Copa do Mundo promove encontro de países com histórico de guerras e tensões

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, enviou no começo do mês carta aos dirigentes das 32 seleções que disputarão a Copa do Mundo no Catar pedindo que “batalhas ideológicas ou políticas” não entrem em campo durante a competição. Alguns impasses geopolíticos, porém, dificilmente serão esquecidos quando as seleções estiverem perfiladas para subir ao gramado lado a lado. Será assim no confronto entre Irã e Estados Unidos, que jogam nesta terça-feira, às 16h, no Estádio Al Thumama, em Doha.

Uma das partidas que têm como pano de fundo questões que vão muito além do futebol foi realizada também no Mundial anterior, na Rússia, entre Suíça e Sérvia — ambas integrantes do grupo do Brasil. O GLOBO explica abaixo esse e outros impasses que opõem seleções que se enfrentarão na fase de grupos da Copa.

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Portugal x Gana (24/11)

Portugal venceu Gana por 3 a 2 na estreia deste Mundial. Os dois países têm um histórico marcado pelos horrores do tráfico negreiro iniciado no século 15. Em 1482, pouco antes do descobrimento do Brasil, os portugueses construíram o castelo de São Jorge da Mina onde hoje está localizada a cidade de Elmina, em Gana, na costa ocidental da África. A fortificação foi um dos principais centros de tráfico de escravos, que se acumulavam aos milhares nos porões do castelo à espera dos navios que os levariam para a América. Em 1637, os holandeses assumiram o controle do castelo de Elmina. O local hoje é reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco.

Irã x Estados Unidos (29/11)

Iranianos e americanos atravessam décadas de tensões, tendo cortado relações diplomáticas em 1979, quando a embaixada dos Estados Unidos em Teerã foi invadida por um grupo armado. O episódio desencadeou uma série de sanções econômicas por parte dos americanos, mais adiante renovadas por acusações de que o Irã estaria utilizando tecnologia nuclear para fins militares. As restrições só cessaram em 2015, quando um acordo costurado com a participação do governo brasileiro trouxe garantias sobre o programa nuclear iraniano. Sob o governo de Donald Trump, porém, os Estados Unidos deixaram o acordo em 2018, passando a impor novas sanções a Teerã sob a alegação de que os iranianos teriam descumprido o combinado.

As seleções de Estados Unidos e Irã já se enfrentaram em uma Copa do Mundo, em 1998, na França. Na ocasião, o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, proibiu os jogadores da seleção de caminharem em direção aos americanos para cumprimentá-los no cerimonial pré-jogo, o que obrigou que os atletas dos Estados Unidos fizessem esse gesto. Num gesto de paz, os iranianos entregaram flores brancas aos adversários antes da partida e ambas as equipes posaram para uma foto juntas antes de a bola rolar. O jogo terminou com vitória do Irã por 2 a 1, a primeira da história da seleção asiática em um Mundial.

País de Gales x Inglaterra (29/11)

Ingleses e galeses estiveram em guerra entre 1277 e 1283. Foi nesse período que o rei Eduardo I invadiu o país vizinho a oeste da ilha da Grã-Bretanha e derrotou o último príncipe independente de Gales, que passou a integrar o Reino Unido. Curiosamente, a seleção hoje liderada por Gareth Bale se classificou para a Copa do Catar ao derrotar um país que atualmente está em guerra, a Ucrânia, na repescagem para o Mundial.

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Tunísia x França (30/11)

Os franceses ocuparam a Tunísia de 1881 a 1956, período em que o país do norte africano foi oficialmente considerado um “protetorado” da França, quando na prática servia como uma colônia dos europeus. Movimentos independentistas tunisianos foram sufocados ao longo do início do século 20, até que a independência do país foi reconhecida alguns anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Sérvia x Suíça (02/12)

As seleções de Sérvia e Suíça se enfrentaram na Copa do Mundo de 2018, na Rússia. Na ocasião, a vitória suíça pelo placar de 2 a 1 foi construída com gols de dois jogadores de origem albanesa: Xherdan Shaqiri e Granit Xhaka. Nas comemorações, os atletas fizeram gestos que remetem à águia de duas cabeças estampada na bandeira da Albânia. Trata-se de uma sinalização de apoio à independência do Kosovo, não reconhecida pelos sérvios, que tem a maioria de sua população formada por pessoas de origem albanesa.