Quarentena é o momento perfeito para você aprender como se planejar

Para quem pode, planejar é essencial para facilitar momentos de crise. (Foto: Getty Creative)

Em um momento de crise como o que vivemos agora, pensar em planejamento parece um absurdo. Porém, é em fases como esta que ele se torna ainda mais importante e necessário. Acredite, se há um momento para você aprender como se planejar, pensando inclusive no longo prazo, esse momento é agora. 

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O cientista político Rodrigo Prando comentou em uma entrevista recente ao Yahoo como o brasileiro vem de uma cultura imediatista e de falta de planejamento. Não à toa, para ele, o Brasil segue tomando decisões que remediam problemas à curto prazo, mas não pensam no futuro do país - a falta de investimentos em educação e saúde são o exemplo mais claro disso. 

Para o psicólogo Ronaldo Coelho, da Universidade de São Paulo, planejar implica em uma organização de processos com a finalidade de executar uma tarefa. Ou seja, é buscar um caminho para se chegar a um objetivo. 

Não necessariamente, essa organização depende de uma agenda ou calendário - ela pode, inclusive, ser mental, uma forma de você colocar os pensamentos em ordem e entender o que você busca. "O planejamento possibilita uma prévia organização psíquica da pessoa frente a cada momento em que as coisas vão acontecendo", explica.

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Em termos práticos, o planejamento é uma forma de lidar com as ansiedades do dia a dia, deixando você emocionalmente preparado para o que vem a seguir. Ao terminar uma tarefa, e sabendo qual o próximo passo, você não se sente angustiado ou perdido, mas seguro do que precisa ser feito a seguir. Ao mesmo tempo, em casos de imprevistos, você não se vê perdido e sabe melhor como contornar a situação.

Tipos de planejamento

Você pode fazer planejamentos de três naturezas: 

  • Longo prazo: algo como um plano de vida. Alcançar a independência financeira é um tipo de planejamento a longo prazo, por exemplo. 

  • Médio prazo: o que você gostaria de alcançar nos próximos cinco anos. 

  • Curto prazo: planos para as próximas semanas ou meses. 

Cada um desses planos ou metas têm a sua própria organização, que entram, por sua vez, na forma como você leva o seu dia a dia. Aqui, a rotina é essencial para você saber quais passos precisam ser tomados hoje ou na próxima semana, para que cada um desses planos sejam alcançados. É aqui que entra a sua agenda ou calendário, por exemplo, e a definição das suas prioridades, diariamente. 

Lembrando sempre que, nesse combo de planejamento, a organização psíquica e emocional sempre andam juntas. "A organização mais cotidiana é fundamental para uma organização psíquica, emocional. Elas estão lado a lado. Quando nos desorganizamos emocionalmente ficamos mais atrapalhados nas tarefas cotidianas e o contrário também acontece, quando estamos com nossos dias bagunçados tendemos a nos desorganizar psiquicamente."

Se a dúvida que surgiu depois de ler este texto até aqui é "Como começar a me planejar?", saiba: você vai precisar olhar para si mesmo em primeiro lugar. "Penso que todo planejamento deve começar por aquilo que se quer", explica o psicólogo. "O que queremos não é o que gostamos. Nossos gostos podem dar uma pista, mas o que queremos para nossa vida pessoal, amorosa, profissional, implica um exercício de entrar em contato com aquilo que existe silenciosamente em nós como o ideal". 

A partir daí é que você pode traçar um plano para conseguir caminhar para alcançar esse ideal ou chegar o mais próximo possível dele com os recursos que tem agora. 

Não consigo me planejar, e agora? 

Existem muitos motivos que explicam porque as pessoas não conseguem se planejar - ainda mais em um país como o Brasil. Por aqui, onde mais de 52 milhões de pessoas estão abaixo da linha da pobreza, de acordo com dados do IBGE, pensar em planejamento é um luxo. 

Em outro âmbito, Ronaldo explica que, boa parte das vezes, as pessoas têm dificuldade de se responsabilizarem pela própria vida. "Nestes casos, não planejar significa esperar que as coisas se resolvam por si, pela força do universo ou por Deus, a depender da crença de cada um, que pode contribuir para essa desresponsabilização", diz. 

Não estimular esse olhar interno também pode dificultar o planejamento. Se você não sabe o que quer, onde quer chegar ou o que quer realizar, traçar um plano de ação fica complicado. É comum, inclusive, algumas pessoas se esconderem atrás de rotinas ultra organizadas para não verem, de fato, o que querem. Fazer uma pausa para descobrir os seus quereres verdadeiros é essencial nesse processo. 

"Por último, vale citar os que temem a frustração. Quem planeja tem de encarar o risco de se frustrar e ter que replanejar, tem que se haver com o fato de não ser suficientemente bom ou lidar com uma possível rejeição e por aí vai", diz o psicólogo. 

Quais as vantagens do planejamento? 

Um ponto muito importante de ser entendido é: a falta de planejamento deixa você à deriva. Ao mesmo tempo, montar um planejamento que não esteja alinhado com o que você realmente quer é sem sentido, por mais que esses planos pareçam caminhar. 

Nesses casos, quando bate uma situação de crise como a que estamos lidando agora, a frustração é muito grande e a sensação de não saber o que fazer é avassaladora. O momento, porém, não é de desespero ou se de martirizar por um planejamento mal-pensado ou inexistente, pelo contrário. "Uma postura compreensiva vale mais que uma postura punitiva consigo mesmo", explica Ronaldo. 

O modo como vivemos hoje vai se transformar radicalmente depois da crise do coronavírus. É impossível saber se os seus planos, da forma como foram pensados antes da crise, vão se concretizar da maneira como você idealizou. Também não é possível prever o que vai acontecer e como a vida vai se desenrolar daqui para a frente. 

Garantir, primeiro, a sobrevivência para depois começar a pensar à frente é essencial em um momento como esse (Foto: Getty Creative)

O planejamento, então, entra aqui como uma forma de aposta. E, como toda aposta, existem riscos, sejam positivos ou negativos. Mas um bom balizador é o conforto de cada um. Buscar se planejar para, neste momento, garantir a sobrevivência é tão importante quanto pensar em um planejamento a longo prazo. Certificar-se primeiro das necessidades básicas para, quando essas estiverem supridas, pensar a frente é um primeiro passo essencial a ser dado agora. 

"Se a pessoa consegue garantir que irá sobreviver e garantir a sobrevivência de sua família, isso traz uma paz de espírito que possibilita acessar essa outra dimensão mais profunda do planejamento com mais tranquilidade", explica Ronaldo.

A partir desse ponto, repensar a sua carreira, adaptar o seu trabalho ou mudar de ramo, rever o modo como você se relaciona com as pessoas, seja profissional ou afetivamente, os seus hobbies e até o que são os seus momentos de lazer se torna uma tarefa mais tranquila e menos aterrorizante. "É mais fácil evacuar um prédio que está pegando fogo se ele não estiver caindo", completa o psicólogo. 

Em resumo: pensar no agora é, sim, muito importante, ainda mais quando lidamos com uma situação tão extrema. Porém, é essencial também buscar pensar a frente, entendendo como as ações que temos hoje afetam o futuro - não só nosso, mas de todos. Planejar, no fim das contas, segue sendo visto como um luxo, mas se torna cada vez mais uma necessidade básica.