'Continuo sendo musa', diz Giovanna Gold, a Zefa de 'Pantanal' de 1990

*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 03.04.2014 - Giovanna Gold, no lançamento do livro
*** FOTO DE ARQUIVO *** SÃO PAULO, SP, 03.04.2014 - Giovanna Gold, no lançamento do livro

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Ela foi a primeira Zefa de "Pantanal", há 32 anos. Então estreante na TV, Giovanna Gold, 58, causou estardalhaço mesmo em um papel secundário - à época, ela era a mulher contratada por Maria Bruaca (Ângela Leal) para ajudá-la na cozinha e nos afazeres domésticos.

Giovanna estampou capas de revista, virou musa nacional, era parada nas ruas. Tudo coerente com o sucesso da novela exibida pela extinta TV Manchete, a primeira a bater a Globo em audiência. Um assombro. Um feito e tanto, lembrado com carinho pela atriz que, apesar das boas recordações, se recusa a fazer comentários sobre a trama atual.

"Não recebo nada da Globo para falar da novela. Não sou comentarista paga para analisar a obra. O que eu tenho é um compromisso amoroso com a minha experiência", diz a atriz, que recentemente lançou um aplicativo criado para ajudar artistas a memorizar e interpretar textos. Moradora do Vidigal, comunidade da Zona Sul do Rio, ela assume ter medo de viver ali, apesar da vista embasbacante das praias do Leblon e de São Conrado. Giovanna concedeu a seguinte entrevista à Folha de S.Paulo:

PERGUNTA - O remake de "Pantanal" vem batendo recordes de audiência na Globo. Como intérprete da Zefa na primeira versão, em algum momento sentiu ciúme da personagem?

GIOVANNA-GOLD - Não chamo de ciúme. Eu não tenho propriedade da Zefa porque nenhum personagem é de um ator. Hamlet, de Shakespeare, é de todo mundo. Sabe o que acontece quando a pessoa diz 'o personagem era meu'? Falta de contrato. Eu adoraria ter um contrato e estar trabalhando.

P. - Por que você não está trabalhando?

GG - Está difícil para todo mundo. A minha vida hoje é mandar meu currículo para produtores de elenco, como sempre fiz. Quero fazer novela, filme e minissérie. Sou ótima atriz, corro atrás para caramba e faço sucesso com meus personagens porque me dedico. A Zefa, a Alzira de "Mulheres de Areia" e a Kátia de "Por Amor" são provas disso.

"Pantanal" foi a sua primeira novela e você virou logo musa. Foi uma das musas dos anos 1990...(Interrompendo) Eu sou musa. Continuo sendo. Eu vivo de arte e vivo de inspiração e inspiro outras pessoas. Eu me aproprio de ser musa e não da personagem Zefa. Eu sei o quanto amor, criatividade, experiência, fantasia, erotismo, loucura e ignorância entreguei para a Zefa.

P. - O que lembra dos bastidores de "Pantanal"?

GG - Era tudo maravilhoso. Muito oxigênio, céu, lua, o rio e estar no barco com Almir Sater e Sérgio Reis tocando os violões e cantarolando enquanto pescavam. O Sérgio pegava a minha mão para eu colocar na cabeça do jacaré e eu quase tinha um troço de tanto medo.

P. - Você já voltou ao Pantanal?

GG - Recentemente. Ganhei uma viagem da Fundação de Turismo do Mato Grosso do Sul. Uma viagem dos sonhos e eu revi tantas coisas, reconheci vários lugares. Foram 15 dias incríveis e alegres que me fizeram lembrar o quanto todo mundo era feliz durante as gravações. Todo mundo com contrato!!! Isso faz a diferença para qualquer ator.

P. - Em um ambiente competitivo como o da TV, você tem alguma mágoa de algum colega de trabalho?

GG - Sou brasileira (risos). Ponto. Falar sobre isso é dar ibope para quem não merece. Eu sou muito elegante para falar mal do outro.

P. - Como é morar no Vidigal?

GGB - Eu não sou nascida e crescida aqui como eu vejo as pessoas batendo no peito. Aliás, eu não sou de nenhum lugar. Nasci em Salvador e vivo agora no Rio, mas morei em São Paulo por muitos anos, Nova York, Buenos Aires, Madri e Búzios. Tenho pensado em morar agora em Bonito porque eu não tenho essa coisa de apego a um canto. Mas, é difícil morar em comunidade. Sinto medo, claro. Vontade de chorar e bate aquele sentimento de impotência. Aliás, morar no Rio está podre.

P. - Em que sentido?

GG - Todos. Segurança, sujeira, saúde, comportamento das pessoas. Eu nasci em 1964 e achava que as coisas iriam evoluir e o que aconteceu? Um total retrocesso. A única coisa que me dá orgulho no momento é Anitta. Uma menina de Honório Gurgel e conquistou o mundo. Até ela pulou fora agora. É mãe enterrando filha, vítima de bala perdida, madrasta envenenando enteados, pessoas morrendo sem socorro médico, valores invertidos....Loucura total. Sem falar na política.

Falando em política...

(Interrompendo) Eu não discuto sobre política. Eu dialogo. Não entro nessa polarização entre Lula e Bolsonaro. Estou na terceira via e no momento pensando em votar na Simone Tebet (candidata do MDB, Movimento Democrático Brasileiro). O Lula me decepcionou e o Bolsonaro não dá para nem comentar. Me desculpe a classe artística, mas o Sergio Moro não cometeu nenhum crime a não ser colocar um criminoso na cadeia. Só lamento o rumo que o Brasil tomou nos últimos cinco anos e olha a direita que nós tivemos que entubar.

P. - Você chegou a sofrer a assédio ao longo de sua carreira?

GG - Quem nunca? Mas, a pior coisa para mim foi o fato de não poder ser uma humorista porque eu era considerada 'bonita'. Também não podia ter outro personagem de papel que não explorasse a 'sensualidade' que me rotulavam. Uma vez, um diretor disse que um determinado papel não seria para mim porque precisava de uma atriz 'bagaceira'. Ele usou esse termo e eu não esqueci. Sabe quem foi escalada? A filha dele.

P. - Notei que você fugiu das perguntas sobre remake de "Pantanal". Por quê?

GG - Eu não recebo nada da Globo para falar da novela. Não sou comentarista paga para analisar a obra. O que eu tenho é um compromisso amoroso com a minha experiência. Uma experiência que perdura e ela foi maravilhosa. Tenho alegria de falar da Zefa.

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