'Coringa' é polêmico porque faz uma ótima representação da realidade

Joaquin Phoenix em 'Coringa' (Foto: Warner Bros/Divulgação)

Por Thiago Ney

**Contém spoiler

As primeiras vítimas fatais do Coringa são três caras que vestem terno, trabalham em uma grande empresa, são fortes fisicamente e, bêbados, fazem bullying com uma mulher em um vagão de trem do metrô de Gotham City.

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Sentado no mesmo vagão vazio e sujo, vestido e maquiado como um palhaço, Arthur Fleck não consegue segurar a risada irritante e medonha e chama a atenção dos três caras. E vira o alvo do bullying. Fleck/Coringa é agredido violentamente. Caído, saca um revólver e mata a tiros os três caras.

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A cena não apenas sintetiza o discurso dos 122 minutos de “Coringa”, como ajuda a entender por que este filme dirigido por Todd Phillips e estrelado por Joaquin Phoenix é acusado de normalizar e justificar (e, de certa maneira, glamourizar) as ações de homens jovens (e majoritariamente brancos) que se sentem excluídos e maltratados pela sociedade e que exteriorizam as frustrações com uma violência que acham adequada.

O Coringa, para muitos críticos do filme, representaria gente como os incels (celibatários involuntários) que ofendem e agridem mulheres e os atiradores/terroristas que protagonizam massacres em escolas, igrejas e outros lugares. E como o ponto de vista do filme é o do Coringa e as motivações do personagem principal são explicadas, o filme, então, legitimaria esses incels/atiradores.

Mas o que faz de ‘Coringa' um grande filme e não um produto que isenta comportamentos e atitudes repugnantes é o fato de não glorificar os atos e nem o mundo proposto pelo Coringa. Porque o mundo que ele propõe é o do olho por olho, dente por dente; é o caos e a anarquia; é substituir a razão e a conciliação pelo ódio e pela destruição. Quem com um mínimo de sanidade mental quer viver nesse mundo?

Joaquin Phoenix em 'Coringa' (Foto: Warner Bros/Divulgação)

Talvez uma das características do filme que o fazem gerar tanta antipatia, mas que, para mim, é um de seus maiores acertos, é não abrir espaço para mocinhos. Ninguém ali é santo. Thomas Wayne (pai de Bruce Wayne, o Batman) é um bilionário sem escrúpulos (personifica o 1% mais rico); Murray Franklin (interpretado por Robert De Niro) adora tirar sarro de gente desfavorecida; nem a própria mãe de Arthur se salva.

Os únicos inocentes em ‘Coringa' são Bruce Wayne (ainda criança), o anão que trabalha na mesma empresa de Arthur (e que também é vítima de bullying) e a vizinha por quem Arthur tem uma queda. E só.

O Coringa pode ter sido humanizado no filme de Todd Phillips (e foi mesmo), mas, mesmo sem a presença do Batman e mesmo em um mundo dominado por poucos ricos, por gente inescrupulosa e em meio a uma escassez de empatia, ele não deixa de ser o vilão. A sociedade está doente, mas a cura não é o Coringa.

Se 'Coringa' gera tanta polêmica é justamente porque faz uma ótima representação alegórica da realidade. Achar que 'Coringa’ vai estimular a violência é como acreditar que 'Psicopata Americano’ (2000) incentivou executivos ricos e entediados a mutilar mulheres ao som de ‘Hip to be Square’, do Huey Lewis and the News.