Na pior hora da crise, resposta do Congresso é pauta-bomba para Bolsonaro

Ministros Paulo Guedes e Luiz Eduardo Ramos em encontro com Rodrigo Maia em fevereiro. Foto: Adriano Machado/Reuters

Pouco antes de embarcar para os Estados Unidos, em uma escala em Boa Vista (RR), Jair Bolsonaro conclamou seus apoiadores a participar dos atos marcados para o próximo dia 15. “É um movimento espontâneo, e o político que tem medo de movimento de rua não serve para ser político”, disse o presidente que até outro dia fazia vista grossa para declarações dos filhos e de ao menos um ministro em defesa de um novo AI-5 caso opositores, a exemplo do Chile, fossem às ruas contra o governo.

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Bolsonaro frisou que a manifestação, que conta com hashtags do tipo #queroRodrigoMaiaNaCadeia, não é contra Legislativo ou Judiciário, e sim “pró-Brasil”. 

A resposta veio na quarta-feira (11). Em uma sessão conjunta, deputados e senadores derrubaram o veto do presidente a um projeto de lei que eleva o limite de renda para a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

É a volta da chamada pauta-bomba, já que no momento em que o governo faz malabarismo para fechar as contas, o Congresso estendeu o direito ao benefício a idosos com mais de 65 anos e pessoas com deficiência com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo, o equivalente a R$ 522,50. Antes o limite era de quarto do salário (R$ 261,25). Ou seja: mais pessoas receberão o benefício.

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Às vésperas da manifestação, Bolsonaro pode até conseguir reforçar o mito do presidente amarrado, que só não mudou o país ainda em razão de “forças ocultas”, ou nem tão ocultas assim, que o impedem de governar -- ou manejar o orçamento como quer.

Só que a medida, que amplia um benefício para pessoas em situação de pobreza, tem alto apelo popular. Brecar a proposta reforçaria a ideia de que o presidente não se importa com essa parcela da população. E que os movimentos de domingo são, na verdade, um ato elitista em defesa de um governo que já mostrou a que veio.

A audácia do Congresso pode ser interpretado de várias maneiras. Ou seus líderes não temem o rompimento das cordas de equilíbrio entre poderes ou perderam a noção das consequências. Foram para o tudo ou nada.

Numa conta baixa, o efeito nas contas públicas estimado pelo Ministério da Economia, que promete recorrer contra a medida, é de ao menos R$ 20 bilhões por ano. De onde vai sair? Ninguém sabe.

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A posição de ex-apoiadores de Bolsonaro na sessão dão mostras do desarranjo da base bolsonarista no Congresso. Um exemplo é a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-líder do governo no Congresso que agora faz coro à oposição. “Na natureza pura dos números, é algo que pode ser negativo, mas, quando olhamos o mérito dessa questão, estamos falando de deficientes físicos, de mães de crianças com hidrocefalia e tantos outros problemas. Nós estamos falando de gente pobre, miserável. Não podemos dizer não às pessoas que precisam”, disse.

Acredita quem quer na preocupação sincera e desinteressada da deputada, agora, com a população que mais precisa.

Em público, até Rodrigo Maia (DEM-RJ) se opôs à decisão dos congressistas. “O impacto é grande. Em um momento difícil, em um momento em que a economia brasileira já começa a dar sinais de que não vai crescer o que estava projetado no início do ano, em um dia em que foi decretada pandemia [do coronavírus], com as bolsas caindo muito, com um nervosismo grande dos atores econômicos, acho que foi uma sinalização equivocada”, disse o presidente da Câmara.

Enquanto isso, os mercados derretem, e o dólar acaba de passar a barreira dos R$ 5. Com pouco mais de um ano de governo, Bolsonaro enfrenta agora a fase das pautas-bomba. Pode até pedir arrego. Mas, dado o histórico e as piscadelas recentes, é mais provável que dobre a aposta. Vem mais bomba por aí.