresas do setor dependem de componentes da China e 22% delas podem paralisar suas atividades no início de março, se o comércio exterior não for retomado. “Em São Paulo, diversas empresas, como fabricantes de celulares, já diminuem seu ritmo de produção por falta de componentes”, afirma Wilhelm Meiners.

Para Tin Yueh Jen, responsável pelo setor de relacionamento e negócios com a China da consultoria Crowe Macro, ergue-se uma barreira comercial “invisível” entre Brasil e a China. “ Pedidos feitos anteriormente não vão chegar a tempo no Brasil, como tecidos, brinquedos, autopeças. A longo prazo, se demora mais que três meses para haver esse fluxo, pode haver um colapso. Tudo vai depender da capacidade do governo chinês de conseguir resolver isso rapidamente. Por enquanto, não há horizonte”, alerta Tin Yueh Jen.

Mais otimista, o professor de economia da FAAP Johnny Dilva Mendes acredita que "impacto (na economia brasileira) vai ter, mas não será gravemente”. A experiência adquirida com a epidemia da SARS no passado, bem como o acordo com os Estados Unidos, tornam a China um país mais preparado a se manter de pé.