Conceição Evaristo: “Os brancos aliados dos negros não fazem mais do que a obrigação”

Conceição Evaristo: “Os brancos aliados dos negros não fazem mais do que a obrigação”. Foto: Barbara Lopes

Texto: Nataly Simões | Edição: Simone Freire

As escritoras Conceição Evaristo e Sueli Carneiro foram homenageadas no livro “Raça e gênero: discriminações, interseccionalidades e resistências”, que reúne artigos jurídicos, das ciências sociais, da psicologia e da literatura produzidos por professores e pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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Em entrevista ao Alma Preta, durante o lançamento da obra que contou com cerca de 500 pessoas no Teatro Tuca, na Zona Oeste da cidade, nesta segunda-feira (9), Conceição Evaristo destacou que ter sua atuação na literatura homenageada é mais uma prova da resistência da comunidade negra.

“Essa homenagem em meio aos ataques que a Academia tem sofrido no país é prova da nossa resistência. As pessoas que passam por algum processo de exclusão, como as mulheres negras, sempre precisaram de enfrentamento e essa resistência é algo que provamos desde sempre. Vai haver interdição, mas vamos continuar audaciosas”, contou.

Conceição Evaristo é autora de obras como “Olhos D’água” (2014). Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria “Contos e Crônicas”, o livro retrata a violência sofrida pela comunidade negra, em especial as mulheres, nas periferias das grandes cidades. De acordo com a autora, a trajetória de feministas negras em espaços acadêmicos foi fundamental para o seu sucesso na literatura.

“O papel que mulheres negras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, com quem compartilho essa homenagem, tiveram ao confrontar o feminismo branco foi muito importante para a minha formação. As reflexões dessas mulheres são a base do meu texto literário. Minha ficção é profundamente marcada pela minha condição de mulher negra e pelo trabalho dessas mulheres”, explicou.

Sueli Carneiro, por sua vez, lembrou que o protagonismo das mulheres negras dentro das discussões sobre gênero aumentou e fez da questão racial um ponto crucial para o avanço social de todas as mulheres do país. 

“Nos últimos 40 anos o protagonismo das mulheres negras se expandiu e tornou a questão racial um desafio para a emancipação das mulheres brasileiras. As mulheres que antes ficavam para trás hoje são aquelas sem as quais avanços não serão possíveis. As mulheres negras querem um feminismo que não deixe ninguém para trás”, pontuou.

“A questão racial não é um problema para o negro resolver”

Conceição Evaristo lembrou ainda que os espaços de disseminação de pesquisa são majoritariamente ocupados por pessoas brancas. Para ela, é importante que pessoas negras tenham aliados nesses espaços, no entanto, é uma ação que deve ser vista com cautela. 

“Os brancos que se colocam como nossos aliados não fazem mais do que a obrigação porque a questão racial no Brasil não é para o negro resolver. Somos gratos pelo espaço acadêmico, pois ter aliados dentro da Academia é fundamental para os nossos estudos. As pessoas brancas, no entanto, devem estar cientes de suas responsabilidades e entender que não estão fazendo nenhum favor”, ponderou.

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