"Como se estivesse enterrando meu filho novamente", diz mãe de recruta sobre julgamento

Famílias fizeram camiseta homenageando vítimas. Foto: Arquivo Pessoal

A Justiça Militar da União absolveu dois capitães da ativa e condenou um ex-tenente, um ex-cabo e um ex-soldado pela morte dos três recrutas que se afogaram em 2017 em um lago de Barueri, na Grande São Paulo, durante um treinamento do Exército, e por ferirem um outro jovem que sobreviveu.

Os dois capitães foram absolvidos por maioria de votos e os condenados vão responder por homicídio culposo e lesão corporal em regime aberto. O resultado do julgamento deixou as famílias das vítimas Wesley da Hora, Victor da Costa e Jonathan Turella, que tinham idades entre 18 e 19 anos, em estado de choque.

Após quase três anos buscando respostas sobre o crime, a Justiça chegou à conclusão que os jovens foram vítimas de um tipo de “trote” durante o treinamento e que foram obrigados a entrar dentro do lago mesmo sem terem conhecimento de como nadar.

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Para as famílias, a pena de pouco mais de dois anos de prisão para o ex-tenente Rodrigo de Oliveira Salatiel, o ex-cabo Felipe de Oliveira Silva e o ex-soldado Jorge Henrique Custódio Avanci e absolvição de Moisés Lopes da Silva Júnior e Luiz Henrique Machado Brites não correspondem à gravidade dos crimes. Agora, os condenados poderão recorrer da sentença em liberdade.

No entanto, um dos advogados das famílias das vítimas já afirmou à reportagem que a promotoria entrará com um recurso. “Entendemos que, pela gravidade dos fatos, a condenação deveria ter sido maior”, afirmou o advogado Tiago Miranda.

Michelly Turella, mãe de Jonathan, que morreu aos 19 anos, afirma que a sentença fez com que ela se sentisse totalmente humilhada. “Estou frustrada, pisada, acabada. Foi como se eu estivesse enterrando meu filho novamente naquele lugar. Eu percebi que é isso o que vale uma vida para a Justiça”, diz muito emocionada.

Michelly com o filho Jonathan, que morreu em treinamento. Foto: Arquivo Pessoal

“A palavra certa para falar sobre isso é destruição. Mais uma vez, o Exército conseguiu destruir uma família. É isso o que eles fazem e é o que eles fazem por prazer. Eu tenho nojo dessa instituição que eu tanto acreditei. Eu entreguei o meu filho vivo para eles. Ele era um menino de 19 anos, que estava feliz de estar servindo a pátria. E eles me entregaram o meu filho dentro de um caixão”, afirma a mãe.

Segundo ela, as famílias estavam confiantes no começo do julgamento, que aconteceu na última quarta-feira (29). Porém, depois de mais de 12 horas, foi lida a sentença que fez com que Michelly perdesse todas as esperanças. “Eu pensava que a Justiça Militar era diferente, que ela pegava firme. Mas, infelizmente, ela é igual a qualquer outra”, diz. 

“Os oficiais saíram rindo, felizes, por serem absolvidos. Os outros três saíram de cara fechada, mas você via a família deles feliz, eu vi a mãe abraçando, beijando. E nós? Quem a gente iria abraçar naquele momento, se os nossos filhos estavam debaixo da terra? Eu me senti vazia. É isso o que vale a vida do meu filho: nada. Meu filho é um nada”, afirma Michelly.

Segundo ela, em alguns momentos da audiência chegou a ser dito por um dos advogados de defesa dos réus que os recrutas tinham entrado no lago porque queriam. “Tentaram culpar os nossos filhos. Em um depoimento foi falado que foi uma cena de terror, que, quando tiraram o primeiro corpo, ele já estava morto e inchado”, relata.

“Os outros dois que foram achados depois também já estavam mortos. Eu descobri que meu filho já saiu morto daquele lugar. É triste falar disso porque foi uma luta constante, sabe? Só eu sei o que a gente está passando durante esses três anos. Só eu sei as crises que eu tenho, os remédios que eu tenho que tomar. Só eu sei a luta que é levantar todos os dias e viver”, lamenta.

“Foi provado que houve um trote e que o maior responsável foi o cabo Felipe Silva, que chegou até a passar mal na hora. O soldado também chorou. Mas eles estão vivos, né? Eu estou muito decepcionada. Eu não tenho palavras para descrever o que eu estou sentindo. Estou acabada”, finaliza.