"É um pouco mais difícil, mas conseguimos chegar lá”, diz Pobre na Irlanda; conheça!

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Lucas Marques é o influenciador Pobre na Irlanda (foto: Divulgação)
Lucas Marques é o influenciador Pobre na Irlanda (foto: Divulgação)

Resumo da Notícia:

  • Influenciador saiu da Zona Norte do Rio de Janeiro e está prosperando em Dublin, na Irlanda

  • Entre os percalços do caminho, ele chegou a passar dificuldades durante a pandemia de covid-19

  • Trabalhando desde os 14 anos, ele busca empoderar a família que continua no Brasil

Rolando o feed do TikTok o algoritmo indica um vídeo com um jovem mostrando uma pia cheia de louça e explicando sua função naquela cozinha, de kitchen porter, ou lavador de louças. De forma divertida ele conta, celebrando as vitórias na posição: aprendeu mais inglês que na escola, teve mais oportunidades e conseguiu deixar o Brasil.

Lucas Marques, o "Pobre na Irlanda", há quatro anos compartilha sua rotina fora do país nas redes sociais, com 300 mil seguidores e 5,2 milhões de curtidas no TikTok. No Instagram, quase 100 mil pessoas fazem parte da comunidade que ele constrói diariamente.

“Quando comecei a fazer os vídeos aqui, falava muito alto na rua mostrando tudo que eu via. Uma pedra, um pássaro. Nunca tinha saído do Rio de Janeiro e fiquei deslumbrado, foi emocionante”, lembrou em entrevista ao Yahoo! sobre sua história de vida.

O nome do perfil veio dessa época, mas após uma crítica: “Uma amiga reclamou que falar alto era coisa de pobre e respondi: ‘Sou Pobre, mas pobre na Europa’. E aí mudei minha conta no Instagram para Pobre na Irlanda.”

Morador da favela do Acari, no Rio de Janeiro, Lucas não teve uma vivência muito diferente da maioria dos moradores da região. Único homem de uma família com cinco irmãs, todos criados por uma mãe solo, ele trabalha desde os 14 para ajudar em casa e assim seguiu.

“Trabalhei entregando pão, na barraca de camelo do meu avô, no McDonalds, vendi água no sinal de trânsito. Terminei o ensino médio e fui logo procurando emprego. Na minha família ninguém nunca tinha entrado na faculdade, então não era um desejo comum. Não tinha nenhuma perspectiva de vida em relação a coisas grandes”, avalia.

No seu primeiro trabalho de carteira assinada, em uma empresa prestadora de serviços para um órgão público, ele viu sua vida mudar drasticamente com um anúncio na internet. “Apareceu banner de ‘estude e more fora’ e fui pesquisar. Depois um vídeo de um rapaz contando a história dele morando em Dublin e na Espanha. Decidi que iria para lá”, relata.

Nas buscas, Lucas descobriu uma agência de intercâmbio ao lado de seu trabalho. E como nada nunca foi fácil, sair do país não seria a exceção. Após dividir o intercâmbio em 12 meses no boleto, já que não tinha cartão de crédito, pediu demissão para viajar.

“Descobri que para embarcar precisaria levar uma quantia de €$ 3 mil, na época era R$ 16 mil e não tinha de onde tirar o dinheiro. Aí comecei a vender água no sinal, batata frita, vender roupa cristã e comecei a juntar esse valor. Nos últimos meses arrumei um emprego na bombonier de um cinema e me acusaram de roubo de saco de pipoca...”, recorda.

Vida na Europa

Na Irlanda os intercâmbios duram em média seis meses de curso, prorrogáveis por até dois anos. Dentro do programa ainda é disponibilizado dois meses de férias a cada período. Sem falar nada de inglês, Lucas sofreu durante sua chegada.

“Os primeiros oito meses foram horríveis. Só sofrência, pedrada na cara. No primeiro mês eu arrumei um trabalho de lavar prato. Como era brasileiro eles queriam conversar sobre futebol, samba”, recorda, citando os primeiros meses na capital da Irlanda, Dublin.

Mas para Marques o que mais mudou, além do dinheiro e as conquistas financeiras, foi a descoberta das perspectivas. "Agora tenho um outro horizonte. Parece que saí de uma bolha de ignorância e comecei a ver o mundo de outra forma”, aponta.

Aprendendo melhor a língua e como se virar morando sozinho, ele conseguiu mudar de emprego. Mas seu tempo no país chegou ao fim com os dois anos permitidos para estudantes. “Achei que o meu inglês estava bom o suficiente para entrar na faculdade e viajei para Madri, para aprender espanhol”, conta.

