Conheça o Píer de Ipanema e as Dunas de Gal, marcos da contracultura dos anos 1970

Houve uma vez um espaço mágico no meio do caos. Um oásis, em que a brisa da liberdade batia e dava onda. A partida da cantora Gal Costa, no último mês, deixou um vazio e despertou lembranças feitas de mar e areia. De dunas. As famosas Dunas da Gal, que ganharam o nome da cantora, habituée do Píer de Ipanema, no comecinho dos anos 1970.

Para entender como se deu a magia, é preciso voltar algumas décadas. O ano era 1972 e o Brasil estava no auge da ditadura militar. A revolução comportamental iniciada nos anos 1960 — a luta por igualdade racial, a segunda onda do feminismo, o lançamento da pílula anticoncepcional são alguns exemplos — culminou no movimento hippie. Nesse cenário efervescente foi erguido, na altura da Rua Teixeira de Melo, na Praia de Ipanema, um píer para auxiliar na instalação de um emissário submarino, cuja função seria jogar o esgoto da cidade em alto-mar. A obra mudou temporariamente as características do local: surgiram altas ondas, decorrentes da interferência no solo, atraindo os surfistas do Arpoador. Além disso, as areias recolhidas pelos tratores formaram dunas, que passaram a impedir a visão de quem andava pela rua. Não demorou para a tal formação receber o nome da musa do Tropicalismo, que elegeu o point como seu. A cantora, naquela época, fazia história com o espetáculo “Fa-tal — Gal a todo vapor”. “O show era uma continuação da magia que acontecia no Píer”, lembra Leilinha Carvalho, que conheceu o marido, o músico Dadi Carvalho, naquele pedaço.

A atriz e apresentadora Cissa Guimarães, de 65 anos, define o local como “uma bolha”. “Havia, naquele microcosmo, um outro mundo, regido por Gal. Vivíamos um momento violento, de cerceamento, mas lá a gente respirava liberdade. Vi a Gal milhares de vezes, sentada normalmente, sendo aquela deusa, diva.”

O mix de frequentadores, surfistas, artistas, cocotas, poetas, intelectuais e revolucionários, dava liga sem igual. De acordo com a jornalista Ana Maria Bahiana, no livro “Almanaque Anos 70”, a tribo do surfe ficava do lado direito do píer, chamado backdoor, e os “desbundados”, do esquerdo. A atriz Thereza Mascarenhas, de 65 anos, cansou de chegar de roupa na praia às 6h para ver os amigos pegarem onda. “Havia um despojamento em relação à aparência, não tinha exibição e, sim, intensa troca entre ‘ratos de praia’ e artistas. Conheci o Peti, o Menino do Rio, ali, fumando um baseado. Gal estava sempre lá, mas não existia tietagem.” O fotógrafo e surfista Fernando Fedoca Lima, 68 anos, lembra que os surfistas foram os que chegaram primeiro: “O píer era um oásis de liberdade dentro de Ipanema.”

Autor, ao lado de Waly Salomão (1943-2003) da música “Vapor barato” — as Dunas da Gal também eram chamadas de “Dunas do barato” —, Jards Macalé, 79 anos, vê o píer como uma válvula de escape. “Eu e Gal morávamos em Ipanema. Passava na casa dela e íamos para a praia, onde ficávamos o dia inteiro. Ela já era uma referência de mulher. Ali, nas dunas, podíamos tudo, maconha, ácido. Mas na calçada, não.”

Escritora e pesquisadora da UFRJ, Heloisa Buarque de Hollanda acredita que, naquele lugar, projetou-se o futuro. “O píer renovou a forma de fazer política, libertou o comportamento e afetou a todos. Ali, resgatou-se a vontade de ser feliz”, afirma, fazendo uma analogia com os novos tempos. “Estamos nesse momento, vivendo essa coisa da esperança e da retomada. É o futuro se abrindo novamente.”