Comparada com Lady Gaga, música de Beyoncé resgata origens negras da house music

Beyoncé acaba de lançar o single
Beyoncé acaba de lançar o single "Break My Soul" (AP Photo/Chris Pizzello, File)

"Break My Soul", novo single de Beyoncé, acabou causando uma polêmica inesperada nas redes sociais quando fãs compararam a batida da faixa, que resgata influências da house music, com a pegada dance do álbum mais recente de Lady Gaga, "Chromatica".

No Twitter, muitos comentários reclamam que "Break My Soul" é uma cópia "malfeita" das músicas de Gaga, e que a faixa traz elementos genéricos de dance music que não fazem sentido em relação à carreira de Beyoncé.

A concepção de que house music é algo recente, entretanto, não só não faz sentido como é um apagamento das origens negras do estilo. Lady Gaga não inventou os elementos utilizados em "Chromatica", e praticamente toda a música pop dos últimos anos resgata influências de gêneros fundamentalmente negros como o rock, house, a disco e o techno.

A house music veio da cultura negra

Assim como o rock ficou conhecido a partir de Elvis Presley mas na verdade é um gênero que surgiu a partir de ritmos negros como blues e R&B, a house music surgiu nos anos 70 a partir de DJs e produtores experimentais de comunidades marginalizadas.

Mesclando de elementos de funk, soul, disco e batidas sintetizadas, a house começou em Nova Iorque em meio à efervescente cena cultural incentivada por movimentos como a revolta de Stonewall, marco de direitos sociais para a comunidade LGBTQIAP+ dos EUA.

Em 1970, o DJ David Mancuso criou a festa privada The Loft, na qual só era possível entrar com convite. Os convidados, em sua maioria pessoas pretas, LGBTQIAP+ e latinas, dançavam ao som de ritmos como R&B, soul e rock psicodélico, e o local foi inspiração para o club The Loft, festa que trouxe ritmos underground para a pista. O DJ e produtor Larry Levan, convidado do The Loft, foi um dos veteranos responsáveis pela popularização da house music em festas como o The Loft e o Paradise Garage, tocando para plateias pretas e LGBTQIAP+.

Frankie Knuckles, outro veterano da house music, também desempenhou um papel crucial na popularização do gênero, produzindo artistas como Whitney Houston, Michael Jackson e Depeche Mode. Em 1983, ele abriu seu próprio clube "Power Plant", voltado especificamente para dar à população preta e marginalizada um lugar para dançar e celebrar suas origens. Essa mesma cultura possibilitou a criação dos balrooms, locais protagonizados por pessoas pretas que trouxeram influências culturais inéditas mais tarde apropriadas por artistas brancas como Madonna.

Após o surgimento da house music, gravadoras como a Trax Records e a DJ International Records investiram pesado na divulgação de faixas como “Music Is The Key” de JM Silk e "Love Can’t Turn Around", hit de Farley 'Jackmaster' Funk e Jessie Saunders que atingiu o topo das paradas britânicas e norte-americanas. Nos anos seguintes, o gênero chegou à Europa com diversas festas e raves underground, além de clubes como Shroom, em Londres, e o famoso The Haçienda, comandado pela banda New Order, em Manchester. Com a popularização do gênero pelo mundo, a sonoridade vinda da black music começou a ser neutralizada aos poucos, tornando as músicas mais genéricas e fáceis de serem vendidas para DJs e produtores que faziam música eletrônica voltada para pessoas brancas e de maior poder aquisitivo.

"Break My Soul" não é uma cópia de "Chromatica"

"Break My Soul" é uma homenagem de Beyoncé a toda essa cultura preta que trouxe a house music para o mainstream. Em entrevista alguns meses antes do lançamento de "Chromatica", Lady Gaga se posicionou contra a cultura de apagamento das origens negras da música, especialmente quando falamos de pop e música eletrônica. "Todos nós que nascemos nos EUA bebemos do veneno que é a supremacia branca. Toda música na verdade é música negra, isso é um fato".

Ao lançar "Chromatica", Lady Gaga fez uma playlist com as influências que teve ao trabalhar na unidade do álbum, e um dos artistas citados foi Frankie Knuckles, pai da disco music e DJ e produtor preto.