Contra Bolsonaro, artistas incendeiam o MAM, com obras sobre luto e resistência

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dorsos nus, três garotos ziguezagueavam seus skates, seguindo a ondulação da marquise do Museu de Arte Moderna, o MAM. Enquanto faziam manobras no ar, a obra do artista No Martins avisava através do vidro do prédio —"danger", ou perigo, em inglês. Formada por sirenes de viaturas da Polícia Militar, a palavra alertava para o risco de queda —do regime democrático.

Em estado de emergência, será aberta, neste sábado, a 37ª edição do Panorama de Arte Brasileira, tradicional mostra do MAM. Com organização de Claudinei Roberto da Silva, Vanessa Davidson, Cristiana Tejo e Cauê Alves, a mostra reúne obras de 26 artistas, de diferentes regiões do país, regidas pelo tema "Sob as Cinzas, Brasa". A maior parte das obras é inédita e, neste ano, algumas estarão também no Museu Afro Brasil, no mesmo parque Ibirapuera.

Faltando poucas semanas para as eleições, a proposta conceitual revela a angústia cívica dos artistas, fazendo das salas expositivas uma panela de pressão. A própria tipografia do espaço, com teto vermelho e paredes cinzas, leva a tensão política das ruas para dentro do museu. Nesse sentido, "Sob as Cinzas, Brasa" constata, a um só tempo, a destruição das instituições políticas e o ressurgimento da pulsão criativa do brasileiro.

"Foi uma sequência de incêndios. No Museu Nacional, na Cinemateca, na estátua do Borba Gato e são várias as queimadas na Amazônia", lembra Tejo. "Só que o fogo tem uma ambiguidade, ele também propicia a criação."

Insurgente ao avanço conservador, Martins retrata, em três telas, pessoas negras na praia, num momento de lazer. À beira-mar, tomam cerveja importada e jogam conversa fora. Uma pintura mostra um homem na areia, estampando na camisa a interrogação "1888?". No céu, um avião passa na praia com uma faixa que diz "quem não deve também teme". Noutra, um casal negro e gay cultiva o desassunto, espichado numa canga com as cores do arco-íris.

O autor subverte, dessa forma, o lugar subalterno, ao qual a população negra foi condenada pela escravidão. Ao mesmo tempo que afirmam muitas identidades, as obras do Panorama se perguntam quem somos nós, brasileiros.

Passado o modernismo e a tropicália, a identidade nacional ainda parece ser uma incógnita, tanto mais no ano do bicentenário da Independência. Nos trabalhos de Jaime Lauriano, por exemplo, a questão permanece em aberto. Em sua criação para a mostra, o artista insere o suposto grito do Ipiranga, retratado por Pedro Américo no século 19, numa terra arrasada, evocando as tragédias de Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.

Sobre a pintura, Lauriano cola alguns adesivos, como o do Canarinho Pistola —mascote da seleção nacional, que sofre com a crise de representatividade desde o sete a um da Alemanha, na Copa do Mundo de 2014. Em cima do lamaçal, o artista escreve em letras garrafais "pra boiada passar", fazendo alusão à frase dita pelo ex-ministro do Meio-Ambiente, Ricardo Salles, na célebre reunião ministerial de 22 de abril de 2020.

Afixados à moldura, soldadinhos de chumbo representam diversas instituições da esfera política. Há soldadinhos do Bope e dos Dragões da Independência, corpo de cavalaria criado em 1808, que hoje atua na segurança do presidente. Entre as miniaturas selecionadas, também aparecem militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, hasteando a bandeira do MST.

Dessa forma, a guerra cultural, acirrada no mandato do presidente Jair Bolsonaro, do PL, é retratada sob uma perspectiva histórica. Passado e presente estão entrelaçados, buscando respostas para o futuro do país. Em "Meio Monumento", Giselle Beiguelman projeta uma réplica da estátua de Borba Gato, incendiada em julho do ano passado.

