Coronavírus: Bolsonaro trava guerra política com governadores no combate à pandemia

Bolsonaro e Mandetta participam de teleconferência com prefeitos (Foto: Isac Nóbrega/PR)

A crise do coronavírus abriu uma nova frente de disputa no Palácio do Planalto. Se até duas semanas atrás, o foco das críticas do presidente Jair Bolsonaro era o Congresso, agora a artilharia aponta para os governadores.

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Bolsonaro tem repetido publicamente queixas sobre os governadores, especialmente os de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

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Em entrevista à CNN, na manhã desta segunda-feira (23), o presidente voltou a criticar governadores que estão fazendo medidas mais drásticas, como determinar quarentena de determinados serviços.

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“Empregos estão sendo exterminados, em especial aqueles que vivem da informalidade. Essas pessoas não têm como sobreviver mais de três ou quatro dias sem o seu sustento”, disse.

Ele afirmou que “algumas autoridades estão ministrando remédios em excesso”, o que pode levar ao desemprego. 

“Como não temos como evitar o vírus, estamos apenas tentando alonga a curva da contaminação. Estamos fazendo o possível, não dá para ir além”, disse.

Bolsonaro já havia criticado os governadores em entrevista à TV Record na noite de domingo (22), ao afirmar que a população descobrirá em breve que foi enganada pelos governadores de estados e pela imprensa na crise causada pela pandemia do novo coronavírus. 

Ele repetiu as declarações de que existe exagero nas medidas de combate à Covid-19, doença causada pelo vírus. 

Em sua fala, negou que tenha atacado governadores, mas que é atacado por eles constantemente.

“Você não me vê atacando nenhum governador, nenhum, zero. Eles que me atacam constantemente, fogem de sua responsabilidade e atacam o governo federal”, disse, ignorando a pergunta sobre ter chamado Doria de “lunático”.

Bolsonaro também acusou os chefes dos Executivos estaduais de “exterminarem” empregos. O presidente disse que os impactos de medidas restritivas adotadas por governos estaduais sobre os empregos será maior do que o que a Covid-19 terá no país.

“Calma, tranquilidade, não levar pânico à população. Não exterminar empregos, senhores governadores. Sejam responsáveis. Espero que não queiram me culpar lá na frente pela quantidade de milhões e milhões de desempregados”, afirmou.

Além disso, voltou a minimizar a crise do Covid-19, prevendo que o número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil será menor do que as 800 causadas no ano passado no país pela gripe H1N1.

“LUNÁTICO”

No sábado, Bolsonaro criticou o governador de São Paulo por ter decretado quarentena por 15 dias no estado como medida de combate à pandemia, com o fechamento obrigatório de comércios, bares e restaurantes a partir da próxima terça-feira (24).

“É um lunático. Está fazendo política em cima deste caso. É um governador que nega ter usado o meu nome para se eleger governador, então eu lamento essa posição política dele, está se aproveitando deste momento para crescer politicamente”.

Na campanha, o tucano declarou apoio e fez campanha para Bolsonaro no segundo turno da disputa presidencial de 2018, chegando a usar o termo “BolsoDoria”.

PESQUISAS

O crescimento político dos governadores pode ser percebido em pesquisa realizada pelo Datafolha e divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo. O trabalho deles foi avaliado como ótimo ou bom por 54% dos entrevistados, enquanto que Bolsonaro tem sua gestão da pandemia aprovada por 35%.

Até o Ministério da Saúde é mais bem avaliado que o presidente: 55% aprovam o trabalho da pasta de Luiz Henrique Mandetta.

Ao contrário do que defende Bolsonaro, a pesquisa revela ainda que 73% dos brasileiros aprovam o isolamento forçado em casa, 67% apoiam a suspensão das atividades do comércio, 92% a suspensão de aulas, 94% a proibição de viagens internacionais, 91% a interrupção dos campeonatos de futebol e 82% das cerimônias religiosas.

AÇÕES INDIVIDUAIS

O  presidente e o ministro da Saúde criticaram na sexta-feira (20) ações individuais adotadas nos estados para conter o avanço do novo coronavírus, como o fechamento de estradas e aeroportos implementado pelo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel.

Segundo eles, essas iniciativas feitas sem coordenação com o governo federal podem agravar a crise provocada pela doença.

Sem citar o nome de Witzel, Mandetta disse que o fechamento de estradas por um governador impactou, por exemplo, o transporte de insumo para uma indústria de oxigênio, produto fundamental para tratar os casos mais graves de Covid-19.

“Teve um estado do Brasil que só faltou o governador declarar independência do mesmo”, criticou Bolsonaro, referindo-se a Witzel, em entrevista coletiva com a imprensa.

CONTRA-ATAQUE

Em mais uma ação na queda de braço contra os governadores, Bolsonaro editou uma medida provisória que estabelece como competência federal, e não dos estados, o fechamento de aeroportos e rodovias.

Ele assinou também um decreto que determina quais serviços não poderão ser interrompidos, durante o período de combate ao novo coronavírus. De acordo com texto, a ação presidencial tem o objetivo de dar segurança aos serviços públicos e atividades essenciais consideradas indispensáveis ao atendimento da população neste momento.

Enquanto o presidente defende que a atividade econômica não deve ser interrompida mesmo diante de um grande risco de contágio, os governadores têm anunciado medidas de prevenção, como a interrupção de serviços não essenciais.

CRÍTICA DOS GOVERNADORES

A troca de farpas antecipa uma possível disputa eleitoral de 2022 entre Jair Bolsonaro e João Doria.

Após a entrevista do presidente, Doria publicou nas redes sociais: “Jair Bolsonaro chama coronavírus de gripezinha e eu que sou lunático? Lidere seu país, presidente. Faça o seu papel. Os governadores do Brasil estão fazendo o seu”.

Pouco antes, no sábado (21), durante entrevista coletiva, Doria ressaltou que “gostaria de ter um presidente que liderasse o país em uma crise como essa, e não minimizasse problemas e dissesse que coronavírus é uma `gripezinha’.

“Muito triste que não tenhamos no país uma liderança em condições de orientar e acalmar os brasileiros, tomando as atitudes corretas”, disse. “Na ausência dessa liderança, governadores e prefeitos estão cumprindo sua obrigação e fazendo aquilo que precisa ser feito e o presidente Bolsonaro não consegue fazer”, acrescentou.

Já Witzel havia dito na sexta-feira (20) que o governo federal estava “em passo de tartaruga”. 

“São os nossos hospitais que serão impactados, e o governo federal anda em passo de tartaruga. Só fiz decreto para que o governo tome ciência das medidas que precisam ser adotadas e, de uma vez, acorde”, disse o governador do Rio de Janeiro. 

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), também criticou, nas redes sociais, a medida provisória do governo federal que impede o controle de passageiros nos aeroportos pelos governos dos estados.

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), por sua vez, desafiou Bolsonaro e disse que vai manter barreiras nas estradas do estado. “É preciso que o governo federal cuide da vida das pessoas. Não queremos ver no Brasil as cenas que estamos vendo na Itália”.

CONCILIAÇÃO

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reconheceu e elogiou o trabalho dos governadores, mas conclamou os dois lados a atuarem de forma conjunta. 

Maia disse que todos os entes federados devem ajudar na solução da crise e que o conflito recente entre o Executivo federal e os estados não é bom para resolver os problemas.

“Todos precisam deixar o debate eleitoral para o momento adequado, então temos que estar unidos e não deixar que política nos contamine porque isso não vai levar a gente pra lugar nenhum”, criticou.