Modelo indígena é recordista da SPFW: “Brasil precisa valorizar beleza dos povos originários”

A primeira vez que Noah Alef sentiu como era ser modelo foi aos 16 anos. “Um rapaz foi até a minha escola e fez uma seletiva. Desfilei na praça da minha cidade, com roupas das marcas de lá”, conta o jovem de 22 anos, de Jequié, no Sudoeste da Bahia, em entrevista ao Yahoo.

A experiência lhe deixou uma impressão muito forte e, desde então, decidiu que gostaria de fazer da passarela sua profissão. “Gostei muito da sensação antes da apresentação, do nervosismo, e do que senti depois, de que tudo deu certo e que fiz o meu melhor”, diz. A sua ancestralidade, no entanto, foi tratada como um obstáculo inicialmente, mas, tempos depois, se tornou seu grande diferencial.

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Ligado ao povo Pataxó por parte do avô e ao povo Kariri-Sapuyá por parte da avó, Noah se tornou, na edição 54 da São Paulo Fashion Week, o primeiro modelo masculino de origem indígena a ser recordista de desfiles no evento, o maior de moda da América Latina. O jovem desfilou para 15 marcas na semana de moda.

“Em 2021, eu realizei o sonho de participar do evento, que sempre foi bastante importante para mim, desfilando para cinco marcas. Agora eu realizei a conquista de ser recordista. Era algo que eu lutava desde o início, porque sempre senti que não havia na passarela brasileira pessoas que me representassem”, diz o modelo. Porém, para conquistar o espaço, Noah teve que lidar com muitas adversidades, sendo o preconceito o principal deles.

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Primeira tentativa

Na escola, Noah não sabia muito bem o que queria fazer. “Meus amigos queriam ser advogado, médico, eu não tinha nada que me chamasse atenção”, lembra. Isso mudou quando trabalhou como modelo pela primeira vez. Aos 17 anos, percebeu que poderia continuar desfilando caso ganhasse o concurso de Mister Interior da Bahia. Para isso, fez rifa para juntar dinheiro e viajar pelas cidades de seu estado-natal até ganhar a faixa.

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A rifa também foi a forma que ele encontrou de juntar dinheiro para, em 2019, poder se mudar para São Paulo (SP), onde tentaria a carreira de modelo de maneira independente. Não foi o sonho que ele pensava. “Sofri muita xenofobia”, afirma Noah.

O fato de ser um dos poucos modelos de origem indígena era, de acordo com profissionais da moda, um “empecilho” para que ele fosse escolhido nos castings. Seu cabelo - preto, liso, em um corte “tigela” - também seria um ponto de “crítica”. “Uma pessoa disse que eu teria que trocar o meu corte, que com ele eu não conseguiria trabalhar porque os clientes não aceitavam, não queriam. Trabalhava como barman, para pagar as contas, e tinha que penteá-lo de outra forma para conseguir ‘bicos’”.

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Alguns podem dizer que Noah deveria deixar de apego e mudar o penteado. Para o modelo, no entanto, seu cabelo tem um significado que vai além da estética. “É pelo meu povo, pela representatividade que trago, mas também pela minha autoestima. Gosto muito do meu cabelo, acho ele bonito e ninguém vai dizer que tenho que mudar, ainda mais com palavras preconceituosas. O meu cabelo foi um ato de resistência, até pelo que passei por conta dele”, ressalta o jovem.

Ele percebe que, em grandes centros urbanos como São Paulo (SP), há uma intolerância aos traços de povos originários. “O Brasil em si não está acostumado a ver indígena na cidade. Para o brasileiro, o parente indígena tem que morar no mato, na aldeia. A partir do momento que vem para a cidade, não é mais indígena”.

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Como os trabalhos de modelo não decolavam, Noah fez bicos como empacotador e ajudante de pintor. “Teve mês que passei fome, tive que pedir ajuda de amigos. Ia trabalhar sem dormir, porque emendava trabalhos”. Em 2020, a pandemia o fez voltar para Jequié.

Na segunda tentativa, o mundo

Enquanto esteve no interior da Bahia, Noah Alef passava o tempo fazendo conteúdos para o seu Instagram, onde tem 275 mil seguidores, e Tik Tok, onde é acompanhada por mais de 1,7 milhão de pessoas. E foi nas redes sociais que ele foi recrutado por Vivaldo Marques para a agência Way Model, que representa o modelo até o momento. “Não estava confiante, achei que a moda não estava preparada, mas as coisas estão mudando. Ainda tem que mudar muito, mas as coisas estão acontecendo aos poucos”, diz o modelo.

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Voltou para São Paulo (SP), onde trabalhou por 10 meses e, em fevereiro deste ano, partiu para uma temporada na Europa. Passou por Alemanha, Inglaterra, Espanha e França. Em Milão, na Itália, desfilou para marcas como Dsquare2 e Emporio Armani.

“Por mais que eu sonhasse em ser modelo, não tinha a autoestima alta. Sempre me achava o mais feio do meu grupo de amigos. No exterior, eu fiz trabalhos grandes, que nem eu mesmo acreditava para o meu potencial. Sabia que entregava, que fazia acontecer, mas o mercado de moda brasileiro acabou descarregando a minha bateria por não me darem oportunidade”, afirma. O contato com o mercado exterior o fortaleceu, profissional e emocionalmente, mas o fez perceber como o mundo da moda brasileiro ainda precisa abrir mais caminhos para indígenas. “Lá, as pessoas olham para mim com curiosidade. No Brasil, é um olhar de preconceito”.

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Por isso, por mais que Noah já esteja conquistando o mundo, o modelo celebra o fato de ter sido recordista em seu país natal. “A representatividade indígena é muito importante nesse meio, porque se formos vistos, vamos ser lembrados. As pessoas vão passar a valorizar mais a nossa cultura”, diz o modelo.

O jovem, que já foi capa da Vogue e GQ Portugal, deve voltar para a Europa no dia 1° de janeiro, para se preparar para as temporadas de moda internacionais. É claro que ele sonha em trabalhar para marcas como Dolce & Gabbana, Louis Vuitton, Prada e Dior. Porém, um de seus principais objetivos no futuro é estar na capa de alguma revista brasileira.

“Eu fico triste, não consigo me conformar com o brasileiro não valorizando a beleza dos povos originários. Nem precisa ser eu, pode ser qualquer outro parente indígena na capa de uma revista. A beleza indígena é a beleza do brasileiro, conta a história do nosso país, do nosso povo”.