Na tempestade perfeita do coronavírus, faltava só uma crise diplomática. Não falta mais

O deputado Eduardo Bolsonaro com o minsitro das Relações Exteriores Ernesto Araujo e o secretário-geral da Presidência Jorge Antonio de Oliveira Francisco. Foto: Adriano Machado/Reuters

No auge das mobilizações para conter a disseminação do novo coronavírus, tudo o que o Brasil não precisava era de uma crise diplomática com um parceiro estratégico. Entre tantos riscos, um deles era transformar a quarentena em isolamento geopolítico.

Faltou combinar com o deputado e ex-futuro embaixador em Washington Eduardo Bolsonaro, que foi às redes culpar a China pela pandemia. “Quem assistiu Chernobyl vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas q salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, postou Eduardo.

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Na noite de quarta-feira (18), o filho do presidente tomou um esfregão da Embaixada chinesa, que em seu perfil oficial no Twitter repudiou as declarações do parlamentar. 

“As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental que está infectando a amizade entre os nossos povos”, escreveu a embaixada.

“Lamentavelmente você é uma pessoa sem visão internacional, nem senso comum, sem conhecer a China, nem o mundo. Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio”, prosseguiu a embaixada.

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O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, exigiu que o deputado pedisse desculpas ao seu povo pelo “insulto maléfico contra a China”. “Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial”. O embaixador alertou também que as palavras do parlamentar vão ferir a relação amistosa entre os dois países.

O princípio de incêndio levou o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), a correr paras as redes na madrugada e pedir desculpas pelas palavras do colega parlamentar. 

Um ano e três meses após a posse do pai, Eduardo Bolsonaro parece não ter entendido que já não é mais um deputado do baixo clero que fala no Twitter como se cantasse no banheiro: é, como se presume, um parlamentar em linha direta com o chefe do Executivo, e seu representante no Parlamento em assuntos internacionais. A ponto de a embaixada dos EUA ser, durante um tempo, um sonho de consumo como quem espera ganhar uma bicicleta do pai no Natal.

Por este motivo a resposta foi tão dura e as consequências, imprevisíveis. No ano passado, China, Hong Kong e Macau foram os principais compradores de produtos brasileiros, movimentando US$ 65,389 bilhões -- mais que o dobro das vendas para os EUA (US$ 29,556 milhões).

O posicionamento do deputado não são palavras ao vento. São motivos de apreensão para produtores de soja, petróleo, milho, celulose e proteína animal, que em meio à crise econômica que se avizinha podem ver as portas fechadas com seu maior parceiro comercial em razão da inconsequência da família presidencial.

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