Como é conviver com alguém extremamente controlador

Como é conviver com alguém extremamente controlador

“Violência doméstica” é um termo assustador. É algo que acontece em histórias que vemos nos jornais, em livros, filmes e novelas. Envolve homens irritados erguendo seus punhos diante de mulheres indefesas. Há hematomas escondidos, desculpas para cancelar os planos de sair de casa. A violência doméstica não é algo que acontece com mulheres inteligentes e bem-sucedidas. Não é algo perpetuado por homens amáveis e carismáticos. Não é algo que pode acontecer com você. Não é algo que pode acontecer comigo. Mas na verdade, pode sim. Pode acontecer comigo, com você, com qualquer um.

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O tipo de violência doméstica que eu enfrentei, com o qual convivi e ao qual sobrevivi por quase uma década, não me deixou com ossos quebrados ou hematomas que precisassem ser escondidos. No entanto, as cicatrizes emocionais são tão profundas que talvez jamais se curem. A ansiedade pós-trauma que tomou conta de mim provavelmente vai me afetar pelo resto da minha vida. Ela vai surgir sorrateiramente em relacionamentos futuros. Ela vai exigir que eu aborde a minha rotina de autocuidado com um respeito e uma regularidade necessários para o tratamento de uma doença que ameaça vidas.

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Os mantras diários que me mantêm sã e focada são os meus medicamentos. Meu amor por mim mesma, pelo qual tive que lutar tanto, é meu colete salva-vidas. O controle coercitivo é um padrão de comportamento traiçoeiro e previsível, e eu espero que você nunca precise conhecer. No entanto, armar-se de conhecimento sobre estes comportamentos garantirá que você esteja de “colete salva-vidas” antes de pular do bote. Isso é uma autopreservação.

É assim que funciona: No início do relacionamento, o abusador chega com uma “bomba do amor”. Ele é amável, afetuoso, cortês. Ele faz você se sentir especial e única, diz que nunca se apaixonou tão rapidamente antes, faz você acreditar que é tudo que importa no mundo dele. Ele faz você sentir que o está resgatando de alguma forma, ou vice-versa. Mas ele também demonstra comportamentos de raiva ou “punição” quando as coisas não saem como gostaria ou não recebe as reações que esperava.

Estes dois comportamentos caminham lado a lado até que o comportamento “amável” diminui, enquanto a raiva e o descontentamento aumentam. O foco é garantir que você esteja agindo, reagindo e se comportando da forma como seu abusador deseja. Se você fizer o que ele quer, será recompensada com os comportamentos positivos. Qualquer desvio do que ele espera fará com que você receba dele a raiva e a punição. A violência não está necessariamente presente, mas a ameaça costuma fazer parte do dia a dia. Demonstrações de agressão física, como socar paredes ou quebrar itens de casa, são formas eficazes de intimidar, indicando um potencial violento.

Os efeitos deste controle podem incluir o isolamento de seus amigos e familiares, suspensão monetária, de alimentos ou outras necessidades básicas, controlar o que você veste, onde você vai, quem você encontra, até que tipo de programa você assiste e com quem você conversa. É muito comum que ele a menospreze constantemente para fazê-la se sentir inútil, apresentando comportamentos que humilham, degradam, intimidam e ameaçam. O objetivo final é acabar com a sua força de vontade, para que o abusador possa assumir completamente o controle da sua vida.

Se você começar a reconhecer estes comportamentos no seu parceiro e tomar a decisão de confrontá-lo, ele provavelmente vai usar suas ferramentas de coerção em sua defesa. Ele vai menosprezar as suas alegações. Vai distorcer e inventar histórias. Vai fazer com que você duvide de si mesma. Ele vai usar exemplos de como você poderia estar muito pior sem ele. Vai fazer você sentir que tem sorte por nunca ter sido agredida, estuprada, morta por ele. E você vai acreditar nisso. Você vai se sentir grata.

Meu filho me salvou do meu abusador. Ver o comportamento do meu marido pelos olhos inocentes do meu filho foi o sinal de alerta de que eu precisava para agir. A necessidade, maior do que qualquer outra nesta Terra, de proteger o meu filho, me impulsionou à ação. Meus amigos, minha família, a família do meu abusador, ficaram do meu lado enquanto eu encontrava forças para me libertar. E esta libertação foi um ato singular de coragem, do qual me lembro quando sou tomada pelas dúvidas.

Outra coisa fundamental é saber que, normalmente, os abusadores já foram vítimas. Parte do seu processo de coerção é falar sobre o abuso que sofreram. Eles mostram a sua vulnerabilidade e você paga com a sua. Eles acreditam que são vítimas das circunstâncias. O conhecimento da sua própria experiência os absolve da sua responsabilidade pessoal e de qualquer tipo de culpa. Não cometa este erro. Você já conviveu com o abuso por semanas, meses, anos, décadas. Você não vai dar continuidade a este ciclo. Você não é uma vítima das suas circunstâncias. Você é uma sobrevivente, assim como eu.

* Depoimento Anônimo