Coronavírus: Brasileiros presos no Peru reclamam de voos mandados pelo governo: “De humanitário não tem nada”

Brasileiros fizeram fila para entrar no aeroporto de Cusco, no Peru. Nem todos conseguiram voo para Lima. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na última sexta-feira, 20, o Itamaraty divulgou uma lista com nomes de 323 brasileiros que estavam presos no Peru e poderiam voltariam ao país. Dois voos saíram de Lima e chegaram a São Paulo, um da Latam e outro da Gol.

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A medida foi tomada porque no dia 15 de março o Peru fechou as fronteiras e os voos saindo da capital peruano foram cancelados.

No entanto, nem todos os brasileiros que estão no país foram incluídos na ação do governo. É o caso de Karina Lipinski. Ela e o marido viajaram a turismo e chegaram ao Peru no dia 11, ficaram um período em Lima e foram para Cusco, onde estão até agora. A passagem do casal para voltar à capital peruana era pela Latam, já para voltar para Joinville, Santa Catarina, onde vivem, pela Gol.

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Os nomes deles apareceram em uma lista preliminar da Latam, divulgada pela embaixada brasileira, mas, ao chegarem no aeroporto de Cusco, não foram colocados em nenhum voo de volta a Lima. “Fomos até o aeroporto, a polícia e o exército nos levaram, porém, chegando lá, eles levaram apenas os clientes Latam”, relata.

“Nós estamos em contato com a embaixada, mas eles realmente não estão conseguindo nos ajudar. Eles disseram que seriam voos humanitário, ou seja, não teria escolha entre de qual companhia você é, mas trazer toda estrutura necessária para nos levar de volta ao Brasil, e não é isso que está acontecendo. De voo humanitário não tem nada, é apenas uma tratativa comercial”, afirma Karina.

A brasileira relata que, como resposta, a embaixada do Brasil no Peru justificou que a Latam não honrou a lista feita por eles, mas uma feita pela empresa.

O casal estava em um Airbnb em Cusco e fez checkout para ir ao aeroporto, na esperança de que conseguiriam chegar a Lima. Depois da negativa, se hospedaram em um hostel, onde estão desde então.

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Brisa Andrade, mineira que mora em Lima há dois anos, também não vê os voos que foram feitos na última sexta-feira como de ordem “humanitária”. Ela estava fazendo um mestrado no país e voltaria em março. Por não ter passagem de volta – que seria comprada ainda neste mês - não recebeu qualquer tipo de ajuda para retornar ao Brasil.

“Quando eu decidi voltar e comprar passagem, o presidente lançou o decreto que fechou as fronteiras”, conta. “Então, eu fiquei impossibilitada de voltar. Estou aqui sem família, o dinheiro é escasso, as condições emocionais e psicológicas começam a afetar.”

Brisa saiu do apartamento onde vive para ir a embaixada duas vezes. A resposta que recebeu é que a situação dela “está em segundo plano”. A preferência era para quem já tinha passagens compradas. “Num voo humanitário, não aconteceria isso, eu chamo de voo comercial”, opina.

Quando foi a embaixada, Brisa foi recebida apenas por um segurança do local. Lá, ela conheceu motociclistas, cuja situação é bastante complicada: eles entraram por via terrestre e não tem nenhuma perspectiva de sair do Peru.

AVIANCA

Os brasileiros que estão no país se comunicam por grupos de Whatsapp. Tanto Brisa quanto Karina reforçam que a pior situação é dos passageiros que compraram passagens pela Avianca. “Estou com pena, o pessoal está muito desesperado. Eles não estão prestando nenhuma ajuda, parece que já saiu nota que não poderão sair para resgatar ninguém”, relata Brisa.

É o caso de Jacyara de Barros. Ela comprou as passagens pelo site Decolar e os voos eram operados pela Avianca. A brasileira tentou entrar em contato com a companhia, mas não recebeu nenhum tipo de retorno. “O governo (do Peru), na verdade, só está viabilizando da Latam e da Gol aqui para buscar seus passageiros”, afirma. “Estamos sem nenhuma esperança nesse momento.”

Ao tentar contato com o site Decolar, ela recebeu um retorno de que não seria realocada ou receberia reembolso.

No caso de José Weckley Cavalvante, ele ainda teve esperanças de voltar. Ele está em Cusco e recebeu um email da embaixada brasileira. Como Karina, ele se apresentou no aeroporto, ficou quatro horas esperando na rua, esperando ter o nome chamado.

“Ao contrário do que o governo anunciou cantando vitória na mídia, o voo não era humanitário, sendo que só embarcou os passageiros da própria Latam... Os que aqui chegaram de outras companhias aéreas ficaram”, afirma. As passagens dele também eram da Avianca.

CASO DE SUCESSO

Danielle Bustamante está entre os brasileiros que conseguiram voltar na última sexta-feira. O nome dela estava na lista dos que seriam repatriados. “Fui até a embaixada e tinha duas filas: uma de Gol e uma de Latam. Lá, tinham ônibus para ir até o aeroporto. Pelo que pude contar, eram 12 ônibus”, conta.

Para fazer o check-in, foram quase duas horas de espera. Depois, Danielle foi ao portão de embarque, onde esperou o voo. Algo que chamou atenção da brasileira é que havia classe executiva no avião – que voltou vazia. “Cabia pelo menos mais umas 30 pessoas. Não sei se foi uma medida de cautela para a tripulação, mas acho que dava para ter tirado mais gente de lá na hora”, opina.

Para Danielle, o processo foi organizado, apesar de demorado. O voo foi igual a um comercial normal.

A chegada no aeroporto de Guarulho, em São Paulo, deixou Danielle impressionada, mas de modo negativo: não houve nenhum tipo de controle médico, formulário, nada. “Acredito que estava mais segura no Peru que no Brasil, as medidas eram mais restritivas e as pessoas obedeciam mais”, afirma.