Comunismo é pior para o ambiente que o capitalismo, diz pensador Frédéric Martel

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Muitos ambientalistas dizem que precisamos acabar com a economia de mercado. E vamos fazer o que? Recriar a União Soviética? O comunismo é pior para o meio ambiente que o capitalismo, que também não é o melhor, mas precisamos alimentar 8 milhões de pessoas por dia e isso não se faz com a política comunista da China", cravou o sociólogo e escritor francês Frédéric Martel durante sua palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento nesta segunda-feira em São Paulo.

Autor de best-sellers como "No Armário do Vaticano", sobre os casos de corrupção dentro do Vaticano, e de títulos como "Mainstream", lançado há dez anos, e "Smart", de 2015, Martel defendeu em sua palestra o já conhecido conceito de que a globalização é também um fenômeno territorializado.

Lembrando exemplos como a China, a Índia e a Rússia, o sociólogo falou sobre como o fato de esses países não possuírem ferramentas de pesquisas e mídias sociais consideradas globais, como YouTube, Facebook, Google e Twitter, impede que o conceito de globalização da internet seja facilmente aceito.

"Não digo que todas as ferramentas serão territorializadas, mas os conteúdos, sim", afirma. "No Vale do Silício, acreditavam que o mundo seria plano, uma superfície sem atritos. Não acredito nessa análise, uma vez que a realidade é fundamentalmente diferente do imaginado. A cultura e a identidade impedem que o mundo seja plano. No lugar de um etnocentrismo, eu observo o fim dos fluxos únicos e o nascimento de múltiplos, de contraditórios, de muitas trocas. Nunca fomos nem nunca seremos seres globais", afirma.

Defensor do uso do meio ambiente como uma influência na cultura e na economia de um país através do ecoturismo, Martel iniciou sua palestra dizendo que não falaria de política, mas não evitou críticas ao governo de Jair Bolsonaro no que diz respeito à pauta ambiental e teceu elogios ao governo Lula e à ex-presidente Dilma Rousseff, ambos do PT.

Sobre o período em que o ex-presidente e atual candidato à eleição esteve no poder, o sociólogo foi categórico ao afirmar que todos tinham inveja quando ele anunciava que viria ao Brasil. "As pessoas vinham ao Brasil imaginando o futuro. Gilberto Gil era ministro, era um deus ministro. Hoje ninguém mais fala do Brasil, ou fala mal. É o país que queima a Amazônia, que não aceita ajuda do G7 para conter queimadas. No caminho esquecemos a bossa nova, o samba, Caetano Veloso."

E, sobre Dilma, Martel elogia o fato de a ex-presidente ter sido figura visionária no que diz respeito ao territorialismo digital e econômico. "Dilma estava 15 anos à frente ao falar sobre geolocalização. Ela disse que era preciso uma territorialização porque quando houvesse um problema com o Google, você não precisaria escrever para San Francisco, mas para um escritório aqui, é preciso que haja esse pensamento."

Ainda no campo político, o escritor comentou o papel da internet e das redes sociais em causas políticas, como as eleições de Jair Bolsonaro e Donald Trump e o brexit, todos fenômenos com campanhas iniciadas no campo digital.

"As redes fizeram tudo isso, mas também elegeram Joe Biden e Macron, também podem eleger Lula, não se pode dizer que a extrema direita seja de fato dominante neste campo. Há fatores prejudiciais nas redes, mas as fake news não são um fator novo. O que precisamos é regular isso tudo, mas não acredito que o mundo se destruiria para sempre pela evolução digital."

"A globalização é o que permite alimentar 8 milhões de pessoas, vestir todas elas, fazer com que trabalhem a preços baixos, precisamos disso. Depois que corrijamos os excessos", afirma.

O ciclo Fronteiras do Pensamento continua com uma programação online e presencial —em São Paulo e Porto Alegre— até novembro, com nomes como Élisabeth Roudinesco, Luc Ferry, Steven Johnson e Marcelo Gleiser.

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FRONTEIRAS DO PENSAMENTO - TECNOLOGIAS PARA A VIDA

Quando: 08/08 a 18/11

Onde: São Paulo, Porto Alegre e na plataforma digital

Preço: R$ 663,60

Link: https://fronteiras.com

Acessibilidade: Arquitetônica: Há acesso e circulação sem barreiras físicas, sanitário adequado e local reservado para cadeirantes com acompanhante