Contardo Calligaris faz atualíssima e necessária análise coletiva do país

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FOLHAPRESS - Nascido na Itália, professor em Paris e Nova York e cidadão do mundo --o que ficava bem claro em suas colunas para este jornal e na frase "mudar de língua e país pode ser um jeito, não de se curar, mas de mudar de neurose"--, nem o próprio Contardo Calligaris entendeu, lá pelo final dos anos 1980, por que tinha decidido fazer do Brasil a sua morada. E hoje nós, leitores saudosos, podemos complementar com "até o fim da vida".

Este livro --lançado em 1991, mas que segue mais atual e necessário do que nunca-- foi a forma que o autor e psicanalista encontrou de elaborar tamanha curiosidade e amor por nosso país.

Mistura de psicanálise, antropologia, história, sociologia e um talento inigualável para a escuta, a obra vai além de uma autoanálise de Contardo e funciona também como uma espécie de análise ou "autoanálise coletiva do país", como escreve a historiadora Lilia Schwarcz no prefácio da nova edição, que sai agora pela editora Fósforo.

Por que a corrupção aqui parece ser nosso modus operandi? Por que tantos filhos brancos foram iniciados sexualmente pela empregada, pela babá ou se aproveitaram do corpo da mãe preta, a "mãe de leite"? Por que respeitamos menos o pai que não ganha o suficiente para nos proporcionar regalos? Por que priorizamos contatos que podem nos trazer alguma vantagem?

Por que gostamos de dizer que vivemos em um país que não presta --muitas vezes quase como falamos sobre alguém por quem sentimos muito tesão? Por que nossa rotina ainda é permeada pela herança escravocrata? O que leva pessoas a perguntar se fulano conhece o "Euvaldo de Salvador", sem sequer dar o sobrenome dele? O que nos leva a batalhar anos e anos por uma cidadania estrangeira?

Por que paparicamos assustadoramente algumas de nossas crianças, as transformamos em reizinhos mimados sem nenhum gosto pelo esforço --chocando os europeus-- e temos tantas outras morando e dormindo nas ruas?

O psicanalista estava fascinado, mas não de modo que nos tratasse como pitorescos --sabia que esse comportamento seria preconceituoso. Sentia na pele o que era ter nascido em um país ao qual os turistas ainda vão à caça de experiências exóticas --"admiração pelos panos pendurados nas janelas, pelos gritos das famílias brigando, pela circulação dos carros buzinando em Roma ou Nápoles". E conclui, depois de anos vivendo aqui --"talvez eu quisesse dar mais uma chance à minha capacidade perdida de gostar da Itália".

Ao chegar ao Brasil, Contardo, na época ainda às voltas com o estruturalismo --e as tendências de uma clínica lacaniana estrutural--, acreditava que devia descrever uma personalidade através de elementos como a função materna, a função paterna, o objeto e o outro.

E foi assim que formulou sua tese, recebida como genial por alguns críticos e "europeia demais" por outros, de que a nós, brasileiros, falta função paterna ou, em outras palavras, de que somos uma nação em que o lugar do pai não foi simbolizado.

A saber, isso nos transformaria a todos, descendentes diretos de colonizadores que vieram gozar em nossas terras não interditas pelo pai ou de colonos que vieram em busca de uma filiação, em cínicos com graves deficiências morais, em desiludidos que não cumprem a lei --"eu quero um país respeitável, mas, se o país me desconsidera como cidadão, por que eu o respeitaria como país?"--, ou sedentos por compensações para abrandar um pouco uma sensação terrível de insignificância, o que explicaria o tal jeitinho brasileiro.

Em resposta à avaliação de que era um viajante cometendo a deselegância de comparar, de forma talvez fria e distante --e é impossível ler essa obra sem discordar completamente dessa percepção--, as carências essenciais --e inconscientes?-- do nosso povo, com tudo o que ele pode ter em seu berço esplêndido, Calligaris se defendia dizendo que nossa falta de pai simbolizado --o que, em um sujeito, levaria fatalmente à psicose-- poderia ser "abordada e descrita positivamente como uma das relações possíveis com o mundo, não como uma falha da neurose ordinária" ou ainda "como algo específico, diferente, uma realidade nova, inventada talvez a partir de uma falta, mas que não se resume a isso".

Em 2017, 26 anos após lançar o livro, Contardo escreve um prefácio para a segunda edição afirmando ter entrado na fileira dos intérpretes do Brasil que tratam o país como se fosse "alguém", "quem sabe, um amigão da gente" ou ainda "uma espécie de ectoplasma do território e do povo, com a aparência e o jeito de um indivíduo". E conclui que "tendemos a abordar e explicar o país como um semelhante, talvez um parente, que nasceu --ou foi encontrado-- na selva, teve uma infância complicada, uma adolescência venturosa".

Ao final, fico com vontade de dizer que Contardo, para além de tudo que foi pensado, dito e escrito, se mudou para o Brasil porque estava apaixonado por uma mulher. Que falta um homem desses faz para o mundo.

HELLO, BRASIL! E OUTROS ENSAIOS: PSICANÁLISE DA ESTRANHA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Preço: R$ 69,90 (320 págs.); R$ 44,90 (ebook)

Autor: Contardo Calligaris

Editora: Fósforo

Avaliação: Ótimo

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