Conheça algumas das mais de 430 vítimas fatais do coronavírus no Brasil

Marlen Couto, Dimitrius Dantas, Alice Cravo e Luiz Henrique Gomes
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As vítimas do novo coronavírus são mais que estatísticas de uma pandemia que já deixou mais de 430 mortos de norte a sul do país (até a tarde de ontem, eram 432). São pais, mães, irmãos, filhos e amigos de várias idades, com perfil dentro e fora dos grupos de risco da doença, e principalmente com trajetórias de vidas bem distintas.

 

Inspirado no jornal “L’Eco di Bergamo”, que marcou o mundo ao publicar extensas páginas de obituários das vítimas da Covid-19 no norte da Itália, o EXTRA reuniu histórias e depoimentos sobre 12 brasileiros que não resistiram ao vírus, moradores de diferentes regiões do país.

São vidas interrompidas que dão rosto a uma tragédia sem precedentes na história recente e que reforçam o alerta para que sejam tomadas medidas de prevenção e de isolamento social daqueles que podem ficar em casa.

São brasileiros que tiveram velórios vazios, com a presença de poucos parentes, diante do alto risco de contaminação, e que passaram seus últimos momentos sem contato com familiares e amigos.

Entre as vítimas fatais predominam pessoas dos grupos de risco, como idosos, diabéticos e cardiopatas — em ao menos 85% das mortes, havia algum fator de risco associado, de acordo com o último balanço do Ministério da Saúde sobre o perfil dos mortos no Brasil —, mas há também jovens e pessoas sem comorbidades.

Matheus Aciole, 23 anos

Sonho de ter a própria doceria interrompido

Matheus cresceu entre os doces feitos pelos pais, donos de fábrica de bolos em Natal. Formado em Gastronomia, tinha o sonho de montar a própria doceria. No dia 31 de março, quando se tornou a vítima mais jovem a morrer de covid-19 no país, uma semana depois de ir ao hospital. O jovem foi sepultado na madrugada de quarta, com a presença de poucos familiares e em caixão lacrado.Não pôde ter o velório que merecia”, desabafa a prima Amanda Aciole.

Robson Lopes, 43 anos

Um autodidata apaixonado por música

Binho, como era chamado, aprendeu sozinho a tocar teclado, sanfona e violão. Apresentava-se na Igreja Batista Nacional Vida, em Manaus, e criou a banda Joy, com a qual fazia shows. Segunda vítima a morrer de Covid-19 no Amazonas, foi enterrado em 31 de março a 3m de distância dos parentes. “Nem nos abraçar podemos, para dar força uns aos outros”, lamenta a cunhada Lucia Noronha. Binho ficou dez dias internado. Ele deixa mulher e dois filhos, de 18 e 13 anos.

Iracema e Rita Sterzza, 85 e 55 anos

Mãe e filha venceram batalha contra câncer

Mãe e filha, Iracema e Rita de Cássia Sterzza, de 85 e 55 anos, respectivamente, superaram obstáculos de saúde durante boa parte de suas vidas. Ambas lidavam com a hipertensão e diabetes e venceram o câncer de mama. Mas, em um intervalo de três dias, as duas foram vítimas do coronavírus. Parentes, alguns também infectados, acompanharam à distância enquanto as duas estavam na UTI num hospital de São Paulo.

Erika Ferreira, 39 anos

Uma voz pelos direitos das minorias

“A arte era o megafone da Erika”. É assim que o diretor musical Kadú Monteiro descreve a melhor amiga, com quem conviveu por 22 anos. Produtora, artista e cantora nascida em São Gonçalo, no Rio, ela usava a arte nos palcos para dar voz a mulheres, negros e LGBTs. Morta com suspeita de coronavírus na semana passada, deixou um legado em casa pessoa com quem dividiu a paixão pela arte. Sua companhia de teatro, “Agromelados”, segue levando seu nome.

