Conservadores fazem pressão por mudanças na área de cinema

FÁBIO ZANINI
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 10.07.2019: O deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão Mista de Relações Exteriores e de Direitos Humanos, na Câmara dos Deputados. (Foto: Mateus Bonomi/Agif/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Organizações conservadoras vêm tendo discussões frequentes com representantes do governo federal sobre políticas para o cinema, da Lei do Audiovisual à composição do conselho do setor.

Um dos grupos mais atuantes reúne ativistas envolvidos com a organização da Cúpula Conservadora das Américas.

A tal cúpula foi criada como uma alternativa de direita para o Foro de São Paulo, reunião de partidos de esquerda.

Sua primeira edição aconteceu em dezembro do ano passado em Foz do Iguaçu, no Paraná, e teve como um de seus principais proponentes o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PSL paulista, filho do presidente Jair Bolsonaro.

Em junho, membros da organização da Cúpula se reuniram com o ministro da Cidadania, Osmar Terra, cuja pasta agregou a área de cultura. Também participaram representantes do Brasil 2100, que reúne empresários e pesquisadores conservadores.

Segundo a assessoria do ministério, entre os temas discutidos na reunião estiveram a Lei do Audiovisual e a necessidade de se promover filmes que destaquem símbolos nacionais e valores conservadores, como patriotismo e preservação da família.

Pela Cúpula, participaram da reunião a consultora em comércio exterior Katiane Gouvêa, o médico Luciano Azevedo, da Marinha, o produtor e roteirista Fábio Cavaleiro, o maestro Dante Mantovani e o curador Romildo Silva, entre outros membros.

Do lado do governo, além de Terra, participou José Paulo Soares Martins, secretário de Fomento e Incentivo à Cultura.

Em 28 de agosto, houve nova reunião de integrantes da Cúpula, dessa vez na Casa Civil.

Segundo o relato de um participante, um tema discutido foi como transformar os filmes brasileiros em produtos de exportação mais bem-sucedidos.

Uma conclusão a que chegaram foi que temas polêmicos, como drogas e questões de gênero, afugentam público e reduzem o apelo comercial de filmes, por não poderem ser classificados como de censura livre.

Por isso, na visão deles, esses temas deveriam ser evitados em produções incentivadas com recursos públicos.

Também nessa reunião foi debatida a importância de haver um representante da equipe econômica no Conselho Superior de Cinema, instância responsável por formular e implementar políticas para o setor.

Isso seria fundamental para ajudar a traçar estratégias de venda das produções para o mercado externo.

No dia seguinte, um decreto do governo incluiu um representante do Ministério da Economia no conselho, restabelecendo uma prática que já ocorreu no passado.

Essa alteração no órgão consultivo não foi a primeira feita por Bolsonaro desde que assumiu o Alvorada.

Em julho, outro decreto já havia transferido o Conselho Superior de Cinema do Ministério da Cidadania para a Casa Civil. Seria uma forma de aumentar o controle do Planalto sobre o órgão.

Em mais de uma ocasião, Bolsonaro já expressou contrariedade com produções financiadas por recursos públicos que tenham temáticas como sexo e drogas.

Lembrou como principal exemplo o filme "Bruna Surfistinha", de 2011, que conta a história de uma ex-garota de programa e tem Deborah Secco no papel principal.

Ao todo, o conselho tem representantes de oito ministérios, mais três do setor audiovisual e dois da sociedade civil.

Procurados, os ministérios da Casa Civil, Cidadania e Economia não se manifestaram.