Corona: como um vírus destruiu um supermarço de shows

McFly tocaria em cinco Estados.

O showbusiness tem vários percalços. Há inimigos sempre. O principal, para produções envolvendo artistas internacionais, é o dólar alto, ocorrência que atinge o país de tempos em tempos. Dificuldades técnicas, falta de espaços adequados também são fatores impeditivos, às vezes. Mas pela primeira vez na história o setor encarou um vilão tão destruidor. O coronavírus chegou com força no início do mês e acabou com o que seria um supermarço de shows.

Março de 2020 tinha uma agenda de shows internacionais digna de grandes cidades do Primeiro Mundo, principalmente em capitais como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro. Sob tensão, o calendário foi mantido durante quase duas semanas, até que o perigo de uma maior proliferação do corona fechou portas para o vírus e para o público.

O Maroon 5 acabou sendo o último artista a fazer uma grande turnê completa no Brasil. O show em São Paulo, no dia 1º de março, aconteceu com ingressos esgotados no Allianz Parque (capacidade: 42 mil pessoas).

A partir daí teve início uma série de cancelamentos ou adiamentos. No fim de semana seguinte, já com o coronavírus dominando as manchetes do mundo todo, o festival GRLS!, só com cantoras e bandas femininas, tomou o Memorial da America Latina após duas desistências. Perrie Edwards, uma das integrantes do Little MIx, desistiu de vir com o grupo, que ainda assim fez o show sem ela; e a cantora Tierra Whack também pulou fora quase na última hora, sendo substituída por Ludmilla.

Enquanto shows menores iam acontecendo normalmente,.como o de Martin Barre, ex-guitarrista do Jethro Tull, autoridades já planejavam medidas para conter o avanço da contaminação. 

A semana seguinte foi a última em que o showbusiness conseguiu se manter. Já com orientação para que apenas eventos para um número não tão grande de pessoas (500, no máximo) fossem realizados em São Paulo, aconteceram shows importantes em unidades do Sesc, como o festival Nublu (com John Cale, Femi Kuti e outros) e a apresentação da veterana e influente banda de ska The Toasters.

O sábado ainda teve The Hellacopters em São Paulo, mas o domingo, 15 de março, marcou a despedida dos shows e a destruição final do supermarço. O Backstreet Boys, que se apresentaria no Allianz, teve a performance cancelada na noite anterior, menos de 24 horas após ter feito show no Rio, que por pouco também não caiu. Foram mantidos, na data, Between the Buried and Me, no Fabrique; e o festival Overload Beer Fest, com a banda punk D.R.I. como atração principal - este com devolução remunerada do valor do ingresso, para quem desistiu.

E acabou. O corona venceu. Derrubou toda a turnê do McFly (sete shows em cinco Estados); e o retorno do Offspring, que faria quatro apresentações. Também impediu a primeira vinda de Sammy Hagar ao Brasil. O cantor, ex-vocalista do Van Halen, está com 72 anos. Caíram ainda, entre outros, Tokio Hotel, Lindsey Stirling e os artistas de k-pop Eric Nam e VAV.

Teoricamente, a maior parte desse time do supermarço vai remarcar sua vinda - alguns já remarcaram - depois que a tempestade viral passar, mas o estrago já está feito de tal forma que o próprio setor já teme por sua sobrevivência financeira pós-caos.