Mário Borba, 68 anos

Empreendedor que patrocinava o esporte

Mário era empresário conhecido em Joinville (SC). Há 25 anos, fundou uma fábrica de tubos num galpão de 600m², com três máquinas e quatro colaboradores. Hoje, a empresa gera 1,5 mil empregos. Era ainda diretor do Joinville Iate Clube e patrocinava modalidades esportivas na região e a Associação Paralímpica de Joinville. Ele apresentou sintomas de Covid-19 após voltar dos EUA, ficou uma semana na UTI, mas não resistiu. Deixa mulher, dois filhos e quatro netos.

Cleuza Fernandes, 32 anos

Vendedora é a vítima mais jovem no Rio

Há 5 anos, Cleuza vendia doces na rodoviária de Rio Bonito, onde ficou conhecida no bairro pelo bordão “toda hora sai”, em referência às mariolas que comercializava. No último dia 17, tornou-se a vítima mais jovem do coronavírus no estado do Rio. Morava com companheiro e irmãos e deixou três filhos, de 12, 8 e 6 anos, que estavam sob os cuidados de sua mãe. Ela sentiu-se mal no dia 8 de março e foi medicada na UPA local.Após 2 dias, com falta de ar, foi hospitalizada e não resistiu.

Bruno Leite, 29 anos

Alegria nos ‘rolês’, com um pé na política

Os amigos de Bruno lembram-se de um cara feliz, engraçado. Cabeleireiro, desde 2018 era funcionário da Prefeitura de Embu das Artes (SP). Morreu sem ver um projeto de que participava ser erguido: o centro de combate ao coronavírus da cidade, um dos primeiros n Brasil. Assim como em outros casos, a evolução dos sintomas parecidos com os de uma gripe foi rápida. Em poucos dias, Bruno já estava na UTI e não resistiu.

Luzia da Silva, 60 anos

Aposentada com planos incompletos

Em outubro do ano passado, Luzia Alves Dias da Silva se aposentou. Ativa e independente, a servidora pública não queria ficar parada: foi aprender a dirigir e a costurar . Entre as vítimas da Covid-19 no Rio, Luzia, que atuou por 39 anos na Secretaria da Mulher de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, deixou alguns planos incompletos e não viu alguns desejos se concretizarem, como ter um neto e a mudança programada da família para Portugal.

Maurício Suzuki, 26 anos

Maratonista e fora dos grupos de risco

Formado em Direito, fã de maratonas e outros esportes, o advogado Maurício Suzuki, de 26 anos, foi uma das vítimas que demonstrou que, apesar de ser um perigo particularmente para idosos, a Covid-19 pode afetar jovens. Trabalhava em escritório, mas sua maior paixão era correr. “Essa não é uma doença em que se tem que tomar cuidado só com você. Tem que tomar cuidado com o outro, porque se transmite’’, disse a irmã dele, Simone.

Martinho Lutero, 66 anos

Cinquenta anos de amor à música clássica

Martinho Lutero nasceu no interior de Minas Gerais, filho de um pastor que o batizou com o nome de um dos líderes do protestantismo. Durante seus 66 anos de vida, o músico, que não era religioso, se dedicou à promoção e difusão da música clássica para todas as classes e em diversos países do mundo. Após retornar da Itália, o que parecia ser uma gripe se agravou. A Covid-19 evoluiu para pneumonia e o maestro não resistiu.

Daniel Azulay, 72 anos

O desenhista que marcou gerações

Popular entre os anos 1970 e 1990 por programas infantis na TV, o artista plástico Daniel Azulay criou a “Turma do Lambe-Lambe”, inicialmente como tirinha do jornal “Correio da Manhã”. Seu programa foi exibido por mais de 15 anos na TVE e na Rede Bandeirantes, marcando gerações com o bordão “Algodão doce para você”. O carioca de 72 anos fazia tratamento contra a leucemia e deixou a mulher Beth, a filha Paloma e o neto Baruck.

Naomi Munakata, 64 anos

Maestrina estudava música desde os 4

A Covid-19 levou outro nome importante da música brasileira, a regente do Coral Paulistano do Theatro Municipal de São Paulo, Naomi Munakata. Sua ligação com a música nasceu na infância, quando participava do coral regido pelo pai. Aos 4 já estudava piano. Durante a carreira, passou também pelo Coro da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. A morte de Naomi Munakata teve repercussão internacional.