Partida ao meio, a estátua será uma arena de debates durante a programação da mostra. Derrubada a estátua, o visitante será convidado a pensar ali maneiras de lidar com a memória que nos foi legada pelo passado colonial. Nesta edição do Panorama, o belo em sua concretude é garantido pelas mãos de Luiz dos Santos Menezes, mais conhecido como Luiz 83, que mora na periferia da zona sul paulistana.

Montador de exposições, ele trabalhou como motoboy na pandemia e, de madrugada, envasava vidros de álcool em gel. No tempo livre, fazia grafites e algumas esculturas de papelão. Para dar mais resistência às suas obras, buscou ajuda do dono de uma funilaria, que ofereceu a solução de fazer as esculturas em fibra de vidro, pintando os trabalhos, em seguida, com tinta automotiva.

Lá estão as esculturas, no centro da sala expositiva do MAM, reproduzindo em três dimensões as "tags" usadas pelo artista para identificar seus grafites. Cada obra tem a cor de um carro antigo —uma Brasília amarela, um Opala modelo 1978 e uma Kombi azul-bebê. "Isso não se relaciona com concretismo ou neoconcretismo", diz Claudinei Roberto da Silva. "As referências dele são outras, partem da cultura e da arte de rua."

A inventividade também está nas fotografias, em lambe-lambe, da gaúcha Laryssa Machada. Radicada em Salvador, ela percorreu a periferia da cidade, associando elementos futuristas aos seus personagens, que mais parecem ciborgues, com capacetes e luvas em meio à desordem urbana.

Atado ao presente, Éder Oliveira se preocupa em documentar o indivíduo amazônico. De Belém, investiga o cotidiano das pessoas que o cercam, pintando com realismo cenas banais, como uma conversa numa casa com toda a alvenaria à mostra. Nessa busca, acaba por incluir a própria figura, se identificando como habitante local.

Em paralelo, André Ricardo parte de referências do candomblé para criar figuras geométricas, com têmperas que lembram o estilo de Alfredo Volpi. Já a escultora Lídia Lisboa molda cupinzeiros para ocupar a sala de vidro do MAM e transmitir esperança. Segundo ela, o cupim é o primeiro ser a aparecer depois das queimadas. Da mesma forma, o artista indígena Xadalu, em suas quatro pinturas, lembra a importância do fogo para gerar a vida.

"Sob as Cinzas, Brasa" desorganiza os símbolos nacionais, recusando a leitura ufanista do bicentenário da Independência, tal como proposto pelo governo. Por isso, os curadores resgatam uma obra de Glauco Rodrigues, que, em seu tropicalismo crítico, ironiza "O Derrubador Brasileiro", tela de 1879 de Almeida Júnior. "Para alcançar a modernidade, o brasileiro desmata. Aqui, o machado é o distintivo do progresso", afirma Silva.

O curador questiona o próprio conceito de pintura histórica, gênero iconográfico monopolizado, desde a colonização, pelos brancos. No Panorama, ele inclui um estudo para "Incômodo", série de cinco telas do pintor Sidney Amaral, que pertence ao acervo da Pinacoteca de São Paulo.

Numa das pinturas, a liberdade é representada por uma mulher negra. Ao centro, Amaral retrata sua filha, sentada no escudo de Portugal, calçando um par de sapatos —os escravizados andavam com os pés descalços. Voltando ao presente, as instalações de Gustavo Torrezan fazem parecer que o Brasil é um projeto inacabado e abandonado.

O artista crava estrelas de madeira, que pouco refulgem num pano preto disforme. O luto é compartilhado em "América-Látex (Pós-Extrativismo)", de Marina Camargo. Feito de borracha, seu mapa da América Latina trata de um continente maleável, pendendo entre a influência das potências mundiais e as autocracias internas.

Nesse contexto decisivo, é difícil acreditar na placidez das margens do Ipiranga. Por isso, Ana Mazzei insere um cavalinho de pau na sala do MAM, onde o visitante, espada em punho, poderá gritar, em 2022, a sua própria independência.

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