Corona blues: como superar o sentimento de cansaço e desmotivação da pandemia

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Corona blues: o sentimento de cansaço e desmotivação virou onda a ser superada (Arte: FerIlustra/Yahoo Brasil)
Corona blues: o sentimento de cansaço e desmotivação virou onda a ser superada (Arte: FerIlustra/Yahoo Brasil)

Os sul-coreanos chamaram de “corona blues” o sentimento de estresse e depressão causado pela pandemia de coronavírus. Os norte-americanos falam em “pandemic fine” para explicar quando uma pessoa não tem problemas de saúde ou na vida em geral, mas tem o sentimento constante de que tudo vai mal. A OMS (Organização Mundial da Saúde) escolheu o nome de fadiga pandêmica. Os termos se multiplicam para tentar caracterizar uma sensação difusa de tristeza, cansaço e desesperança experimentada nesta crise sanitária que se alonga por mais de um ano.

“É um sentimento coletivo de incerteza, de cansaço por estar há um ano com restrições, de frustração, de luto coletivo, de tristeza ou angústia por problemas materiais, perda de emprego”, lista a psicóloga Jaqueline Giordani, pesquisadora do Núcleo de Estudos em Avaliação Psicológica e Psicopatologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). O texto faz parte do projeto editorial do Yahoo! "Segurando a Onda".

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Não se trata de um diagnóstico, mas de vivência de sentimentos negativos que não vão necessariamente levar a outros quadros, como depressão.

Em uma pesquisa feita pela Fiocruz em parceria com a Unicamp e a UFMG com mais de 45 mil brasileiros, 35,2% dos adultos entrevistados disseram se sentir muitas vezes tristes ou deprimidos e 41,3% relataram se sentir muitas vezes ansiosos ou nervosos.

Atravessando a maior crise sanitária dos últimos cem anos em um país em que diariamente são registradas mais de 3 mil mortes de uma única doença, é possível não sentir tristeza?

O sofrimento psíquico de uma pessoa nunca está desligado do que ela vive socialmente. Passar coletivamente por um momento de crise —com isolamento, incerteza e caos econômico— tem consequências para a saúde mental de todos.

“No caso da pandemia, a gente tem processos vivenciados socialmente que são negativos do ponto de vista da saúde mental por gerarem expectativas negativas, mostrarem o sofrimento do outro, gerarem o luto coletivo”, sublinha Elder Cerqueira, psicólogo e professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe). “E isso é um processo dinâmico, em uma semana eu estou bem, e na outra isso me afeta e eu não consigo fazer nada, e não entendo o por quê. Isso tem que ser entendido por nós como uma dinâmica esperada, não é normalizar ou banalizar, mas é esperado”, explica Cerqueira.

O amanhã que não chega

Não podemos só sobreviver (Arte: Ferilustra/Yahoo Brasil)
Não podemos só sobreviver (Arte: Ferilustra/Yahoo Brasil)

Entre as pessoas que têm expressado dificuldades no cotidiano, os psicólogos destacam aquelas que estão desde o início da pandemia esperando seu fim e a conclusão para realizar seus desejos.

“A expectativa de que teria um final, de que poderia voltar a fazer as mesmas coisas, de que depois disso voltaria a ver os amigos, viajar, causa enorme frustração”, diz Jaqueline Giordani. Quem conseguiu absorver a ruptura de hábitos e criar objetivos adaptados a essa realidade parece lidar melhor psicologicamente com o momento.

Mas ninguém está lidando completamente bem, enfatiza a psicóloga, é “uma situação psicoemocional caótica que estamos vivendo”.

Solidão por falta de empatia

Para Cerqueira, há um ambiente de adoecimento criado coletivamente na sociedade brasileira que não tem a ver apenas com o coronavírus. “Esse ambiente de tensão tem a ver com tudo o que foi exacerbado com a pandemia, a situação econômica do país, a situação política do país. Não é apenas um sofrimento mental, mas é um sofrimento político e ético”, diz.

Isso se expressa nas relações pessoais, com conflitos entre pessoas do trabalho, da família ou mesmo entre desconhecidos.

“Temos ouvido com muita frequência o discurso de que as pessoas não confiam no outro, da traição, de pessoas desonestas, a sensação de não ser compreendido, de estar sozinha, de lutar contra a maré. E isso acumula com as questões próprias da pandemia e aumenta o estresse das pessoas e o sentimento de isolamento”, avalia o professor da UFS.

Um levantamento feito pela Ipsos entre dezembro e janeiro de 2021 apontou que os brasileiros eram a população que mais expressava o sentimento de solidão em um ranking de 28 países. No Brasil, 50% dos entrevistados afirmaram sentir solidão "muitas vezes", "frequentemente" ou "sempre" e para 52% afirmara que o sentimento piorou durante a pandemia. Enquanto em países como a Holanda, a mesma sensação foi relatada por 15% dos entrevistados.

A solidão não é necessariamente fruto do isolamento, mas também da formação de bolhas sociais polarizadas e redução da empatia, considera o professor da UFS. 

As coisas negativas acabam fazendo que as pessoas apontem e julguem muito mais o outro, em vez de tentar compreender, ter empatia ou buscar diálogos possíveis. É um processo em que eu me isolo e não consigo compartilhar mais com o outro

Cansaço e falta de eficácia

Se há o isolamento simbólico, há também um sentimento difuso de desilusão consigo mesmo devido a uma pretensa falta de eficácia ou de produtividade.

Autor do livro “A sociedade do cansaço” (Editora Vozes), o filósofo alemão de origem sul-coreana, Byung-Chul Han, chama a atenção para os problemas de uma sociedade que exige performance o tempo todo, no trabalho, na vida afetiva, nas relações sociais, na família.

Han afirma, em uma coluna publicada no jornal espanhol El País em março, que a pandemia é um espelho que “ressalta sintomas de que a sociedade sofria antes mesmo da pandemia”.

Visto dessa maneira, o sentimento de cansaço e de falta de eficácia está ligado a uma expectativa exagerada ou deslocada sobre si mesmo criado por um indivíduo que, nas palavras de Han, é “ao mesmo tempo seu próprio senhor e seu escravo”.

O cenário parece aterrador, mas perceber o papel das ações de cada um para o quadro mostra que ele pode ser alterado.

“Precisamos tentar manter relações benéficas com os outros, mesmo que seja difícil. Por exemplo, se moro com outras pessoas, manter uma atividade coletiva que é de suporte para o contato entre todos, que pode ser assistir a um filme juntos ou de fazer algo reunidos. Se mora sozinho, frequentemente contatar um familiar ou um amigo e interagir. Se está se sentindo pouco útil, rever objetivos e colocar metas de curto prazo que sejam alcançáveis. Pegar sol mesmo que seja na janela, ver a natureza”, assinala Jaqueline Giordani. 

“E também saber que não estar bem todo dia é esperado, há dias que são melhores, em que conseguimos encontrar razões de satisfação, e outros que são mais difíceis. O importante é ter esse ciclo.”

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