A viagem aconteceu no fim de 2019 e após quatro meses de curso, a pandemia de covid-19 fechou o país em um lockdown severo. O que era para ser uma nova vivência e a oportunidade de aprender uma nova língua, virou o caos.

Ambos os países usam o Euro como moeda, mas com uma economia mais fraca, ele logo percebeu que o novo país não possibilitaria que continuasse ajudando sua família no Brasil. “Quem mora lá só sobrevive, não consegue viver. Aproveitar. Os €1500 euros que fazia aqui são o mesmo que €500 lá”, avalia.

Com o comércio e a escola fechada, Lucas viveu um novo problema: a falta de trabalho e renda. “Cheguei a passar fome lá. Fiquei nos próximos seis meses pulando de casa em casa, não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Cheguei a fazer vaquinha para me ajudarem. Me mandaram comida. Fiquei uma semana comendo biscoito e água”, recorda.

O medo do que acontecia e a situação que vivia eram tão grandes que ele pensou em voltar para Brasil, mas as fronteiras fechadas impediram.

Na primeira reabertura do oeste europeu, ele fez sua mala e voltou para a Irlanda: “Sem nada. Fiquei em hostel e durante duas semanas comia um macarrão instantâneo por dia. Foram seis meses mudando de casa porque não tinha dinheiro para manter o aluguel, então usava o depósito de uma para pagar a outra.”

Após se estabilizar, Lucas entrou na faculdade de marketing digital.

Família no Brasil

O influenciador busca ampliar o horizonte das irmãs com suas vivências. “Infelizmente tínhamos uma visão muito limitada das possibilidades. Pode ser uma característica de quem vive na periferia, que não podemos ser mais que aquilo. Que não podemos ser um pouco da alta sociedade, por exemplo. Pensamos que só temos que trabalhar para nos sustentar. Por isso incentivo-as estudarem, uma irmã está criando um negócio de cabelo. É um pouco mais difícil por não sermos tão privilegiados, mas conseguimos chegar lá”, projeta.

Além de abrir os caminhos para a família, Lucas também "aposentou" a mãe. Empregada doméstica, ela não consegue mais trabalhar por problemas de saúde. “Ela tem fibromialgia e os ossos doem todos. Todo mês mando um salário mínimo para que ela não trabalhe. Com a cotação que está, fica até melhor. Não sou rico, mas consigo dar essa pequena mordomia para eles”, comemora.

Digital influencer

Lucas atribui sua crescente nas redes sociais pelo fato de mostrar a realidade de uma pessoa morando fora. Na faculdade de marketing digital, ele quer usar o Instagram e o TikTok como portifólio para conseguir um visto de trabalho e conquistar sua cidadania.

“As pessoas querem ver a realidade de uma pessoa fora do país, o que aconteceria se eles viessem para Dublin, por exemplo. Tem uns influenciadores que mostram muito o glamour e eu tento mostrara também como seria o perrengue, mas com um toque de comédia”, diz.

Além dos perrengues, Marques também faz questão de relatar nos seus vídeos como resolver problemas que possam surgir durante a estadia na cidade. “Para eles verem que não é preciso se desesperar ou voltar para o Brasil por conta de uma situação ruim que pode ter acontecido”, adianta.

Recentemente ele compartilhou com os seguidores um e-book que é um guia de como encarar a capital da Irlanda. O livro está disponível nas suas redes sociais.

Fora do armário

Hoje com 27 anos, o estudante só começou a experienciar sua sexualidade quando saiu do país. Criado na igreja evangélica e frequentador, ele temia revelar sua sexualidade. “Aqui não precisei me revelar gay, só vivi. As pessoas não me condenaram por isso, não me bateram. A liberdade da comunidade LGBTQIA+ e muito grande”, lembra.

Acolhido pela família e pelo lugar que escolheu viver, Lucas não pensa em voltar ao Brasil. “Não quero mais ir embora. Por ser gay, preto, nunca fui tão livre. Os medos que tinha no Brasil pela minha cor e sexualidade, não tenho aqui”, pontua.

Nem ao Brasil, nem à Polônia, onde foi recentemente fazer uma viagem rápida. “As pessoas me olhavam inteiro andando na rua, e andei muito. Era o único preto andando por lá e isso me deixou muito constrangido. Sabia que o olhar deles era de surpresa, eles se preguntavam: ‘o que ele está fazendo aqui?’ Não me senti pertencente àquele espaço. Até as crianças. Elas me encaravam como se eu fosse um alienígena. Fui para lá visitar um cara e buscávamos chamar o mínimo de atenção possível, porque eu sozinho já chamava atenção. Não quero voltar nunca mais”, conclui.

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