Tecidos de cânhamo: aumenta interesse por roupas à base de cannabis

Plantas de canabidiol em fazenda (Foto: LOIC VENANCE/AFP via Getty Images)
Plantas de canabidiol em fazenda (Foto: LOIC VENANCE/AFP via Getty Images)

Enquanto a legalização da maconha, mesmo que apenas para fins medicinais, ainda enfrenta tabu e avança a curtos passos no Brasil, um outro assunto vem ganhando espaço no plano de fundo dessa polêmica discussão: o uso do cânhamo na produção de roupas.

Obtido a partir da Cannabis Sativa, mesma espécie de planta da maconha, o cânhamo tem se mostrado uma matéria-prima promissora para a indústria da moda. Embora compartilhem a mesma família, as duas subespécies são bioquimicamente distintas e têm propriedades diferentes: enquanto na maconha os níveis de THC (tetrahidrocanabidiol), substância que lhe confere efeitos psicotrópicos, são maiores que 10%, no cânhamo a concentração é inferior a 0,3%. Ou seja, diferente da maconha, o cânhamo não é uma planta psicoativa.

Se por um lado, o cânhamo não apresenta propriedades atrativas para uso recreativo ou farmacêutico, por outro lado sua utilização na fabricação de têxteis é extremamente oportuna. Seus benefícios vão desde o cultivo até o produto final.

Para se ter uma ideia, o plantio do cânhamo produz mais fibras por hectare que o algodão, principal matéria-prima usada na fabricação de roupas no país. Além de mais produtivas, as plantações de cânhamo também não requerem o uso de agrotóxicos, devido a sua alta resistência natural a pragas. E as vantagens não param por aí: seu cultivo requer menos água que o algodão e o linho e o crescimento da planta se beneficiam de climas quentes, como o do Brasil.

O processo de fiação e tecelagem também consome menor energia e o tecido pronto é mais resistente e durável que os demais tecidos naturais, além de hipoalergênico. Em outras palavras, o cânhamo é comprovadamente mais sustentável, em vários aspectos, que as demais matérias-primas utilizadas atualmente na produção de roupas.

Em termos de conforto, o tecido tem suas desvantagens. Isso porque é menos maleável que os convencionais. Para aliviar o caimento rígido e o toque rústico, adicionar outras fibras naturais, como as de algodão, linho e até seda, é uma prática comum no processo de fabricação.

Algumas grandes marcas já aderiram à fibra. Entre elas, a norte-americana Levi’s, que desde 2013 vem incorporando a matéria-prima em algumas de suas peças. No Brasil, porém, o uso do cânhamo enfrenta algumas barreiras legais. Não existe legislação nem regulação específica sobre a utilização e comercialização de produtos que contenham cânhamo em sua composição, o que torna o assunto nebuloso em relação ao que é lícito e o que não é.

O cultivo da planta, por sua vez, é proibido por lei, assim como é o caso da maconha. Dessa forma, a importação da fibra é a única saída, mas isso aumenta os custos de produção e torna o preço final menos competitivo. Por isso, o cânhamo é tão pouco popular no Brasil e ainda há um longo caminho pela frente até que se possa aproveitar todos os seus benefícios.

Um pouco de história

Embora pareça inovador, o uso do cânhamo na produção de têxteis é mais antigo que o do algodão. Existem registros de sua utilização na época das grandes navegações, em cordas e velas de embarcações. O tecido também foi usado em telas de pintores renomados como Van Gogh e Rembrandt. No vestuário, o cânhamo foi amplamente empregado no passado, inclusive nos uniformes dos militares americanos durante a Segunda Guerra Mundial.